13 de maio - O mito da princesa salvadora
- Vigília Comunica

- há 6 dias
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A luta negra apagada da história
por José Pires
Em novembro de 1884, a então recém-construída estrada de ferro Curitiba–Paranaguá se preparava para um momento histórico. Antes mesmo da inauguração oficial, marcada para 1º de fevereiro de 1885, Curitiba recebeu a visita da família imperial: a princesa Isabel, o Conde d’Eu e os filhos Pedro, Luís e Antônio fariam a primeira viagem oficial pela ferrovia. A capital paranaense foi tomada pelo clima de celebração. Casas foram iluminadas, ruas enfeitadas com bandeiras e arcos ornamentais, enquanto autoridades e membros da elite local organizavam homenagens para recepcionar os visitantes ilustres.

Entre essas homenagens, diversas figuras influentes da cidade anunciaram a libertação de pessoas que mantinham escravizadas. Nomes como Visconde de Nácar e Jesuíno Marcondes, hoje eternizados em ruas de Curitiba, estavam entre os que concederam cartas de alforria durante a passagem da família imperial. À primeira vista, o gesto poderia parecer um ato de humanidade. Na prática, porém, fazia parte de uma tradição política da aristocracia brasileira: oferecer alforrias em ocasiões festivas ou durante visitas da monarquia como forma de agradar à corte e demonstrar lealdade ao Império.
A estratégia ganhava ainda mais força diante da reputação abolicionista da princesa Isabel. A libertação de pessoas escravizadas servia, naquele contexto, como uma demonstração pública de deferência política. Anos depois, em 13 de maio de 1888, Isabel assinaria a Lei Áurea, marco oficial da abolição da escravidão no Brasil. Ao longo do tempo, consolidou-se a narrativa de que a princesa teria sido a grande responsável pela libertação da população negra brasileira, uma imagem construída como símbolo de benevolência da monarquia.
Movimentos negros, pesquisadores e organizações de promoção da igualdade racial, no entanto, contestam essa versão da história. A ideia de que a liberdade foi um “presente” concedido pela princesa apaga séculos de resistência protagonizada pela população negra escravizada. Revoltas, fugas, quilombos, articulações políticas e intelectuais lideradas por nomes como Zumbi dos Palmares, Dandara e Luís Gama foram fundamentais para desgastar o sistema escravista e pressionar pelo fim da escravidão. A abolição foi fruto direto da luta negra, e não de um ato de bondade da elite imperial.
Embora tenha extinguido legalmente a escravidão, a legislação não garantiu qualquer política de reparação, inclusão social ou acesso a direitos básicos para os ex-escravizados. Sem terra, moradia, educação, emprego ou assistência do Estado, milhões de pessoas negras foram abandonadas à própria sorte. Em muitos casos, continuaram submetidas a trabalhos precários e mal remunerados, perpetuando condições de exclusão social que atravessaram gerações.
Os reflexos desse processo permanecem visíveis até hoje. A população negra segue sendo maioria entre os mais pobres, ocupa os postos de trabalho mais precarizados e é a principal vítima da violência estatal e do encarceramento em massa. Por isso, para diversos movimentos antirracistas, o 13 de maio não representa uma data de comemoração, mas de reflexão e denúncia sobre o racismo estrutural no Brasil. Nos últimos anos, organizações negras passaram a defender o 20 de novembro — Dia da Consciência Negra, em homenagem a Zumbi dos Palmares como uma data mais representativa da resistência e do protagonismo negro na luta por liberdade, cidadania e igualdade racial.




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