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Luta da comunidade escolar derruba diretora do Colégio Estadual Maria Montessori

por Luis Lomba


A comunidade escolar do Colégio Estadual Maria Montessori comemora o afastamento de Graziella Pia de Miranda da direção da escola, uma vitória da luta coletiva. A ex-diretora causou alvoroço e revolta em sua gestão, denunciada por omissão em casos de homofobia e discriminação a estudantes e professores.


Mesmo com motivos para comemorar, a comunidade segue apreensiva. Depois de exonerada, Graziella esteve na escola nos dias seguintes, inclusive fotografando documentos, denuncia a mãe de um estudante.


O afastamento da diretora é um avanço, mas ela é apenas uma das faces do problema: a gestão privada da escola. “Acreditamos que a priorização do lucro em detrimento da qualidade do ensino prejudica a comunidade escolar”, afirma Camila Cavalheiro, integrante do Coletivo de Mães de Alunos do Colégio Estadual Maria Montessori.


Resolução que exonera a ex-diretora. Clique na imagem para ampliar.
Resolução que exonera a ex-diretora. Clique na imagem para ampliar.

Os incidentes na Maria Montessori expõem uma das principais fragilidades do programa Parceiro da Escola, por meio do qual Ratinho Jr. transfere a gestão de escolas da rede pública estadual para empresas privadas, juntamente com milhões de reais para empresários “parceiros”: o fim da gestão democrática das escolas, pois as escolas “parceiras” não têm eleições para direção.


A gestão democrática das escolas públicas é um princípio constitucional (art 206,VI), consolidado pela LDB (Lei 9.394/1996) e pela Lei 14.644/2023.


Graziella foi nomeada interventora na Maria Montessori mesmo antes da terceirização. Posteriormente surgiram denúncias de assédio moral e perseguição contra professores. Em 2024, professores apresentaram denúncias na Secretaria de Educação, que instalou Processo Administrativo Disciplinar (PAD).


Mesmo assim, a Seed bancou Graziella na direção da escola quando a gestão foi transferida para a empresa Impulso, do grupo Salta, em 2025. Na consulta à comunidade escolar, realizada no ano anterior, a privatização não foi aprovada, pois não houve quórum, mas a Seed tratorou e impôs o Parceiro da Escola. Ao longo de 2025 a situação na escola foi se agravando a ponto de em novembro pais, mães e responsáveis terem que fazer um protesto na porta da escola contra a direção, acusada de adotar uma postura autoritária e de ignorar casos de bullying e homofobia.


A falta de solução para os problemas obrigou mães a trocar os filhos de escola. É o caso de Camila Cavalheiro. “Em 2025 meu filho iniciou o sexto ano. A expectativa era de participar ativamente da vida escolar, como era tradição na escola, conhecida pela participação da comunidade. No entanto, percebemos uma realidade diferente. Já na primeira reunião, a diretora fez propaganda do governo”, relata Camila.


“Em maio, meu filho foi vítima de bullying com cunho homofóbico. Apesar de o orientarmos a buscar ajuda na escola, ele não recebeu apoio. Ao procurarmos a diretoria para resolver a situação, fomos recebidos com comportamento homofóbico. A diretora questionou a relação entre mim e minha esposa, demonstrando desconhecimento sobre a composição familiar, e emitiu declarações contraditórias sobre preconceito”, conta Camila.


A demora ou ausência de apoio institucional às vítimas de preconceitos e assédios agrava situações de abuso, como mostrou a Vigília em parceria com o Plural em janeiro deste ano (Link?). “Formalizamos denúncias à Ouvidoria da Secretaria de Educação e ao Ministério Público. A resposta da Secretaria foi superficial e considerou a situação resolvida. O Ministério Público demorou a se manifestar”, afirma Camila.


O autoritarismo da direção da escola se acentuou a partir daí. Em setembro, a diretora fechou o grupo de WhatsApp da comunidade escolar, restringindo as publicações a ela e sua equipe. “Diante disso, criei um grupo de pais para discutir os problemas. O grupo foi inundado de denúncias: professores com comportamento inadequado, ameaças e perseguições da diretoria e negligência da gestão”, diz.


A ex-diretora publicou em sua rede social uma arte feita com IA como se fosse uma rainha.
A ex-diretora publicou em sua rede social uma arte feita com IA como se fosse uma rainha.

A mobilização se ampliou com a divulgação de uma carta à imprensa, detalhando as denúncias. “Conseguimos a participação de dois representantes do Tribunal de Contas, visto que a escola opera sob administração privada, o que levanta questões sobre a transparência no uso dos recursos estaduais”, diz Camila. Em reunião com dirigentes do Núcleo Regional de Educação, em outubro, o Coletivo de Pais e Mães pediu o afastamento da diretora.


A ampliação da mobilização seguiu com apresentação de mais denúncias formais ao Ministério Público, a criação de uma página no Instagram (@MãespelaEducação) e um formulário online para coletar relatos de estudantes, professores e pais. “Reunimos as informações e encaminhamos ao Ministério Público, visando a demonstrar a natureza coletiva dos problemas”, explica Camila.


A participação da comunidade escolar foi crescendo e em novembro houve um protesto da porta da escola, organizado pelo Coletivo de Pais e Mães. “Após o ato, a diretora reagiu com raiva, proferindo ameaças de retaliação. Ela levou sua filha, advogada, para a escola a fim de obter acesso às câmeras de segurança, com o objetivo de identificar e processar os participantes do protesto. Suspeitamos que sua filha tenha tido acesso a documentos pessoais nossos e de outras mães. A filha da diretora, por não ser funcionária do Estado ou da escola, não tem permissão para acessar as imagens”, afirma Camila.


O programa Parceiros da Escola repassa a empresas privadas R$ 800 por aluno matriculado. Atualmente 82 escolas são administradas por diretores “concursados em parceria” com as empresas Apogeu,Tom Educação e Impulso, segundo informa a Agência de Notícias do governo do Paraná. A mesma Agência cita o Colégio Estadual Maria Montessori como um dos “beneficiados” pelo programa ao receber uma “Sala de Acomodação Sensorial”.


A Vigília pediu à Seed um posicionamento sobre os questionamentos do Coletivo de Pais e Mães e se considera resolvidos os problemas na direção da escola, mas não obtivemos retorno.

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