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O milagre da multiplicação dos domingos

Por Lea Oksenberg


O brasileiro é um povo criativo, mas quem inventou a escala 6 por 1 foi além: criou o "descanso de mentira". Folgar um dia depois de seis de trampo não é folga, é apenas o tempo necessário para o corpo não esquecer como é que se fica na horizontal. É aquele dia que passa em velocidade dupla. É quando você acorda com o barulho da máquina de lavar e dorme com a música do Fantástico batendo na porta.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Agora, a conversa da vez é mudar o jogo. Tem gente falando em 5 por 2, outros sonham com o 4 por 3. No fundo, o que a gente quer é o direito básico de ser dono do próprio relógio. Imagina que luxo: ter um dia para resolver a vida, outro para ver gente e um terceiro só para o direito sagrado de olhar para o teto sem culpa?


Mas a gente sabe que, nessa matemática, o peso é mal distribuído. Hoje a gente até vê uma divisão mais justa dentro de casa, mas não se engane: a cara de quem organiza o caos ainda tem rosto feminino. O homem pode até lavar o prato, mas quem é que sabe, por instinto, o que está faltando em casa ou que o filho precisa de chuteira nova para a escola?

É a cabeça, o radar que nunca desliga. E se para quem divide o teto já é uma gincana, para a mãe solo a escala 6 por 1 é uma conta cruel que simplesmente não fecha. Para ela, não existe "bater o ponto" na vida real; é um plantão eterno de cuidado, afeto e sobrevivência.


Reduzir a jornada não é preguiça. É humanidade. É permitir que o descanso não seja apenas um intervalo entre um turno e outro, mas um espaço para a gente lembrar que a vida acontece é nos intervalos — de preferência com um pouco mais de silêncio e um pouco menos de pressa. É como diz aquele samba do Arlindo Cruz que toca no rádio: o show tem que continuar, mas a gente bem que merecia um intervalo maior entre um ato e outro.


Afinal, folga de verdade é quando a gente não precisa saber onde está o controle remoto e nem o que vai ter na janta de amanhã.


Está na luta, no corre-corre, no dia a dia

Marmita é fria, mas se precisa ir trabalhar

Essa rotina em toda firma começa às sete da manhã

Trabalhador - Seu Jorge

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