OPINIÃO. Cadê a indignação juvenil?
A história das mobilizações estudantis contrasta com uma juventude que, diante das eleições, parece ter deixado de transformar indignação em ação coletiva.
por Gabriela Zadvorne*

Cadê a indignação juvenil?
Parece até uma dúvida simples, mas por trás do questionamento encontramos uma juventude confortável com os resultados eleitorais e o avanço de projetos extremistas no país.
Trancada em casa durante uma dessas severas chuvas que tem como diagnóstico a incidência do El Niño ativo, uma pesquisa sobre juventude e movimento estudantil me fez questionar momentos históricos e o sumiço da atuação juvenil nas eleições de 2026.
Pego carona com a nostalgia do ano de 2022: eleições presidenciais, a superação de Lula e o segundo turno mais importante das nossas vidas. Naquele ano, muitas vozes ousaram dizer: “Nós vencemos o fascismo”. Cedo demais….
Em quatro anos, foram colecionadas tentativas de golpe de Estado, escândalos de corrupção e, de brinde, ganhamos uma crise travada no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, em 2022, para eleger Lula da Silva presidente, a juventude estava na rua. Por que agora está alheia às mobilizações nacionais?
Voltamos no tempo para refletir sobre as grandes indignações juvenis, essas marcadas por grandes acontecimentos. Talvez, como conquista juvenil, a maior vitória da mocidade tenha sido a fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1937.
Organização histórica
A maior entidade de representação estudantil foi o fio condutor para as lutas e disputas da juventude. “O Petróleo é Nosso”, luta contar o golpe militar de 1964, maio de 1968 e tantos outros momentos marcaram a trajetória da UNE, que foi a voz daqueles que manifestaram na rebeldia a indignação das injustiças sociais.
Caímos de paraquedas em 1990, quando já não se via mobilizações nacionais desde o final da década de 1970. A reorganização das entidades estudantis e a demolição da sede da UNE marcaram a década de 1980, mas não se vê juventude na rua desde então.
Ressurge, então, caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, Gilberto Braga com a minissérie Anos Rebeldes, transmitida em todo território nacional pela Rede Globo. Abertura colorida, trama juvenil, amor adolescente, ditadura e Caetano Veloso, e por trás de tudo isso um processo de impeachment aberto contra o presidente da época, Fernando Collor de Mello.
Influenciados pela minissérie Anos Rebeldes, a juventude que não saía às ruas desde o final da década de 1970, tomou as avenidas do país com suas faces pintadas, bom humor e ironia. “Rosane, que coisa feia, vai com o Collor pra cadeia”.
Geração resistência contra Temer
Depois, talvez, as maiores mobilizações puxadas por estudantes tenham sido a Primavera Estudantil. Completando dez anos desde o fato histórico, nomes de grande importância, hoje disputam o cenário político, como a deputada estadual pelo Paraná, Ana Júlia Ribeiro, que ficou conhecida por seu discurso na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), em outubro de 2016.
Ana Julia, tornou-se deputada aos 22 anos de idade, sendo a mais jovem na história do Paraná. Sua atuação revela uma certeza: Ana Júlia é um dos maiores fenômenos deixados pelas ocupações estudantis de 2016, e uma joia para a política brasileira.
Trazendo para uma realidade mais próxima, os “Tsunamis da Educação” também tiveram sua força, mas devido à pandemia de Covid-19, sua efetividade foi transitória. Me recordo que, talvez, a última mobilização orgânica juvenil tenha ocorrido em dezembro de 2022, motivados por um decreto de contingenciamento do governo Bolsonaro que zerou o caixa das universidades e dos institutos federais.
Depois da pandemia
Em 2023, uma nova realidade tomou a vida dos estudantes. Agora, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil pela terceira vez, motivou a juventude com políticas públicas como o programa Pé-de-Meia. O efeito ProUni também reacendeu oportunidades para a nação. Finalmente, a filha da empregada teve as mesmas oportunidades que a filha da patroa.
