Casa de papelão deixa moradores indignados em Rio Bonito do Iguaçu
- Vigília Comunica

- 16 de mar.
- 4 min de leitura

por Luis Lomba, texto, e Joka Madruga, fotos
A reconstrução das moradias destruídas pelo tornado em Rio Bonito do Iguaçu é um dos tormentos dos moradores atingidos. Mais de quatro meses depois da tragédia, apenas uma das casas prometidas pelo governo paranaense foi entregue. O modelo desagradou a quem deveria beneficiar e causa indignação em gente como Ademar Borba, que teve a casa dele totalmente destruída no dia 7 de novembro de 2025. “Isso aí não é morada digna de uma pessoa que trabalha. Isso aí é um descaso com o ser humano”, afirma.

Logo depois da destruição, Ademar optou por receber o auxílio de R$ 50 mil do governo estadual para reconstruir a casa destruída, mas foi convencido a aceitar a casa oferecida pelo governo paranaense, que seria construída mais rapidamente. “Com os R$ 50 mil eu poderia começar uma casa e ir fazendo. Me chamaram na Prefeitura, com quatro engenheiros, dois da Defesa Civil, um funcionário da Prefeitura e mais dois da construtora. Mostraram o projeto. Eu perguntei para a engenheira quanto custava essa casa e ela disse R$ 138 mil. Eu dei risada e disse que aquele galinheiro não gasta R$ 30 mil para fazer”, diz Ademar.
A casa construída no terreno de Ademar tem só 36 metros quadrados e paredes de um material que parece papelão. “Isso aí é uma humilhação. Fazer isso aí, para mim, é querer humilhar o outro”, reclama Ademar, que é funcionário público estadual concursado e atua como agente 1 na escola estadual do município, fazendo a manutenção e ajudando na limpeza. Hoje ele é obrigado a morar com a sogra.

Agora Ademar está de mãos atadas: gostaria de construir ele mesmo a nova casa, mas o terreno está ocupado pela casa em que ele não quer morar. “Eu não quero essa construção aqui. Além de tudo, o projeto foi executado no local errado do lote”, diz Ademar. Ele reclama que a disposição da casa no terreno impede que faça uma garagem, por exemplo. “Já falei pra eles que quero que nivelem meu lote e arranquem aquele paiol que fizeram lá”, afirma.
A casa destruída pelo tornado, construída por ele e na qual morou por 30 anos, tinha 120 metros quadrados. Ademar tinha a expectativa de que a nova moradia manteria o padrão da anterior, mas não foi o que aconteceu. “Acho um desrespeito com os moradores. Para mim, é algo inaceitável. Tenho 51 anos, pago impostos. Minha casa anterior era muito melhor e mais espaçosa”, reclama.

Ademar afirma que a casa pré-moldada mais parece um alojamento temporário. Ele quer que o poder público remova a casa pré-moldada e nivele o terreno. O impasse o leva ao ponto de cogitar cometer um desatino. “Eu falei para a engenheira: ó, eu perdi tudo que eu construí em uma vida de trabalho, mas eu perco mais um palito de fósforo, 5 litros de gasolina e queimo aquilo lá”, desespera. Ele pediu aos engenheiros que retirem a casa do terreno, mas ouviu que é necessário primeiro concluir a obra, para depois desmanchar a casa.
Ademar teme que a casa pré-moldada não resista às intempéries e ameace a integridade dele e da esposa, pois as fundações são precárias. “Isso aqui não tem segurança nenhuma. Se der uma chuva com vento, vai voar tudo. Eu quero ter uma casa digna e vou brigar pelo meu direito”.

A falta de espaço na casa pré-moldada é outro problema que incomoda Ademar. “Não tem lavanderia e na sala não cabe uma mesa com quatro cadeiras. Eu acredito que o resultado final é decepcionante e me causa indignação. A água da pia de lavar louça se espirrar derrete a parede de papel. Gente, isso aqui é um abuso”, diz.
A situação piora se considerarmos que, depois de receber a casa, o morador não pode fazer qualquer melhoria por um prazo de dois anos, aponta Ademar. “Então seriam mais dois anos nessa casa ruim. A gente não aguentaria dois anos. Então queremos que eles nivelem e devolvam o meu lote, pois vou dar um jeito de começar a construir a nova casa. Se alguém quiser me ajudar, que me ajude; se não, não atrapalhem”, conclui.
Depois da destruição de Rio Bonito o governo do Paraná anunciou a construção “imediata” de 320 moradias no município, com investimentos de R$ 60 milhões a R$ 70 milhões. As casas deveriam estar prontas em 90 dias, segundo o governo. Mas a reconstrução ficou só na promessa. Mais de quatro meses depois da tragédia a construção das casas está suspensa. A Vigília constatou que não há operários trabalhando para levantar as casas prometidas.



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