Receita de mãe
- lazzarimlouize
- 9 de jun.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Dona Etelvina era uma grande figura. Além de extremamente engraçada, Dona Tetê, como era carinhosamente chamada, casou-se com o Seu Mário, com quem teve dois filhos: Ana Cláudia e Leonardo, o caçula.

Toda semana, quando as crianças ainda eram pequenas, Dona Tetê se reunia com as amigas para jogar. Era programa sagrado, com dia e hora marcados. Certa vez, estavam todos na sala quando um estrondo ecoou pela casa. No mesmo instante, Dona Tetê desmaiou e se estatelou no chão. Enquanto Leonardo se assustava com a cena, o telefone começou a tocar: era uma das amigas cobrando a presença da jogadora atrasada. Sem perder o rebolado, Ana Cláudia aproximou-se do ouvido da mãe desfalecida e sussurrou:
— Mãe, o jogo está parado esperando por você.
Em segundos, num milagre digno de cinema, Dona Tetê levantou-se, ajeitou a roupa num piscar de olhos e partiu para a jogatina.
O tempo passou e ela foi demonstrando, aos poucos, o quanto era hipocondríaca. Mas Dona Tetê não era apenas cheia de dores; adorava também prescrever o tratamento alheio. Bastava alguém reclamar de um incômodo qualquer para ela ditar, com autoridade, o remédio exato que a pessoa deveria tomar.
Os filhos cresceram, e Ana Cláudia começou a trabalhar com uma enfermeira que, para complementar a renda, fazia serviços de gráfica rápida. Não deu outra. De presente de Dia das Mães, encomendou o mimo que Dona Tetê mais gostou de receber na vida: um bloco de receituário personalizado, carimbado com o orgulhoso título do Conselho Regional de Medicina Charlatã — CRMC 000.
Etelvina
Acertei no milhar!
Ganhei quinhentas milhas
Não vou mais trabalhar
Acertei no milhar!
Wilson Batista e Geraldo Pereira




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