Não se pode fechar os olhos para as transformações nos últimos quatro anos de governo Lula, mas encaramos hoje uma juventude confortável com direitos assegurados e uma educação de ponta. Como jovem, não posso deixar de me indignar, isso é quase DNA geracional. Mas quando foi que deixamos a indignação de lado?
Vivemos, na última década, um projeto de emburrecimento, o projeto de não se ter opinião, não pensar, não falar, não se posicionar. O silêncio é uma das principais armas contra nossa própria existência, e esse foi normalizado por uma juventude que não se vê mais capaz de ir às ruas pedir Lula no primeiro turno.
Não pode-se culpar uma parte conformada não mede o esforço daqueles jovens que estão enfrentando sol, fortes chuvas e ódio nas ações de rua, barraquinhas e bairros, tudo para a continuidade de projetos que transformaram a vida de muitos brasileiros.
Impulso à luta
Mas me pergunto, quando trocamos nossa indignação por um feed de Instagram? Se não formos para as ruas, lutemos com que temos! Quero acreditar que tudo isso é projeto e reflexo de jovens que viveram parte de sua infância na crise da pandemia. Mas lembremos daquele que dizia “é só uma gripezinha”.
Foram cerca de 716 mil mortes por Covid-19 no Brasil, muitos, talvez, familiares daqueles que preferem não se posicionar. “Se não tem arroz, come macarrão”, o insulto dito por Paulo Guedes em rede nacional, em setembro de 2020, durante a alta de preços do arroz no Brasil, também revela o retrato de um período em que muitos brasileiros passaram fome.
Em 2025, o Brasil saiu do mapa da fome pela segunda vez. Conquista do governo Lula! Parece até brincadeira, mas, no Brasil, isso é considerado uma vitória da classe trabalhadora, pois, durante quase toda a sua história, o país esteve nas mãos daqueles que acreditam que comida no prato é privilégio.
Talvez seja doloroso falar sobre o passado, mas dói muito mais esquecê-lo! Dói na dor da fome, no atendimento precário do SUS, no desmonte da educação. Mas será que nossa juventude vai esperar doer mais uma vez para se mobilizar?
Segundo as pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados no segundo turno, o que nos traz a insegurança e o olhar atento para tentativas de golpes e a implosão do Supremo Tribunal Federal (STF). Se Lula se eleger, serão os últimos quatro anos com direitos assegurados. Espera-se que a partir de 2030, nossa realidade torne-se mais difícil pelo avanço da extrema direita e a falta de quadros para dar continuidade nos projetos de Lula.
Que tal deixarmos nosso individualismo de lado e pensarmos no coletivo? Que tal deixarmos a militância performática das redes sociais e nos mobilizarmos como 2022?
As manifestações contra cortes de verbas e mobilizações Pró-Lula de 2022 foram dosadores fundamentais para a vitória. Faltando duas semanas para o 1º turno, reflete-se, por que não pautar a juventude na rua? Por que não levar todas as dificuldades e anseios de uma juventude afogada pelo hiperfluxo informacional para os centros das grandes cidades brasileiras?
Nenhuma conquista estudantil veio de graça, todas são reflexos da recusa de submissões. As grandes mobilizações juvenis no Brasil sempre foram cíclicas e sempre vieram acompanhadas de crises e grandes acontecimentos históricos. Mas será que teremos que enfrentar mais uma crise, mais um desgoverno e a retirada de direitos para nos indignar?
Ser jovem é uma súplica por transformação. Relembrar as conquistas e as lutas do passado é manter nosso presente em alerta. Aqueles direitos conquistados pelo suor da luta, pode sim ser derrubado pelo silêncio e neutralidade, mas cabe a nós jovens lutar pelo nosso futuro.
Aquele discurso da vontade de mudança não é mais combustível. Precisamos entender quando paramos de nos indignar. O que move a rebeldia é a indignação, e enquanto houver indignação, haverá juventude rebelde e organizada.
Como já dizia Geraldo Vandré “somos todos iguais, braços dados ou não”. Completa-se, com a maior lição travada em sua escrita “quem sabe faz a hora, não espera acontecer!”.
*Jornalista e integrante da juventude do PT
**Este é um artigo de opinião, de responsabilidade de seu autor/a





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