OPINIÃO I Bons ventos e chances de vitória em meio a uma encruzilhada histórica
Um texto de onze pontos sobre os dilemas dessa encruzilhada histórica entre a vitória de Lula ou do neofascismo
*Pedro Carrano

Chances de vitória em terreno difícil
Nessa reta final da campanha no segundo turno, é fato que o desfecho das eleições é imprevisível. Diversas pesquisas apontam empate técnico, e, finalmente, de acordo com o DataFolha, a curva de ascenso de Lula e de queda de Bolsonaro se alcançam, porém saber se haverá a virada é ainda muito difícil. A campanha é um jogo que vai ao último minuto. É fato também que o neofascismo tem, ao menos nas últimas eleições, ganhado fôlego na reta final.
Por outro lado, como contrapeso e força do lado da esquerda, está a entrada em cena massiva da juventude e dos atos nacionais de estudantes; o “Exército de Lula” e a agitação convocada por André Janones em seu canal, como elemento organizador do campo popular, mais do que a direção da campanha e os órgãos dos partidos; além da ótima orientação de que cada pessoa deve agir, organizar, publicar seus vídeos nas redes. Na expressão comum da guerra de resistência do Vietnam, Janones acabou incentivando uma “guerra de todo o povo”, contribuindo para cada pessoa sentir-se responsável por este segundo turno - permitindo que a mobilização fosse pra além da militância organizada.
Caberá avaliação se a campanha de Lula demorou a entregar os necessários materiais, tanto no primeiro como no segundo turno sobretudo. Recordemos que campanhas anteriores tiveram papel grande de virar voto a partir da militância, entregando materiais de casa em casa. Ao mesmo tempo, não pode haver – e não há – contradição entre a organização nas redes sociais, nas ruas e na campanha de casa em casa para diálogo. O elemento da militância com os pés no chão, material na mão e debate com o povo é uma vantagem neste momento da esquerda sobre a direita, contrapondo o enraizamento que a direita obteve nos últimos anos nos territórios e nas periferias.
Uma eleição geopolítica e estratégica
A eleição de domingo não tem caráter apenas nacional: Mas latino-americano e mundial. Uma vitória de Lula seria uma espécie de muro de contenção nos objetivos de Donald Trump de impor governos submissos em todo o continente. Até aqui, esse maníaco de extrema direita conseguiu vitórias recentes no Chile, Peru e Colômbia, além de acordos favoráveis com o governo paraguaio em relação à energia de Itaipu. E, a partir do sequestro de Maduro e Cilia, colocou a Venezuela bolivariana numa situação de extrema defensiva, acessando o petróleo do país. No plano mundial, a resistência iraniana impôs uma derrota ao imperialismo, fazendo com que Trump aposte na retomada do domínio e influência em nosso continente.
Os riscos estão colocados. São muitos. Exigirão que a luta siga a partir de domingo (25). A intervenção do imperialismo dos EUA, sob orientação de Trump, é evidente e pode se materializar nas redes sociais controladas pelas transnacionais do setor. O atual presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, não tem independência necessária para as pressões da extrema-direita - com quem tem vínculo - e dessas corporações. Além disso, o golpe de Estado de 10 de novembro de 2019 contra Evo Morales, na Bolívia, por exemplo, contou com participação ativa do bilionário Elon Musk, com intervenção direta em criação de perfis nas redes sociais. Não podemos descuidar e a militância deve estar atenta. Provocações e sabotagens podem ser esperadas.
Eleições recentes – no Peru e na Colômbia – tiveram margem de diferença muito pequena. No caso brasileiro, uma vitória apertada de Lula teria logo de início de enfrentar a resistência do neofascismo e da campanha de Flávio Bolsonaro, que não aceitaria o resultado. Por outro lado, uma eventual derrota eleitoral da esquerda enfrentaria um governo com maioria na Câmara, Senado, governos estaduais e Judiciário, tendo como objetivo estratégico quebrar a já frágil organização dos trabalhadores. Os dados estão lançados. Com Flávio Bolsonaro, a criminalidade e a milícia chegariam ao poder do Estado, o que deve ser evitado a todo custo.
