Crônica de um inverno permanente
- Vigília Comunica

- 12 de mai.
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Curitiba é um dos únicos lugares onde o sujeito veste cinco blusas, se aquece e age como um freezer. A gente vira uma bola de lã e sai na rua torcendo para não cruzar com nenhum conhecido — porque abrir a boca no vento gasta um calor que o costume do curitibano não entrega de graça. É a etiqueta do gelo: as pessoas se encontram, ignoram, ninguém vê ninguém e se alguém solta um "vamos marcar", pode anotar: é o jeito mais elegante de dizer "não me procure". Não é encanto, é sobrevivência; no fundo, só queremos que ninguém nos tire da nossa zona de conforto térmica e, sobretudo, social.

Na praia, qualquer cadeira emprestada vira amizade de infância. Aqui, se o vizinho do elevador capricha demais no "bom dia", já rola uma desconfiança. Dizem que é a herança europeia, mas deve ser só o hábito de viver com os dentes cerrados pro queixo não tremer. Gosto dessa distância. Ela nos protege de ter que fingir entusiasmo sob um céu de chumbo.
O problema é que essa pose de Primeiro Mundo só funciona no Instagram da Prefeitura. É lindo postar o Jardim Botânico enquanto se ignora que, a poucos quilômetros dali, o ‘lixo que não é lixo’ é o menor dos problemas. É muita propaganda de cidade modelo para pouca rede de esgoto na periferia. Adoram cobrar que o cidadão separe o potinho de iogurte, mas esquecem de passar o asfalto na rua da vila. Não é soberba exigir o que é direito; é o mínimo que se espera de uma capital que se vende como exemplo de civilidade.
A higienização aqui é seletiva, e o abastecimento também. A secura das torneiras lá no Tatuquara mostra que a água em Curitiba tem GPS: ela sabe direitinho onde deve parar de correr para garantir o banho quente de quem mora nos bairros ditos menos piores. No Tatuquara, o rodízio é eterno e a política pública é fantasma. A cidade usa cachecol de grife para esconder que o pescoço está sujo de descaso.
Sigo aqui, escrevendo sobre ela porque Curitiba precisa ser mais do que um cartão-postal retocado para quem olha de longe. Mas, enquanto a solução não vem, eu fico com o mestre Erasmo Carlos:
Só quero que você
Me aqueça nesse inverno
E que tudo mais
Vá pro inferno.




Comentários