top of page

CRÔNICA. Um abraço de que estamos vivas

Atualizado: 23 de abr.

por Pedro Carrano


Os sabiás cantam forte, as pombas se movimentam. Os carcarás atacam os pássaros pequenos. O bairro não para. Ilustração: Carrano
Os sabiás cantam forte, as pombas se movimentam. Os carcarás atacam os pássaros pequenos. O bairro não para. Ilustração: Carrano

Foi um abraço distraído. Um abraço que concentrou todas as energias possíveis entre duas melhores amigas. Foi um abraço no bairro, na lentidão de lesma da vila, que é no fundo o andar correto das coisas. Foi um abraço como tem de ser. Foi um abraço alegre. Foi um abraço doloroso. Wilma e dona Ivete não se viam presencialmente desde o começo da pandemia. Wilma se resguardou em casa desde o dia que foi anunciado o impacto do novo vírus no Brasil.


Dona Ivete se arriscou um pouco mais, sempre de máscara, mas não mudou tanto a sua rotina, entre uma compra e outra, uma ida na costureira ou no salão da Olga. Tempos difíceis. Tempos simples. Quantas amigas do Bolsão se foram? Entraram juntas naquele pântano de sapos, preconceito dos ricos, barro, reuniões com a Cohab e sonhos de esperança. Ergueram a vila Canaã. Ergueram casas. Agora estão grandes. Dois andares. Às vezes três, pra tentar olhar a cidade um pouco mais do alto. E de longe. Mas aqui é perto, tão perto quanto o abraço dado por dona Wilma em Ivete. Depois de quatro anos, a apenas duas quadras de distância, passando pelo córrego e pelo terreno abandonado da Prefeitura, as duas se reencontraram. As duas têm quase a mesma idade. São oito décadas. Quanto trabalho, braços e crianças passaram por ali? As palmas das mãos estão estendidas. “Há quanto tempo” é o que é possível dizer nessas horas quando os segundos não passam. Ou passam, debaixo de um sol raro. São nove horas da manhã. O dia ainda teria bastante tempo para, como um caracol de jardim, desenvolver a sua passeata.


Os cachorros latem. As lembranças correm. Quatro anos distantes e só agora retomados. As duas velhas se recordam de tudo. A sociedade já se esqueceu até de tudo o que rolou. Não dá pra esquecer. É preciso incorporar pra poder tocar pra frente. É preciso seguir em linha reta, mesmo que sejam as duas quadras de distância entre dona Wilma e Ivete. Quantos maridos, mais ou menos agressivos, as duas encararam? Quantos filhos, sobrinhos e conhecidos perderam? Agora, é verdade, o bairro é pacificado. Quanto sangue correu nas suas águas tortas? Quantas mágoas? Quantas sagas? A vizinhança hoje vem da tal da Venezuela, de Cuba e do tal do Haiti. Os sabiás cantam forte, as pombas se movimentam. Os carcarás atacam os pássaros pequenos. O bairro não para. Mas parou por um instante pro abraço que pude presenciar entre dona Wilma e Ivete. Aquele abraço que não entrou para a História. Aquele abraço de duas octogenárias do bairro marcado por toda a vibração possível que cabe numa história.



Comentários


bottom of page