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Atingidos cobram voz e reparação

Em audiência na Câmara, vítimas de Mariana e Brumadinho denunciam exclusão das decisões, criticam lentidão das medidas e exigem regulamentação imediata da PNAB e participação direta nas negociações


Por Adi Spezia


Em audiência pública realizada pela Comissão Externa sobre Fiscalização dos Rompimentos de Barragens e Repactuação da Câmara dos Deputados, na quinta-feira (16), foram colocados no centro do debate os desafios na regulamentação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB) e a situação do auxílio emergencial na Bacia do Paraopeba. Dez anos após o desastre-crime, milhares de pessoas ainda convivem com os efeitos da tragédia: a perda de familiares, casas, trabalhos e do vínculo com o território ainda marca a vida dos atingidos.


Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O evento reuniu representantes do governo federal, gestores locais, órgãos públicos, movimentos sociais e pessoas atingidas, em meio à cobrança por medidas mais rápidas e efetivas diante dos impactos que persistem anos após os desastres. Nos relatos apresentados, ficou evidente a insatisfação com a lentidão das respostas institucionais, bem como a necessidade de regulamentação da PNAB.


A Lei nº 14.755/2023, que instituiu a PNAB, “é a primeira lei específica do mundo que trata dos direitos dos atingidos por barragens, resultado de uma luta de mais de 40 anos. Essa lei é mais uma legislação de direitos humanos; estamos falando de direitos específicos de populações atingidas. É assim que ela deve ser compreendida”, destaca Sara Oliveira, coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).


Representantes do movimento criticaram veementemente a condução dos processos de reparação e denunciaram a exclusão das vítimas das instâncias decisórias. “Os atingidos seguem sendo tratados como meros beneficiários, quando deveriam ocupar papel central na definição das políticas que impactam diretamente suas vidas”, destaca Sara.


Sara Oliveira - Coordenação do MAB durante audiência pública. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Sara Oliveira - Coordenação do MAB durante audiência pública. Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

O MAB também cobrou diálogo direto com o governo federal e maior transparência nas negociações, além de denunciar a falta de escuta efetiva das comunidades atingidas. Segundo o movimento, descentralizar as discussões para fora das áreas afetadas contribui para excluir a participação da população e desconsidera a realidade vivida nos territórios.


Fotos: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados.
Fotos: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados.

Ao longo da audiência, foram apresentadas reivindicações consideradas prioritárias pelos atingidos, como a participação direta nas mesas de negociação; a aceleração dos processos de reparação; a manutenção e ampliação dos auxílios emergenciais; a descentralização dos espaços de decisão; e o reconhecimento dos atingidos como sujeitos políticos.


Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados.
Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados.

A audiência pública intensificou a pressão sobre as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton, além do governo federal e demais instituições envolvidas nos acordos de reparação. Sem avanços concretos e com impactos ainda presentes no cotidiano das comunidades, o cenário segue marcado por tensão e cobrança.

Para os atingidos, o recado é direto: sem participação real e respostas efetivas, não haverá solução justa para os crimes socioambientais que seguem em aberto. “Esse é o momento. Já temos dois anos da aprovação da lei, então acreditamos que este seja o momento de avançar no processo de regulamentação”, afirma Sara.


Na tarde do mesmo dia, em meio à pressão do movimento pela regulamentação da PNAB, o governo federal realizou um seminário nacional para discutir os caminhos do decreto que irá tirar a lei do papel. O encontro faz parte de um processo de construção que deve resultar em um relatório, base para o texto final do decreto de regulamentação da PNAB.

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