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A memória de uma ruptura

Dez anos do domingo que mudou o Brasil

Por Lea Oksenberg, Fundação Perseu Abramo e DIEESE


Há exatamente dez anos, o Brasil parava diante da TV para assistir a um dos capítulos mais dramáticos da nossa história. Em 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados autorizava o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Sob a máscara do combate à corrupção, o que se escondia nos porões do Congresso era um cálculo frio e impiedoso. Naquele domingo, não se julgava a técnica das "pedaladas"; assistimos a um teatro de conveniências, um jogo de cartas marcadas por figuras como Eduardo Cunha, movidas por vingança e pelo medo de que a justiça batesse à porta do verdadeiro centro do poder.


Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Os bastidores revelaram o que o tempo se encarregou de esfregar na nossa cara: o impeachment foi o atalho para impor a "Ponte para o Futuro", um plano econômico que jamais passaria pelo crivo do voto popular. Aquele "grande acordo nacional", gravado e confessado entre sussurros, não era para salvar o país. Era o cerco de uma elite que, sentindo o privilégio ameaçado, decidiu empurrar a conta do banquete para quem está na labuta, no corre diário. Na prática, o que venderam como salvação virou a Passarela para o Passado.


O resultado dessa conta chegou rápido, batendo na pele e pesando no prato. Logo após a ruptura, veio a promessa de emprego da Reforma Trabalhista, que só entregou insegurança e esvaziou os sindicatos. Veio o Teto de Gastos, que tratou a saúde e a educação como se fossem luxos descartáveis, e não direitos básicos. A mesa do brasileiro ficou mais vazia sem a valorização do salário mínimo, e a Petrobras passou a sorrir para acionistas enquanto o povo sofria para encher o tanque ou comprar o gás.

Olhar para esses dez anos é olhar para as nossas próprias cicatrizes. A história ensina que, quando as regras são rasgadas para servir a interesses de ocasião, quem paga o pato é o trabalhador. O 17 de abril de 2016 continua sendo uma ferida aberta e uma lição clara: a democracia é frágil e exige vigilância constante.


Como diz o samba de Tom e Vinícius, por muito tempo tentaram calar quem constrói esse país:

"O morro não tem vez

E o que ele fez já foi demais

Mas olhem bem vocês"

Mas a memória serve justamente para isso: para que, quando finalmente derem vez ao morro e ao povo, a gente saiba cantar a liberdade com a voz de quem não aceita mais retrocessos.


Fontes: Dossiê "A Ponte para o Futuro e os Impactos Sociais", DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) Acompanhamento Histórico Agência Brasil.

Dados sobre o impacto da Reforma Trabalhista e a precarização do emprego baseados nos levantamentos do DIEESE (2017-2024)

Dados consolidados pelo DIEESE sobre a perda de poder de compra e precarização do trabalho na última década.

"10 anos do golpe", Fundação Perseu Abramo

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