A dona do próprio nariz. Será?
- lazzarimlouize
- há 21 horas
- 3 min de leitura
por Lea Oksenberg
A entrevista de emprego transcorria num clima de absoluto desapego à realidade. O entrevistador, Clovis, vestindo aquele terno justo e cinza de quem trabalha em Recursos Humanos, sorria como quem está prestes a vender um lote na Lua para Luciana.

— Aqui na empresa, nós somos modernos — disse Clovis, com os olhos brilhando. — Não trabalhamos com aquele modelo engessado e arcaico da CLT — falou, com indisfarçável desprezo. — Nós queremos parceiros. Empreendedores! Você será a CEO da sua própria carreira.
O peito de Lulu parecia peito de pomba, inflado de orgulho. De eterna desempregada a CEO em trinta segundos. Que salto magnífico!
— E como funciona essa parceria de gigantes? — perguntou Luciana a Clovis, já imaginando seu crachá com letras douradas.
— É simples. Você abre uma microempresa, emite uma nota fiscal por mês e pronto. Liberdade total. Sem amarras com o Estado opressor.
— Perfeito. E quais são os horários dessa autonomia corporativa?
O sorriso de Clovis perdeu dois milímetros de largura.
— Bom, o horário é das 9h às 18h, de segunda a sexta. Presencial, claro. Batendo ponto no sistema. Se chegar às 9h15, o desconto é automático.
Lulu piscou duas vezes. Tentou lembrar de alguma regra de empreendedorismo que fizesse sentido ali.
— Mas... se eu sou uma empresa parceira, eu não deveria gerenciar meu próprio tempo?
— Veja bem — Clovis interrompeu, com a paciência pedagógica de quem explica o óbvio para uma criança lenta. — Nós precisamos de união. Se o seu CNPJ não estiver sentado na cadeira dele às 9h, a engrenagem da nossa empresa adoece. Ah, e tem o plantão de fim de semana, tá? Uma vez por mês. Mas veja pelo lado bom: você é seu próprio chefe!
— Entendi. E o vale-transporte para o meu CNPJ vir trabalhar? — perguntou Lulu, meio que debochando.
Clovis soltou uma risada genuína, quase gostosa.
— Ora, onde já se viu uma empresa pagar o combustível da outra? Você já viu a Petrobras pagar a gasolina da Volkswagen? Não, né? O deslocamento é por sua conta, grande liderança.
Luciana começou a pensar: "Ora, ora... meu CNPJ vai ter que vir de Uber porque o transporte público está caro, e o faturamento dessa minha 'multinacional de uma mulher só' mal vai cobrir o pão e o café da manhã". Essa é a famosa "pejotização tabajara": você tem todas as obrigações e amarras de um trabalhador CLT, mas com os direitos e garantias de um liquidificador. É o clássico "o patrão quer ter o bicho de estimação, mas não quer pagar a ração".
— E as férias? — arriscou Lulu, já imaginando a resposta que viria.
— Nós não chamamos de férias. Chamamos de recesso estratégico não remunerado. Você pode tirar 15 dias em janeiro, desde que deixe todas as suas demandas entregues, o e-mail respondido e o celular ligado para emergências. E, claro, nesses 15 dias o faturamento é zero. Afinal, empresa que não funciona, não fatura! É a lei do mercado!
Luciana saiu da entrevista com uma pasta debaixo do braço e uma profunda crise de identidade. Olhou no espelho do elevador e não viu uma trabalhadora; viu uma grande corporação vestindo calça jeans desbotada e sapato com a sola furada.
É fascinante o capitalismo moderno. Conseguiram a proeza de ressuscitar a servidão gourmet. Lulu, indignada, pensou que, no mundo de hoje, ainda há capataz, feudo e jornada exaustiva, mas o chicote agora é digital, a chibata vem por WhatsApp e a culpa de não ter décimo terceiro é exclusivamente do seu "fluxo de caixa".
Amanhã será o primeiro dia no novo "médio império comercial" de Lulu. Ela vai ter de acordar às 6h para que o CNPJ dela não perca o ônibus. Se ela for demitida — ou melhor, se o seu contrato de prestação de serviços for descontinuado por desalinhamento cultural —, não tem seguro-desemprego, não tem FGTS, não tem aviso prévio.
Mas tudo bem. Pelo menos ela poderá estufar o peito no almoço de domingo e dizer para a mãe que finalmente é uma grande empresária brasileira. Só falta o dinheiro.
Eu me perdi
Na selva de pedra
Homem primata
Capitalismo selvagem
Oh, oh, oh
Homem primata -
Marcelo Fromer, Ciro Pessoa, Nando Reis e Sérgio Britto




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