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A limpeza que mata no frio de 2°C

por Lea Oksenberg


O lábio rachado é uma cicatriz de guerra. Um buraco aberto em um inverno distante que nunca se deu ao trabalho de se fechar. Em Curitiba, o sol é uma fraude. Brilha, mas não aquece; o frio de 2°C é um invasor que não pede licença. Dentro de casa, minha coreografia de sobrevivência segue protegida. Vou sobrepondo camadas de roupas até virar uma cebola humana. Um privilégio de cinco blusas enquanto vejo meu neto, um herói gripado, encarar o intenso frio para ir à escola.


Foto: Gilson Abreu/Arquivo AEN
Foto: Gilson Abreu/Arquivo AEN

Mas o gelo que corta meu lábio é o mesmo que serve de ferramenta para a omissão de quem governa. A culpa não é da altitude da cidade, mas da baixeza das políticas públicas. Aqui, o governo do Estado e a Prefeitura parecem ignorar que o frio mata. A lógica é a da "limpeza": se o corpo atrapalha o visual da cidade, despacha-se o problema em um ônibus para bem longe. É o cinismo de acreditar que alguém passa esse sufoco porque quer.


Dizem que o Sul é a Europa brasileira, mas o que vejo é um deserto de humanidade no Palácio e na Prefeitura. Mandar quem está sofrendo de volta às origens não é assistência, é expulsão. É o desejo de tirar o povo da frente para que ninguém precise ver, entre um café quente e outro, que a calçada de Curitiba virou um freezer. Faltam vergonha na cara e políticas de verdade para garantir o teto e o prato de comida que o poder público ignora.


Enquanto me enterro debaixo das cobertas, o privilégio pesa. Ser "cebola" em Curitiba é ter o direito de não morrer congelado. Lá fora, a Prefeitura varre as ruas, mas mantém a fome e o desamparo escondidos. O frio infernal daqui não é apenas climático; é o projeto político de quem prefere manter a fachada de cidade organizada enquanto o povo padece no relento.


Enquanto os homens exercem seus podres poderes

Morrer e matar de fome, de raiva e de sede

São tantas vezes gestos naturais.

(Caetano Veloso - Podres Poderes)

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