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29 de abril

O massacre continua


Por Lea Oksenberg


O calendário paranaense carrega uma cicatriz que insiste em sangrar. Se em 2015 o ataque foi feito com bombas, helicópteros e balas de borracha, além do gás lacrimogêneo no Centro Cívico, hoje ele se perpetua com canetadas, salários rebaixados, privatizações e terceirizações que tentam asfixiar quem dedica a vida ao serviço público. O título não é força de expressão: o massacre continua.


Foto: Joka Madruga/APP-Sindicato.
Foto: Joka Madruga/APP-Sindicato.

O trauma


Não se entende o 29 de abril sem resgatar o 12 de fevereiro. Naquele dia, a unidade na luta dos servidores foi tamanha que as grades da Assembleia Legislativa não seguraram a indignação popular. O plenário foi ocupado e, em uma cena que manchou a história política do Estado, os deputados da base governista fugiram do debate sobre o futuro da ParanáPrevidência quando decidiram se retirar da Assembleia Legislativa dentro de um camburão da Tropa de Choque.


O destino planejado para aquele comboio da vergonha era o Chapéu Pensador. O que era para ser um refúgio de ideias tornou-se o símbolo do isolamento do poder e descaso com as avaliações do funcionalismo. Hoje, em uma ironia cruel, que confirma a continuidade do massacre, o bosque do Chapéu Pensador foi privatizado pela gestão Ratinho Jr. O que era público, o que era memória, está sendo entregue ao mercado.


A violência


O massacre hoje mudou de tática, mas o impacto na vida de quem serve à população é devastador. O desgaste da carreira é matemático e cruel: os servidores acumulam hoje uma defasagem salarial de 50%. É metade do poder de compra confiscado, metade da dignidade financeira subtraída de famílias inteiras que sustentam o Estado no dia a dia. Ao mesmo tempo, a precarização e a privatização avançam silenciosamente sobre os hospitais estaduais, centros de pesquisa, educação, Copel e Celepar. Entregar a saúde, a ciência e empresas estratégicas à gestão privada é a continuação direta daquelas bombas de 2015; é o Estado abrindo mão de sua função social e humana.


A memória


Tentar tratar o 29 de abril como uma data morta é a última etapa da agressão. Lembrar este dia é um ato de resistência e de humanidade. A mentalidade que autorizou o ataque contra os professores e servidores há onze anos é a mesma que hoje sucateia hospitais, vende nossos bosques e nossas estatais.


Enquanto houver 50% de defasagem e o patrimônio paranaense for tratado apenas como mercadoria, ignorando as pessoas por trás dos serviços, o 29 de abril não terá terminado. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.


Como beber dessa bebida amarga?

Tragar a dor, engolir a labuta? Cálice - Chico Buarque e Gilberto Gil

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