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ATL e Eleições 2026: indígenas declaram apoio à reeleição de Lula, mas cobram demarcações

Reunidos no ATL 2026, povos indígenas condicionam apoio à reeleição a avanços concretos na demarcação de terras e na proteção dos territórios


Por Adi Spezia


Povos indígenas, por meio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e de suas organizações regionais, reunidos no Acampamento Terra Livre, em Brasília, declaram apoio à reeleição do presidente Lula, mas deixam claro: “nosso apoio demanda compromisso”. O acampamento reuniu mais de 7 mil indígenas de 200 povos ao longo da semana e cobrou, sobretudo, a demarcação de terras indígenas e a proteção dos territórios contra a exploração econômica predatória.


Foto: Mario Vilela/Funai
Foto: Mario Vilela/Funai

Em carta divulgada durante o ATL 2026, as lideranças afirmam que as eleições deste ano “colocam o país diante de uma disputa direta entre o retorno de um projeto de morte e a continuidade de um campo democrático, onde seguimos organizados para disputar os rumos da sociedade e fortalecer a vida”.


Diante da atual conjuntura, “não vemos outro projeto político apontado nas eleições deste ano que não seja a reeleição do presidente Lula, para que possamos continuar avançando, com todos os desafios que possamos ter”, destacou o coordenador executivo da Apib, Kleber Karipuna.


Os indígenas denunciam o avanço da extrema direita e de projetos anti-indígenas no Congresso Nacional, além da pressão por exploração econômica dos territórios, como mineração e petróleo. Também criticam ameaças externas e interesses internacionais sobre recursos da Amazônia, citando inclusive o contexto político ligado a Donald Trump.


Atualmente, “existem mais de 5 mil pedidos de exploração mineral na Amazônia, sendo mais de 1.300 sobre terras indígenas”, aponta o relatório Desmascarando o Lobby Mineral em Terras Indígenas no Brasil, da Apib, lançado no ATL 2026. Para os povos indígenas, soberania é demarcar todas as Terras Indígenas e garantir a proteção física e cultural de seus povos.


Entre as principais reivindicações, estão: a demarcação de todas as Terras Indígenas como base da soberania nacional; a proteção efetiva dos territórios e dos povos; o fortalecimento das políticas públicas indígenas — com orçamento e estrutura; a participação indígena nas decisões do governo; a centralidade dos territórios indígenas nas políticas climáticas; e o fim de projetos de exploração que afetem essas áreas.


A carta reconhece avanços no atual governo, como a criação do Ministério dos Povos Indígenas e a retomada de demarcações, mas afirma que ainda são insuficientes diante da urgência do momento e aponta contradições, como o apoio a grandes empreendimentos.


“A gente tem que ser muito pé no chão e sincero, tanto do lado do governo quanto do lado do movimento indígena. As coisas estão boas? Estão como a gente quer? Não estão”, pontua o coordenador do movimento indígena.


Kleber lista ainda a necessidade de o governo e o movimento indígena seguirem dialogando e avançando, “para que as pautas que estão sendo reivindicadas continuem avançando também. Porque, se um outro projeto político, genocida, que já tivemos no passado e que não queremos que volte, retornar, tudo o que estamos pleiteando para os próximos quatro, cinco anos não acontecerá”, relembra.


Ao declarar apoio à reeleição do presidente Lula, os povos indígenas não abrem mão de sua autonomia política e afirmam que continuarão mobilizados e pressionando o governo. A mensagem central é clara: o apoio existe, mas depende de ações concretas — porque “nosso futuro não está à venda”.


“Seguimos com autonomia para cobrar e pressionar politicamente os rumos das decisões que afetam nossas vidas”, destaca o documento. Ao mesmo tempo, afirma que a “retomada de demarcações e a reabertura de espaços de diálogo expressam avanços construídos pela luta dos nossos povos”, mas esses avanços ainda não respondem à urgência que o momento político e climático exige.


O movimento também aponta contradições como fatores a serem observados pelos gestores: “ao mesmo tempo em que há compromisso ambiental, seguem pressões por grandes empreendimentos e novas frentes de exploração, como o petróleo na foz do Amazonas. Essa lógica mantém a exploração dos territórios sob nova linguagem e exige uma posição firme que coloque a demarcação no centro da política climática”, afirma a carta aberta do ATL ao presidente Lula.



Caderno de Respostas


Na manhã do último dia do Acampamento Terra Livre (10), uma comitiva governamental esteve no evento para anunciar medidas e prestar contas ao movimento indígena, durante a plenária “Relação do Estado brasileiro com os povos indígenas”.


A plenária contou com a presença de representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), além de atuais e ex-ministros. Na ocasião, foi realizada a leitura da carta política do movimento e a apresentação das principais demandas dos povos indígenas.


O momento também foi marcado pela entrega de um Caderno de Respostas da Apib pela Secretaria-Geral da Presidência da República, com respostas do governo às demandas apresentadas pelo movimento indígena durante o Acampamento Terra Livre de 2025.


Entrega de um caderno do respostas da APIB. Foto: Clara Comandolli/Cimi
Entrega de um caderno do respostas da APIB. Foto: Clara Comandolli/Cimi

A devolutiva do Governo Federal ao movimento indígena é considerada de extrema importância, sendo “fundamental para aprofundar a análise sobre direitos, políticas públicas, demarcação e os desafios permanentes enfrentados em nossos territórios”, destacou a organização indígena.


Kleber Kapiruna. Foto: Mario Vilela/Funai.
Kleber Kapiruna. Foto: Mario Vilela/Funai.

Durante a plenária, o coordenador Kleber Karipuna lançou um desafio: “para ainda este ano de 2026, nos meses que restam deste terceiro mandato do presidente Lula, continuarmos avançando, entregando cada vez mais demarcações de terras indígenas, proteção territorial, desintrusão, retirada de invasores, fomento às nossas atividades produtivas e tantas outras políticas públicas para os povos indígenas do nosso país”.


Plenária Relação do estado brasileiro com os povos indígenas. Foto: Mario Vilela/Funai.
Plenária Relação do estado brasileiro com os povos indígenas. Foto: Mario Vilela/Funai.

Na ocasião, também foram anunciadas ações dos ministérios voltadas à segurança alimentar, ao fortalecimento das políticas públicas nos territórios e, como marco central da plenária, a assinatura de portarias que instituem grupos técnicos para estudos de identificação de territórios indígenas a serem demarcados.

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