Ação com dezenas de policiais em terreiro de Umbanda causa revolta em Curitiba
- lazzarimlouize
- há 7 dias
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por José Pires
Um operação da Polícia Militar do Paraná, na noite de sábado, 9, repercutiu nas redes sociais e gerou uma onda de questionamentos. Cerca de 14 viaturas PM foram deslocadas para atender uma ocorrência de perturbação do sossego. A quantidade desproporcional de policiais se encaminhou ao terreiro de Umbanda Guerreiros do Vento, no bairro Abranches, em Curitiba.

O número de viaturas era maior que o de médiuns no terreiro. Segundo a dirigente da casa, Talissa Carvalho Huebner, havia 12 pessoas na gira de Umbanda no momento da abordagem policial. “Os policiais invadiram o terreiro, interromperam a gíria e mandaram todo mundo sair”, diz Talissa em um vídeo compartilhado nas redes sociais.
Além das viaturas da PM, segundo a dirigente também participaram da ação a Vigilância Sanitária de Curitiba e a Ação Integrada de Fiscalização Urbana (AIFU). Também nas redes sociais, Talissa questiona a presença destes órgãos fiscalizadores. “Qual a necessidade da vigilância sanitária, por que isso? E sim, nós temos todos os alvarás de funcionamento”, declarou.
A presença de mais de uma dezena de viaturas para atender a uma ocorrência de perturbação de sossego foi criticada por muitas pessoas, como por exemplo, pela vereadora de Pinhais Miss Preta (PT). Ela compartilhou o vídeo do terreiro Guerreiros do Vento classificando a ação como intolerância religiosa. “Olha como funciona a intolerância religiosa aqui em Curitiba. Quatorze viaturas para atender uma ocorrência em um terreiro numa noite chuvosa. O que me chama a atenção é essa quantidade de viaturas, a cidade de Curitiba estava segura ontem, a PM deu conta de todas as ocorrências?”, questionou a vereadora.
O terreiro Guerreiros do Vento vem sendo alvo de denúncias por perturbação de sossego há mais de um ano e chegou a ser multado pela Prefeitura. Para Talissa, todos esses episódios se tratam de perseguição religiosa. Ela relatou outras dificuldades desde que o terreiro se instalou no Abranches no ano de 2024. O centro religioso enfrentou obstáculos, por exemplo, para conseguir seu Alvará de funcionamento já que na época foi exigido que o local tivesse o isolamento acústico de uma casa de shows.
No bairro Abranches, em Curitiba, outro terreiro de Umbanda enfrenta dificuldades para continuar em atividade. Fundado em 1982, o Terreiro Pai Tomé e Mãe Rosária se tornou um símbolo de fé, memória e resistência cultural, mas corre o risco de encerrar suas atividades em meio a um impasse judicial envolvendo a Prefeitura de Curitiba. O conflito se prolonga desde 2005 e deve ganhar novos capítulos nos próximos dias.
Criado por Feliciano Rodrigues e Tereza Rosa de Oliveira, o espaço nasceu com o propósito de preservar tradições, conhecimentos ancestrais e práticas religiosas de matriz africana. Além de funcionar como templo religioso, o terreiro também abriga quatro gerações da mesma família e já existia antes da implantação da área de preservação ambiental na região.
Há cerca de 20 anos, a administração municipal busca retirar o terreiro do local. Em 2010, uma decisão judicial quase resultou na remoção, mas o processo foi encaminhado à Justiça Federal, onde segue sem solução definitiva até hoje. Paralelamente, o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural analisa a possibilidade de reconhecer o espaço como patrimônio cultural por meio do tombamento, medida que pode influenciar diretamente no destino do terreiro.
Representantes de movimentos negros, estudiosos e lideranças religiosas denunciam a tentativa de retirada como um exemplo de racismo religioso e também de racismo ambiental.
