Reportagem I Em busca de uma estação com direitos básicos
- Pedro Carrano
- 26 de fev.
- 4 min de leitura
Mulheres do Tatuquara se organizam e conquistam vagas em Cmeis. Mas problema ainda afeta famílias de trabalhadores em Curitiba
por Pedro Carrano

Nicole Pedroso da Silva há dois anos e meio espera vaga no Cmei para um dos seus filhos, no bairro Tatuquara, na periferia extrema de Curitiba. Depois de anos, conseguiu a vaga, porém ainda buscava lugar para o mais novo.
O fato urgente é que a moradora de área de ocupação conseguiu emprego recentemente, na Shopee, e teria dificuldade para assumir a vaga por conta do filho. O marido já trabalha no Ceasa. Ao lado disso, é fato que na região há um trauma coletivo por conta da morte do jovem Gael, bebê que morreu em 2025 em uma creche irregular na região.
Por essa e outras situações na comunidade, uma comissão de moradoras da Vila União, que atuam na Frente de Organização dos Trabalhadores (FORT), participaram de reunião com o núcleo da Secretaria Municipal de Educação e com a Regional Tatuquara.
O problema é localizado e, ao mesmo tempo, é geral no município. Levantamento realizado em julho de 2025 apontou a existência de 5.665 crianças em fila de espera nos 24 Cmeis da Regional Tatuquara, sendo 1.905 no Berçário I, 1.773 no Berçário II, 1.059 no Maternal I e 928 no Maternal II.
Considerando-se somente os cinco CMEIs mais próximos da Vila União, a fila de espera totalizava 904 crianças, das quais 380 estavam no Berçário I, 309 no Berçário II, 107 no Maternal I e 108 no Maternal II - aponta estudo realizado pela pesquisadora Carla Alessandra Marques, da UFPR.
De forma abrangente, conforme apontamento do jornal Plural, os números são imprecisos e variam. O que também se constatou na mesa de negociação, apontando a necessidade de mapeamento e divulgação constante dos dados.
“No release da prefeitura, a fila daquele ano (2023) tinha 10.964 crianças. Mas em outro pedido de informação, dessa vez da ex-vereadora Professora Josete (PT), a prefeitura informou uma fila em fevereiro de 3.394 crianças”, aponta reportagem do Plural.
A situação das mães do Tatuquara também tem em comum a relação conflituo com o Cadastro online, necessário para crianças de seis meses a três anos. De acordo com nota técnica de Carla Alessandra Marques: “Observou-se que algumas crianças permanecem cadastradas por mais de um ano, ingressando no sistema aos dois anos de idade e não obtendo vaga até os quatro anos, quando o atendimento se torna compulsório”.

Debate, cobrança e conquista
A reunião de ontem contou com a presença do administrador regional, Marcelo Ferraz, do seu chefe de gabinete, Gabriel Rodrigues Gonçalves, além de Teresinha da Silva Medeiros, coordenadora do núcleo local da secretaria de Educação. Estavam em pauta as lutas da Marcha Popular pelo Tatuquara, do dia 31 de maio de 2025, na qual houve o compromisso por parte da gestão e resolução para o problema da falta de vagas nos Cmeis.
A situação de muitas mulheres era urgente, trabalhadoras precisando garantir seus empregos e há meses e até anos sem resposta. Ao final da reunião, a gestão municipal realizou a inserção das crianças da Vila União nas vagas disponíveis nos dois Cmeis de referência: uma vez que havia disponibilidade de 27 vagas no Cmei Júlio Raphael Gomel e 20 vagas no Tania Brandt.
A resolução imediata daquela situação gerou um misto de alegria e choro pela resolução imediata de um problema, no entanto, conscientes do problema estrutural. “Meu netinho é prioridade, já está com seis meses, há quatro meses estou tentando, e agora acabou de abrir a vaga”, comemora Juliana Sauer, trabalhadora de materiais recicláveis.
A reunião contou com a presença da direção do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc). Juliana Mildemberg e Edicleia Farias, coordenadoras sindicais e trabalhadoras da Educação Infantil, contribuíram sobre a situação dos Cmeis do Tatuquara. Mildemberg apontou que um dos problemas atuais é a falta de um mapeamento exato sobre a oferta e demanda de vagas, reforçar o número de equipamentos e o quadro de profissionais da Educação.
“Há turmas fechadas e falta de estrutura de Recursos Humanos. Embora o Tatuquara tenha número grande Cmeis. Nossos empregos enquanto professoras também dependem das crianças que possamos atender”, afirmou. Edicleia complementou: “Como mulher e mãe, constatamos a ausência de políticas públicas, da necessidade de vagas nos cmeis até a condição para um atendimento de qualidade”, afirmou.
Já a pesquisadora Carla Alessandra Marques, da UFPR, que em sua pesquisa de mestrado entrevistou dez mulheres da Vila União sobre as dificuldades no sistema de cadastro online aponta o vínculo dessas barreiras e a entrada da mulher no mercado de trabalho:
“Constata-se que, na ausência de alternativas viáveis ou nos casos em que há mais de uma criança dependente, a solução mais recorrente tem sido a não inserção das mulheres no mercado de trabalho formal”, aponta, em nota técnica feita a partir do seu estudo com 10 mulheres da Vila União.
A conquista das vagas imediatas, a questão da falta de água na comunidade, o risco no trânsito para as crianças, foram alguns pontos em que também houve avanços na mesa de negociação. “A reunião de hoje foi muito importante para melhoria de todas nós, guerreiras”, afirmou Ketlin Cavalheiro da Silva, integrante do movimento, moradora da rua 1 da comunidade.
Como afirma Bárbara Esteche, advogada na Vila União, o debate sobre vaga nas creches toca no ponto central do debate feminista: garantia de políticas públicas para a inserção e respeito da mulher no mercado de trabalho. “É preciso criar um espaço seguro e dar garantia de renda para as mulheres”, aponta.

Compromissos firmados na reunião:
1 - Regional e Núcleo educação vão orientar a comunidade nas dúvidas, canal de atendimento pra comunidade;
2 - Dia 3 de março, Setran visita União pra ver estudo da lombada na rua principal, para com isso evitar risco para moradores, crianças, idosos e pets;
3 - Torneira comunitária pra água, devido à constante falta de água na região;
4 - Vagas nos dois Cmeis da região;
5 - Compromisso de prefeitura apresentar informações gerais daqui a dois meses sobre as vagas nas creches do bairro Tatuquara;
6 – Entrega de ofício sobre o lixo e necessidade de caçambas;





Comentários