Luta da comunidade escolar derruba diretora do Colégio Estadual Maria Montessori
- Vigília Comunica

- 26 de fev.
- 4 min de leitura
por Luis Lomba
A comunidade escolar do Colégio Estadual Maria Montessori comemora o afastamento de Graziella Pia de Miranda da direção da escola, uma vitória da luta coletiva. A ex-diretora causou alvoroço e revolta em sua gestão, denunciada por omissão em casos de homofobia e discriminação a estudantes e professores.

Mesmo com motivos para comemorar, a comunidade segue apreensiva. Depois de exonerada, Graziella esteve na escola nos dias seguintes, inclusive fotografando documentos, denuncia a mãe de um estudante.
O afastamento da diretora é um avanço, mas ela é apenas uma das faces do problema: a gestão privada da escola. “Acreditamos que a priorização do lucro em detrimento da qualidade do ensino prejudica a comunidade escolar”, afirma Camila Cavalheiro, integrante do Coletivo de Mães de Alunos do Colégio Estadual Maria Montessori.

Os incidentes na Maria Montessori expõem uma das principais fragilidades do programa Parceiro da Escola, por meio do qual Ratinho Jr. transfere a gestão de escolas da rede pública estadual para empresas privadas, juntamente com milhões de reais para empresários “parceiros”: o fim da gestão democrática das escolas, pois as escolas “parceiras” não têm eleições para direção.
A gestão democrática das escolas públicas é um princípio constitucional (art 206,VI), consolidado pela LDB (Lei 9.394/1996) e pela Lei 14.644/2023.
Graziella foi nomeada interventora na Maria Montessori mesmo antes da terceirização. Posteriormente surgiram denúncias de assédio moral e perseguição contra professores. Em 2024, professores apresentaram denúncias na Secretaria de Educação, que instalou Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
Mesmo assim, a Seed bancou Graziella na direção da escola quando a gestão foi transferida para a empresa Impulso, do grupo Salta, em 2025. Na consulta à comunidade escolar, realizada no ano anterior, a privatização não foi aprovada, pois não houve quórum, mas a Seed tratorou e impôs o Parceiro da Escola. Ao longo de 2025 a situação na escola foi se agravando a ponto de em novembro pais, mães e responsáveis terem que fazer um protesto na porta da escola contra a direção, acusada de adotar uma postura autoritária e de ignorar casos de bullying e homofobia.
A falta de solução para os problemas obrigou mães a trocar os filhos de escola. É o caso de Camila Cavalheiro. “Em 2025 meu filho iniciou o sexto ano. A expectativa era de participar ativamente da vida escolar, como era tradição na escola, conhecida pela participação da comunidade. No entanto, percebemos uma realidade diferente. Já na primeira reunião, a diretora fez propaganda do governo”, relata Camila.
“Em maio, meu filho foi vítima de bullying com cunho homofóbico. Apesar de o orientarmos a buscar ajuda na escola, ele não recebeu apoio. Ao procurarmos a diretoria para resolver a situação, fomos recebidos com comportamento homofóbico. A diretora questionou a relação entre mim e minha esposa, demonstrando desconhecimento sobre a composição familiar, e emitiu declarações contraditórias sobre preconceito”, conta Camila.
A demora ou ausência de apoio institucional às vítimas de preconceitos e assédios agrava situações de abuso, como mostrou a Vigília em parceria com o Plural em janeiro deste ano (Link?). “Formalizamos denúncias à Ouvidoria da Secretaria de Educação e ao Ministério Público. A resposta da Secretaria foi superficial e considerou a situação resolvida. O Ministério Público demorou a se manifestar”, afirma Camila.
O autoritarismo da direção da escola se acentuou a partir daí. Em setembro, a diretora fechou o grupo de WhatsApp da comunidade escolar, restringindo as publicações a ela e sua equipe. “Diante disso, criei um grupo de pais para discutir os problemas. O grupo foi inundado de denúncias: professores com comportamento inadequado, ameaças e perseguições da diretoria e negligência da gestão”, diz.

A mobilização se ampliou com a divulgação de uma carta à imprensa, detalhando as denúncias. “Conseguimos a participação de dois representantes do Tribunal de Contas, visto que a escola opera sob administração privada, o que levanta questões sobre a transparência no uso dos recursos estaduais”, diz Camila. Em reunião com dirigentes do Núcleo Regional de Educação, em outubro, o Coletivo de Pais e Mães pediu o afastamento da diretora.
A ampliação da mobilização seguiu com apresentação de mais denúncias formais ao Ministério Público, a criação de uma página no Instagram (@MãespelaEducação) e um formulário online para coletar relatos de estudantes, professores e pais. “Reunimos as informações e encaminhamos ao Ministério Público, visando a demonstrar a natureza coletiva dos problemas”, explica Camila.
A participação da comunidade escolar foi crescendo e em novembro houve um protesto da porta da escola, organizado pelo Coletivo de Pais e Mães. “Após o ato, a diretora reagiu com raiva, proferindo ameaças de retaliação. Ela levou sua filha, advogada, para a escola a fim de obter acesso às câmeras de segurança, com o objetivo de identificar e processar os participantes do protesto. Suspeitamos que sua filha tenha tido acesso a documentos pessoais nossos e de outras mães. A filha da diretora, por não ser funcionária do Estado ou da escola, não tem permissão para acessar as imagens”, afirma Camila.
O programa Parceiros da Escola repassa a empresas privadas R$ 800 por aluno matriculado. Atualmente 82 escolas são administradas por diretores “concursados em parceria” com as empresas Apogeu,Tom Educação e Impulso, segundo informa a Agência de Notícias do governo do Paraná. A mesma Agência cita o Colégio Estadual Maria Montessori como um dos “beneficiados” pelo programa ao receber uma “Sala de Acomodação Sensorial”.
A Vigília pediu à Seed um posicionamento sobre os questionamentos do Coletivo de Pais e Mães e se considera resolvidos os problemas na direção da escola, mas não obtivemos retorno.




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