A extrema direita cresce e amplia domínio sobre Congresso e governos estaduais
Resultado de 2026 mostra avanço do bolsonarismo em relação a 2022: PL aumenta bancada na Câmara, quase triplica número de senadores eleitos e passa a comandar mais governos estaduais
por José Pires
A eleição de 2026 produziu um resultado que vai muito além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O primeiro turno deste domingo consolidou um avanço expressivo da extrema direita brasileira e, sobretudo, transformou o bolsonarismo em uma ameaça ainda mais relevante dentro do Congresso Nacional e dos governos estaduais.

O Partido Liberal, principal legenda do bolsonarismo, elegeu 121 deputados federais, contra 99 em 2022, um crescimento de 22 cadeiras, ou 22,2%. No Senado, o salto foi ainda mais expressivo, o partido elegeu 19 dos 54 vagas em disputa, contra oito nas eleições de 2022.
Na Câmara, a federação formada por PT, PCdoB e PV ficou em segundo lugar, com 82 deputados, seis a menos que em 2022. E no Senado conquistou seis vagas.
Não se trata apenas de crescimento quantitativo do PL. A votação de nomes identificados diretamente com o bolsonarismo mostra que o fenômeno também ganhou capacidade de mobilização eleitoral. Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, ultrapassou 3,1 milhões de votos e estabeleceu a maior votação já registrada por um deputado federal no país.
O salto no Congresso
O Senado talvez seja o lugar em que a mudança de correlação de forças aparece com maior clareza. Em 2022, o PL elegeu oito dos 27 senadores em disputa. Em 2026, foram 19 dos 54. Com os novos eleitos e os senadores que permanecem com mandato, o PL chegará a 28 cadeiras no Senado, tornando-se a maior bancada da Casa. O partido tinha 15 senadores no início do ciclo anterior e, portanto, passa a ocupar uma posição muito mais próxima de controlar sozinho uma parcela decisiva das votações.
O resultado tem consequências políticas especialmente importantes porque o Senado é responsável, entre outras atribuições, pela apreciação de autoridades indicadas para tribunais superiores e por processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Entre os eleitos no Senado estão nomes centrais do bolsonarismo, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas pelo Distrito Federal; Carlos Bolsonaro, por Santa Catarina; Filipe Barros, pelo Paraná; e Gustavo Gayer, por Goiás. A lista inclui ainda parlamentares do PL eleitos em estados como Rio de Janeiro, Rondônia, Roraima, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.
A composição, portanto, não representa simplesmente a expansão de uma legenda. Ela amplia a presença institucional de um grupo político que, nos últimos anos, transformou o enfrentamento ao Supremo, a defesa de pautas conservadoras e a oposição radical a direitos sociais em elementos centrais de sua identidade.
Na Câmara dos Deputados, o PL já havia chegado forte às eleições de 2022. Naquele pleito, elegeu 99 deputados, tornando-se a maior bancada individual da Casa. Quatro anos depois, elevou esse número para 121.
O mapa dos governos estaduais também virou à extrema direita
Mas o avanço da extrema direita não se restringiu ao Legislativo. No primeiro turno de 2026, 20 estados elegeram seus governadores, o maior número em primeiro turno desde o início da série histórica da redemocratização. O PL foi o partido que mais venceu disputas diretamente, com cinco governadores eleitos: Sérgio Moro, no Paraná; Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul; Jorginho Mello, em Santa Catarina; Marcos Rogério, em Rondônia; e Arthur Henrique, em Roraima. A eles somam-se Tarcísio de Freitas em São Paulo e Cleitinho Azevedo em Minas, ambos do Republicanos.
Em 2022, o PL havia elegido apenas dois governadores: Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e Jorginho Mello, em Santa Catarina. O salto, portanto, foi de dois para cinco governos estaduais conquistados diretamente pelo partido.
A comparação fica ainda mais expressiva quando se observa o campo político e não apenas a sigla. Em 2022, Jair Bolsonaro conseguiu eleger oito governadores com seu apoio já no primeiro turno. Em 2026, dez dos 20 governadores eleitos no primeiro turno declararam apoio a Flávio Bolsonaro, segundo levantamento da CNN. Outros cinco apoiaram Lula, enquanto quatro adotaram neutralidade e Daniel Vilela (MDB), em Goiás, apoiou Ronaldo Caiado.
Isso significa que o bolsonarismo não depende mais exclusivamente de governadores filiados ao PL. A força de Flávio se estendeu para outras legendas da direita e da centro-direita.
Flávio Bolsonaro supera o próprio pai
O dado mais simbólico da eleição talvez esteja na Presidência. Em 2022, Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno com 51.072.345 votos, ou 43,20% dos votos válidos. Lula havia obtido 57.259.504 votos, equivalentes a 48,43%.
Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro conseguiu uma marca superior à do pai. Flávio recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula ficou com 53.876.617 votos, ou 45,16%.
Flávio, portanto, recebeu cerca de 5,03 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro havia recebido no primeiro turno de 2022. Em termos percentuais, avançou 3,83 pontos em relação à votação do pai.
O resultado produziu uma inversão simbólica. Em 2022, Bolsonaro chegou ao segundo turno atrás de Lula. Em 2026, seu filho chega à segunda rodada na liderança, com uma vantagem de aproximadamente 2,23 milhões de votos.




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