A guerra da água em Curitiba
- Pedro Carrano
- há 3 dias
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Comunidades periféricas sentem o impacto de passar dias sem água
por Pedro Carrano

Há dias, moradores de bairros periféricos de Curitiba continuam com um problemão. Trabalhadores do Novo Mundo, Tatuquara e Alto Boqueirão, entre outros bairros, chegam a passar até dois dias sem esse serviço indispensável para o ser humano.
A ausência de água para muitas pessoas significa a falta de banho dos filhos, a impossibilidade de mandá-los para a escola, entre muitos outros problemas. Em área de ocupação no bairro Tatuquara, moradores trataram de aproveitar a chuva de ontem em Curitiba (dia 26) para estocar água, diante das incertezas que podem vir durante a semana.
Uma auxiliar de produção, moradora da comunidade Santa Rita, no bairro Tatuquara, que mora com mais três pessoas, confessa o prejuízo que isso traz para os problemas domésticos, ainda mais no final de semana.
“É ruim pois dificulta os afazeres domésticos, justamente quando você tem folga para limpar a casa, e ainda mais nesses dias abafados”, afirma ela, que preferiu não se identificar para a reportagem da Vigília Comunica.
Resultados e falta de água
Por outro lado, a empresa pública, que tem participação de controle privado, fala nas suas páginas de eficiência no oferecimento dos serviços. O governo do Paraná tem 60,08% do capital votante (controle da empresa) e 20,03% do capital total, enquanto o capital privado – nacional e estrangeiro – detém 39,92% das ações com direito a voto. A responsabilidade, nesse sentido, é do governador Ratinho Jr, uma vez que o governo dirige a empresa.
“A estratégia de crescimento e desenvolvimento da Sanepar, para operar em um mercado de serviços públicos, também liberado à iniciativa privada, está baseada na busca de resultados efetivos, comprometimento com a universalização, qualidade dos serviços prestados e atendimento às necessidades do poder concedente e acionistas”, está expresso no site da empresa, cada vez mais voltada ao mercado. Mas fica a pergunta: e aos trabalhadores?
Se o número de ligações aumenta a cada dia, assim como o lucro e os resultados da empresa, de acordo com o documento “Release de Resultados do quarto trimestre de 2025”. Ali está comprovada o aumento nas receitas financeiras cresceram 127,4%, passando de R$ 114,3 milhões no quarto trimestre de 2024 para R$ 259,9 milhões no quarto trimestre de 2025".
Por que então a dificuldade de abastecimento nos bairros periféricos?
Em que pese oficialmente a captação de água em Curitiba e RMC estar abaixo do esperado, em meio ao contexto de uma preocupante crise climática, lideranças acusam uma seletividade e recorte de classe social na interrupção de fornecimento. Isso porque os bairros periféricos são os primeiros a serem atingidos. E os últimos a terem o serviço interrompido de volta.
Em reunião recente a pedido do mandato da deputada estadual Ana Julia Ribeiro (PT), a diretoria da Sanepar rechaçou a possibilidade de haver uma seletividade na entrega do serviço da água, apontando uma falta de água generalizada e tempos diferentes no retorno da água para as casas.
Recomendação do Ministério Público
No caso em específico das áreas com situação fundiária irregular, como já alertou reportagem da Vigília Comunica, o Ministério Público do Paraná, em documento assinado pela promotora Alien Bilek Bahr, da Promotoria de Justiça, de Habitação e Urbanismo de Curitiba, em setembro de 2025, aponta de forma direta que cabe ao município fornecer o serviço mesmo se a situação fundiária não estiver definida, no caso de áreas de ocupação recentes.
O ministério Público do Paraná reivindica também a Resolução A/RES/64/292 da Organização das Nações Unidas (ONU):
“o direito a água potável segura e limpa e ao saneamento como um direito humano essencial para o pleno gozo da vida e para todos os direitos humanos”, aponta o documento.




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