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Cheio de ar

por Lea Oksenberg


Dizem que a natureza não tolera o vácuo. Bobeira! É nada! A tendência do ser humano é engolir essa conversa e passar a vida entulhando cada fresta da rotina, da casa, da cabeça. Lembra daqueles jornais sindicais de antigamente? Pois é. Sobrava um milímetro de papel em branco numa das páginas e logo vinha a ordem: preenche! Aí corria todo mundo para enfiar ali qualquer besteira. Uma urgência inventada, um palpite furado, um ruído.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

O grande erro é confundir vácuo com respiro.


Vácuo é aquele vazio mudo, sem som, sem ar. O respiro não. O respiro é oxigênio purinho.


Veja só o tal dilema do copo. Tem o otimista do "meio cheio", o pessimista do "meio vazio" e tem o ansioso — aquele que quer encher de água até a beirada só para não encarar o fundo. O que quase ninguém nota é o óbvio: aquele copo que parece vazio está abarrotado de ar.


O ar não pesa. Não faz barulho. Não cobra aluguel. Mas segura a onda e dá pressão para a gente continuar respirando.


Se dois corpos não ocupam o mesmo espaço — sob pena de trombada ou sufoco —, a distância entre as coisas não é abandono. É liberdade. Liberdade até de dançar. Encha o copo até a boca, sem uma nesga de ar, e veja o que acontece na primeira chacoalhada: transborda tudo.


A natureza que me desculpe, mas sem oxigênio o inevitável acontece: vem o sufoco. Na música, no bar ou na vida, a graça está na pausa. O que chamam por aí de vazio é só o ar que nos mantém de pé.


É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar

Copo Vazio - Gilberto Gil

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