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13 de maio - O mito da princesa salvadora

A luta negra apagada da história


por José Pires


Em novembro de 1884, a então recém-construída estrada de ferro Curitiba–Paranaguá se preparava para um momento histórico. Antes mesmo da inauguração oficial, marcada para 1º de fevereiro de 1885, Curitiba recebeu a visita da família imperial: a princesa Isabel, o Conde d’Eu e os filhos Pedro, Luís e Antônio fariam a primeira viagem oficial pela ferrovia. A capital paranaense foi tomada pelo clima de celebração. Casas foram iluminadas, ruas enfeitadas com bandeiras e arcos ornamentais, enquanto autoridades e membros da elite local organizavam homenagens para recepcionar os visitantes ilustres.

Óleo sobre tela intitulada "O Tráfico de Escravos" (The Slave Trade ou Traite des Noirs), pintada por volta de 1840, por François-Auguste Biard.
Óleo sobre tela intitulada "O Tráfico de Escravos" (The Slave Trade ou Traite des Noirs), pintada por volta de 1840, por François-Auguste Biard.

Entre essas homenagens, diversas figuras influentes da cidade anunciaram a libertação de pessoas que mantinham escravizadas. Nomes como Visconde de Nácar e Jesuíno Marcondes, hoje eternizados em ruas de Curitiba, estavam entre os que concederam cartas de alforria durante a passagem da família imperial. À primeira vista, o gesto poderia parecer um ato de humanidade. Na prática, porém, fazia parte de uma tradição política da aristocracia brasileira: oferecer alforrias em ocasiões festivas ou durante visitas da monarquia como forma de agradar à corte e demonstrar lealdade ao Império.


A estratégia ganhava ainda mais força diante da reputação abolicionista da princesa Isabel. A libertação de pessoas escravizadas servia, naquele contexto, como uma demonstração pública de deferência política. Anos depois, em 13 de maio de 1888, Isabel assinaria a Lei Áurea, marco oficial da abolição da escravidão no Brasil. Ao longo do tempo, consolidou-se a narrativa de que a princesa teria sido a grande responsável pela libertação da população negra brasileira, uma imagem construída como símbolo de benevolência da monarquia.


Movimentos negros, pesquisadores e organizações de promoção da igualdade racial, no entanto, contestam essa versão da história. A ideia de que a liberdade foi um “presente” concedido pela princesa apaga séculos de resistência protagonizada pela população negra escravizada. Revoltas, fugas, quilombos, articulações políticas e intelectuais lideradas por nomes como Zumbi dos Palmares, Dandara e Luís Gama foram fundamentais para desgastar o sistema escravista e pressionar pelo fim da escravidão. A abolição foi fruto direto da luta negra, e não de um ato de bondade da elite imperial.


Embora tenha extinguido legalmente a escravidão, a legislação não garantiu qualquer política de reparação, inclusão social ou acesso a direitos básicos para os ex-escravizados. Sem terra, moradia, educação, emprego ou assistência do Estado, milhões de pessoas negras foram abandonadas à própria sorte. Em muitos casos, continuaram submetidas a trabalhos precários e mal remunerados, perpetuando condições de exclusão social que atravessaram gerações.


Os reflexos desse processo permanecem visíveis até hoje. A população negra segue sendo maioria entre os mais pobres, ocupa os postos de trabalho mais precarizados e é a principal vítima da violência estatal e do encarceramento em massa. Por isso, para diversos movimentos antirracistas, o 13 de maio não representa uma data de comemoração, mas de reflexão e denúncia sobre o racismo estrutural no Brasil. Nos últimos anos, organizações negras passaram a defender o 20 de novembro — Dia da Consciência Negra, em homenagem a Zumbi dos Palmares como uma data mais representativa da resistência e do protagonismo negro na luta por liberdade, cidadania e igualdade racial.

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