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Antes de Neymar, houve Friedenreich: o primeiro ídolo do Brasil teve a carreira limitada pelo racismo

Friedenreich alisava os cabelos e utilizava pó de arroz no rosto para parecer mais branco e ser aceito em clubes aristocráticos


por José Pires


Antes de Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo ou Neymar, o Brasil já tinha um rei da bola. Arthur Friedenreich é considerado o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, o homem que ajudou a moldar o estilo de jogo que se tornaria conhecido mundialmente como futebol-arte. Ainda assim, seu nome ocupa um espaço muito menor na memória nacional do que seu talento permitiria. Um dos principais motivos foi o racismo, que restringiu suas oportunidades justamente no auge da carreira.


Foto: Museu do Futebol - Governo do Estado de São Paulo
Foto: Museu do Futebol - Governo do Estado de São Paulo

Filho de um comerciante alemão e de uma professora negra, Arthur Friedenreich nasceu em São Paulo, em 1892, apenas quatro anos após a abolição da escravidão. Negro (na época chamado de mestiço), cresceu transitando entre dois mundos: jogava tanto nos clubes da elite quanto nas peladas da periferia paulistana. Dessa mistura nasceu um futebol marcado pela técnica, pelo improviso e pelo drible, características que décadas depois seriam tratadas como a essência do futebol brasileiro.


Ainda adolescente, estreou no Germânia e rapidamente se transformou em um fenômeno. Foi artilheiro do Campeonato Paulista nove vezes e marcou entre 554 e 595 gols oficiais ao longo de uma carreira de 26 anos, números extraordinários para a era amadora. Durante muito tempo, acreditou-se que ele teria feito 1.329 gols, marca que chegou a figurar no Guinness Book. Hoje se sabe que o recorde era resultado de um erro de contabilização.


Sua importância para a Seleção Brasileira também foi pioneira. Friedenreich disputou a primeira partida oficialmente reconhecida da equipe nacional, em 1914, contra o Exeter City, da Inglaterra. Naquele jogo, teve dois dentes arrancados pela violência dos adversários, mas permaneceu em campo até o fim.


Poucos anos depois, escreveu um dos capítulos mais importantes da história do esporte brasileiro. Em 1919, marcou, na prorrogação, o gol que deu ao Brasil seu primeiro grande título internacional: o Campeonato Sul-Americano, atual Copa América. A decisão contra o Uruguai durou 150 minutos e terminou com o atacante sendo carregado nos ombros da torcida pelas ruas do Rio de Janeiro. Os uruguaios passaram a chamá-lo de "El Tigre", enquanto, no Brasil, se consolidava como o primeiro superastro do futebol nacional.


Mas a trajetória de Friedenreich foi atravessada pelo preconceito racial.


Em uma época em que o futebol era dominado pelas elites brancas, jogadores negros sofriam discriminação dentro e fora dos gramados. Friedenreich alisava os cabelos e utilizava pó de arroz no rosto para parecer mais branco e ser aceito em clubes aristocráticos. Mesmo assim, nunca escapou completamente do racismo.

A exclusão mais emblemática ocorreu em 1921. Após a conquista histórica de 1919, o governo do presidente Epitácio Pessoa recomendou que a delegação brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano na Argentina fosse formada apenas por atletas brancos, para preservar a suposta "boa imagem" do país no exterior. O maior craque brasileiro da época ficou de fora justamente por ser mestiço.


A decisão teve consequências esportivas e históricas. Friedenreich vivia o auge da carreira e já era reconhecido como o melhor jogador da América do Sul. Sua ausência reduziu drasticamente suas oportunidades de vestir a camisa da Seleção em uma época em que o calendário internacional já era extremamente curto. Entre 1914 e 1930, ele disputou apenas 23 partidas oficiais pelo Brasil, marcando dez gols.


Os números contrastam com os de Neymar, atual maior artilheiro da Seleção, que soma 80 gols em 130 jogos. A comparação entre as estatísticas, porém, esconde uma desigualdade histórica. Friedenreich não apenas atuava em um período com pouquíssimos jogos internacionais, como ainda perdeu convocações por razões políticas e raciais.


Além do veto de 1921, ele também ficou fora do Sul-Americano de 1920 por disputas entre as federações paulista e carioca e acabou excluído da Copa do Mundo de 1930, novamente por conflitos políticos entre dirigentes do futebol brasileiro.


É impossível afirmar quantos gols teria marcado caso tivesse disputado todos esses torneios. Mas é razoável concluir que sua posição na história da Seleção seria muito diferente. Se teve apenas 23 partidas oficiais — menos de um quinto das que Neymar disputou —, não foi apenas por viver em outra época. Também foi porque o racismo institucional e as disputas políticas impediram que o maior jogador brasileiro de seu tempo representasse o país em diversas oportunidades.


Mesmo diante dessas barreiras, Friedenreich ajudou a transformar o futebol em símbolo nacional. Foi o primeiro brasileiro tratado como celebridade esportiva, inspirou músicas, lotou estádios, encantou a Europa durante a excursão do Paulistano em 1925, quando a imprensa francesa o chamou de "Le Roi du Football", e mostrou que um jogador negro podia representar o Brasil em seu maior palco esportivo.


Sua história revela que o futebol brasileiro nasceu da miscigenação, mas também das exclusões. E ajuda a explicar por que Arthur Friedenreich, embora tenha sido o primeiro grande ídolo do país, nunca recebeu o mesmo reconhecimento destinado aos craques que vieram depois.

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