Programação obrigatória
- lazzarimlouize
- 11 de ago.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
A cena se repete toda tarde. Analice senta na sala, liga a televisão e lá vem a tal rodada de entrevistas com os candidatos a presidente. Uma sabatina diária, interminável, um atrás do outro. Ontem, anteontem, hoje de novo. Muda o dia, muda a cara na tela, mas o espetáculo é sempre o mesmo.

Até a roupa tenta vender uma historinha. Num dia, aparece o sujeito com o cabelo todo desarrumado, querendo se passar por aquele homem atarefado. Tão preocupado com o futuro do país que não teve nem tempo de passar um pente. No dia seguinte, senta ali a figura certinha, engomada, tão previsível que parece ter saído direto de uma fabrica de robô-candidato.
Aí a criatura abre a boca. E o que vem é aquele desfile sem fim de frases prontas, ditas com a maior cara de pau, mentiras deslavadas. O tom é tão ensebado, tão falso, que não dá outra: a mão pesada segura o controle remoto, o olho vai fechando... e Analice dorme. Não tem jeito. É inevitável.
Ela apaga ali por uns vinte minutos no estofado do sofá. E o mais incrível de tudo é que, quando acorda, a entrevista parece estar exatamente no mesmo ponto, como se nada, absolutamente nada tivesse acontecido naquele estúdio. Só que tem um detalhe: depois desse cochilo induzido, Analice desperta descansada. Bateria 100% recarregada para, finalmente, se indignar de verdade. Com fogo nos olhos!
Porque no fundo é isso que dá raiva. É perceber, por trás de cada resposta ensaiada, aquele jeito sutil de tratar quem assiste como se fosse bobo, cego ou surdo. Não existe corte de cabelo esperto ou pose estudada que disfarce a audácia de quem acha que do outro lado da tela não tem ninguém pensando.
O gesto de salvação até que é simples: aponta-se o controle para a televisão e troca-se de canal. Clica. Vai ver um filme antigo, um documentário sobre a vida das baleias, uma reprise de futebol de dez anos atrás. Na TV, a farsa morre no exato segundo em que a luzinha do controle pisca.
A encrenca é quando a gente olha pela janela.
Do lado de fora da sala, afinal de contas, não tem botão de mudo nem opção de pular de fase. A vida real não tem outro canal para a gente sintonizar. Fomos condenados a acompanhar esse espetáculo sem direito a trocar de programa — o que só dá mais certeza de que a indignação, no fim das contas, é o único jeito que sobrou de não virar mero figurante nessa história toda.
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fotos fecham meus olhos e meus ouvidos
E o caos segue em frente com a sua calmaria...
Será que nunca faremos nada senão cultivar ilusões?"
— Podres Poderes (Caetano Veloso)




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