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Cortejo a Ogum

Fé, tradição e resistência das religiões de matriz africana


Por Adi Spezia


Organizada pelo Terreiro Sol do Oriente, celebração reúne atabaques, cantos e rituais que reafirmam a tradição e a identidade das religiões de matriz africana no DF e Entorno


Mãe Beth conduzindo o Cortejo a Ogum. Foto: Adi Spezia.
Mãe Beth conduzindo o Cortejo a Ogum. Foto: Adi Spezia.

Entre o som dos atabaques e os cantos sagrados, o cortejo em homenagem a Ogum tomou as ruas de Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, no domingo (19). Organizada pelo Terreiro Sol do Oriente, sob o comando de Mãe Beth de Iansã, a celebração reuniu centenas de pessoas — entre filhos de santo, lideranças religiosas e moradores — em um ato de fé, tradição e afirmação cultural.


Mãe Beth e Mayrá Lima no o Cortejo Ogum. Foto: Adi Spezia
Mãe Beth e Mayrá Lima no o Cortejo Ogum. Foto: Adi Spezia

Nas religiões de matriz africana, Ogum é o orixá da guerra sagrada, do trabalho, do ferro e da abertura de caminhos. No sincretismo religioso, é associado a São Jorge — razão pela qual as celebrações costumam ocorrer em 23 de abril.


Mais do que reverência religiosa, o cortejo teve caráter público e político: “dar visibilidade às religiões de matriz africana no Distrito Federal e no Entorno, promover o respeito à diversidade e enfrentar a intolerância religiosa”, afirma Mãe Beth de Iansã, ialorixá e líder religiosa do Terreiro Sol do Oriente.


Baianas vestidas de branco, quartinhas, água de cheiro, ervas aromáticas e vassouras de palha foram utilizadas no ritual simbólico de lavagem da praça pública da cidade. Ao som dos atabaques, o gesto simbolizou pedidos de paz, saúde e esperança, além de representar purificação e harmonia entre as crenças. A cena chamou a atenção de quem passava.


Foto: Adi Spezia.
Foto: Adi Spezia.

A celebração reforça a presença das religiões de matriz africana no território e seu papel na vida comunitária, diante de um histórico de intolerância. A iniciativa reafirma a força dessas tradições, que integram espiritualidade, resistência, afirmação cultural e participação comunitária.


“A procissão é uma manifestação de fé do Terreiro Sol do Oriente. Louvamos Ogum, orixá que abre nossos caminhos para as vitórias diárias e nos guia na afirmação do nosso direito de professar nossa religião sem sofrer racismo ou qualquer tipo de preconceito”, afirma Mayrá Lima, cientista política e filha de santo da casa.


Mayrá Lima no Cortejo Ogum. Foto: Adi Spezia
Mayrá Lima no Cortejo Ogum. Foto: Adi Spezia

Além do cortejo, a programação incluiu celebrações religiosas, uma missa — expressão do sincretismo presente em muitas comunidades —, a tradicional feijoada de Ogum e uma roda de samba e axé.


Reconhecido pelo acolhimento e pela atuação comunitária, o Terreiro Sol do Oriente também promove o diálogo inter-religioso, combate o preconceito contra religiões de matriz africana, defende o respeito à liberdade religiosa e valoriza a cultura popular de origem afro-brasileira, com atuação destacada no Distrito Federal e no Entorno.


Terreiros como o Sol do Oriente são fundamentais para a preservação das culturas afro-brasileiras e para a afirmação de religiões historicamente marginalizadas no país. Além da dimensão espiritual, são territórios de memória, identidade e resistência.

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