Lições fundamentais do período
Há um acúmulo neste momento importante a partir de toda a produção que tem sido feita nas redes sociais. Ao meu ver, o mais importante foi a percepção de que é preciso reconquistar as massas populares, os trabalhadores e a juventude. E, pra isso, tem sido necessário:
a) Reconhecer que não houve reformas estruturais no último período, apenas medidas pontuais e importantes políticas sociais. O descontentamento das massas não é apenas coisa de “pobre de direita”, mas revelador dos limites dos governos Lula e Dilma. Ainda assim, neste momento, toda uma juventude que respeita a trajetória de Lula e está disposta a defendê-lo, sabe do risco do neofascismo no poder, e quer avançar para mais. As políticas sociais são fundamentais, mas a campanha mostrou que é preciso mais para dialogar com um segmento mais amplo da classe trabalhadora;
b) Falar em governo neofascista dos Bolsonaros, devido ao seu programa, vínculo com a milícia etc, não implica afirmar que toda sua base e eleitores é fascista. Pelo contrário, há muito espaço de convencimento e diálogo com segmentos dos trabalhadores, da massa marginal e dos setores médios;
c) A comunicação está hoje umbilicalmente ligada à organização e à luta, bem como à atuação parlamentar. Não à toa, muitos políticos com grande expressão nas redes se destacaram a partir de seus mandatos. O próprio Janones é o principal deles. Não podemos recusar que a luta institucional/parlamentar neste momento tem dimensão importante, tanto que a extrema direita também busca ocupar e disputar neste momento os espaços institucionais (vale ver nesse sentido a leitura de Daniel Guérin sobre a experiência na Itália e Alemanha, no livro Fascismo e Grande Capital);
d) Reconhecer o desgaste da população com um governo que não realizou reformas populares não significa timidez em afirmar os avanços e as vantagens do governo Lula sobre qualquer governo Bolsonaro. O inimigo central está nítido, recebendo impulso do capital financeiro e do imperialismo, enquanto Lula levanta a bandeira da soberania e dos gastos sociais, centro da luta neste momento.
Infelizmente, no senso comum, a extrema direita acredita que o governo estaria “há vinte anos no poder”, e nada teria sido feito pelo povo, mas é preciso lembrar que os seis anos do golpista Temer e do genocida Bolsonaro foram suficientes para desmontar o Brasil: Fizeram reformas da previdência, trabalhista e aplicaram as terceirizações. Seus governos tiveram alto desemprego e baixo gasto social, negociações desfavoráveis aos trabalhadores e fechamento de postos de trabalho; enterraram importantes programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Minha Casa Minha Vida fizeram propaganda política incentivando uma visão de mundo individualista e buscaram arrebentar a organização dos trabalhadores, que foi impactada. Tentaram quebrar ainda ferramentas de indução da economia, caso do BNDES e da própria Petrobras.
É certo que a contradição na sociedade brasileira deve seguir se desenvolvendo de maneira cada vez mais acirrada. Uma análise objetiva deve considerar que o antagonismo entre o campo progressista e o neofascismo com base de massas deve se resolver:
a) numa medida de força, o que é mais provável por parte da extrema direita, que num eventual governo viria pra cima da esquerda, enquanto "inimigo" a ser eliminado;
b) se o governo Lula conseguir uma vitória e estiver determinado a realmente aplicar reformas estruturais, profundas (Urbana, Agrária, Judiciário e Política), que são aquelas capazes de envolver os trabalhadores, repartir a concentração de renda, seria a única forma de as forças populares darem um salto de qualidade no próximo período, ampliando influência e tirando a iniciativa da extrema direita e isolando o neofascismo;
"Não saiam das ruas"
Um futuro governo Lula deveria valorizar muito a entrada da juventude em cena. Os dias desde o final do primeiro turno, em 4 de outubro, foram mais educativos, mobilizadores e politizadores do que os últimos quatro anos. Há vitórias que podem levar à derrota, como há derrotas que não impedem acúmulo de forças. Nesses dias incertos, uma coisa é imperativa: que a esquerda contribua em canalizar a energia dessa juventude nas ruas em canais organizativos – uma juventude que está começando na organização política, convocada por redes sociais, mas já informada pelas redes e sem o elemento confuso de junho de 2013 –, é central dar força organizativa pra essa gurizada. Como bem sintetizou recentemente José Dirceu: “Não saiam das ruas. Vocês pegaram a campanha do Lula pela mão neste segundo turno”.
Um futuro governo Lula tem o dever, como ele mesmo afirmou na transmissão de quinta-feira com Janones, de uma nova forma de governo, que valorize essas mobilizações que equilibraram o segundo turno.
Mais que isso, de qualquer forma, a esquerda no próximo período só derrotará o neofascismo se realmente estiver disposta a aplicar um programa Nacional, Democrático, Popular, Antiimperialista, Antineoliberal, Feminista, Antirracista e LGBTfóbico. É vencer no domingo e seguir avançando!
*Jornalista da Vigília Comunica, Autor dos livros "Desafios e Tarefas da Organização Popular" e "Todo despejo é um crime". Integra a coordenação da Frente de Organização dos Trabalhadores (FORT)




Comentários