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O prédio que encolheu

Ou o instinto que cresceu


Por Lea Oksenberg


Dizem que o perigo é uma questão de perspectiva. No meu caso, demorei alguns anos para descobrir que a minha perspectiva estava a muitos metros de altura.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Tudo começou com aquele clique seco de uma fechadura. O Dani, meu neto, ainda miúdo, transformou o banheiro do meu quarto em uma fortaleza intransponível. Do lado de fora, o silêncio de quem sabe que uma chave normal não aceita desaforo. Do lado de dentro, o riso dele. Ele sempre foi um menino muito calmo, mas eu sabia que aquela diversão de estar trancado tinha prazo de validade.


A solução me pareceu óbvia, quase banal. "Olha, Dani, a vovó já vai aí", avisei. Se a porta não abre, a janela serve.

Saí pela janela do quarto e ganhei o parapeito. Ele era até largo, mas não para a finalidade que eu tinha em mente. De joelhos, engatinhei com cuidado pela borda, me equilibrando com uma determinação que eu nem sabia que tinha. Alcancei o basculante do banheiro, me enfiei por ele e, finalmente, pulei para dentro. Resgatei o pequeno e fomos felizes para sempre. Simples, não?


A simplicidade durou até um churrasco anos depois, na chácara da mãe de uma amiguinha dele. Entre uma carne e outra, cercada por outras mães, contei a proeza como quem narra uma ida à padaria. Falei da manobra, do basculante e do resgate.

— "Mas Lea, em que andar você mora?" — perguntou uma delas, já com os olhos arregalados.

— No décimo quinto, respondi, com a naturalidade de quem diz o número do sapato.


O silêncio que se seguiu foi o meu verdadeiro salto no abismo. Foi ali, no chão firme, que minhas pernas tremeram pela primeira vez. Só ali eu enxerguei a cena: eu, engatinhando do lado de fora de um apartamento, a uma distância vertiginosa do chão, apenas para abrir uma porta. Lembrando que a profissão de chaveiro já existia.


Naquele dia do resgate, eu não calculei riscos. O instinto de quem cuida tem esse defeito de fabricação: ele apaga o abismo. Naquele momento, a altura do prédio não importava; o que importava era o espaço entre o meu joelho e o sorriso do meu neto.


Viver!

E não ter a vergonha

De ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser

Um eterno aprendiz.

O que é o que é - Gonzaguinha

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