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O mártir da Papudinha

Por que Bolsonaro preso é o maior risco de 2026?


Por Lea Oksenberg


No xadrez político brasileiro, a prisão de um líder com o apelo de massas do imbrochável nunca é apenas uma questão de justiça. É um terremoto eleitoral. O isolamento na Papudinha não silenciou o ex-presidente. Pelo contrário, transformou sua luxuosa cela em um centro de romaria e a sua saúde em munição de propaganda.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

A estratégia - O uso político da fragilidade física não é novidade na nossa história recente, mas aqui ganha contornos de sobrevivência. Os sucessivos boletins médicos — que detalham desde pneumonias graves até as (supostas) sequelas da facada de 2018 — servem a um propósito duplo: humanizar o "capitão" perante os seus seguidores mais radicais e pressionar o STF por uma prisão domiciliar que devolva ao inominável o contato direto com as bases.


Essa parcela da população, que se sente desprezada pela nata, encontrou nele uma identidade. Para esse público, cada linha de um laudo médico não é informação técnica, é a prova de um martírio. Eles se enxergam na pele do líder e fazem de cada boletim de saúde um motivo para acreditar que o sistema está tentando tirar a vida do homem que eles decidiram seguir cegamente.


O perigo


A inelegibilidade e a reclusão forçam o inelegível a jogar parado, mas não o impedem de mover as peças. A sinalização de Flávio Bolsonaro como herdeiro direto para 2026 cria um nó perigoso. Se o "filho zero um" vencer, o Brasil poderá ver uma bizarrice democrática: um presidente da República que governa sob as ordens de um pai preso.


O risco é a criação de um governo paralelo. Se o sucessor mantiver o pai atrás das grades para não brigar com a justiça, ele trai o próprio eleitorado. Se libertar o capitão por decreto, ele atropela o Supremo e incendeia o país. Nos dois caminhos, o poder de verdade não estaria no Palácio do Planalto, mas na cela de onde partem as ordens.


O palanque


O mito preso pode ser mais perigoso para o país do que solto. Livre, ele é um político sem direitos tentando não ser esquecido. Preso, ele vira um símbolo de resistência para milhões. O desafio de 2026 não será apenas vencer o "poste" nas urnas, mas decidir o que fazer com a sombra de um líder que, mesmo trancado, se recusa a sair de cena.


Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Chico Buarque e Gilberto Gil

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