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O passeio de sábado

Por Lea Oksenberg


No século passado, a televisão era invadida por uma euforia que parecia carnaval fora de época. Era um tal de Fulano passou na Federal!, Beltrano passou em Medicina!, com caras pintadas e uma alegria que transbordava da tela, como se tivessem acabado de ganhar na loteria.


Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT).
Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT).

Minha filha assistia a tudo aquilo com um interesse crescente. Para ela, o tal vestibular não era um rito de passagem ou um trauma acadêmico. Era, nitidamente, o lugar mais badalado da cidade. Se todo mundo estava por lá pintando o rosto e jogando farinha, devia ser algo entre um bloco de Carnaval e uma festa à fantasia imperdível.


Até que, num dia de anúncios especialmente barulhentos, ela não aguentou a exclusão social e sugeriu: — Mãe, podemos passar no vestibular também? Só uma passadinha rápida!

Eu, tentando não desmanchar o sonho dela com a minha realidade, além de estar azul de vontade de rir, expliquei que não era bem um lugar onde se passava assim, do nada. Mas lógica de criança é um trator: não aceita negativa de jeito nenhum. Ela me olhou com a praticidade de quem marca uma ida à sorveteria depois do almoço e sentenciou: — Então vamos sábado!


Na cabeça dela, o sucesso era um endereço geográfico. Era só dobrar a esquina, dar um oi para o porteiro e pronto: tínhamos passado no vestibular. Mal sabia ela que, para dar aquela passadinha de sábado, a gente costuma levar uns dezoito anos de maturação, muitos neurônios queimados e baldes e mais baldes de café.


Mas, convenhamos: o mundo seria muito mais simples se as grandes conquistas da vida pudessem ser resolvidas com uma simples voltinha no fim de semana!


Felicidade, passei no vestibular

Mas a faculdade, ela é particular

Particular, particular

Pequeno Burguês - Martinho da Vila

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