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Crônica de uma rua viva

por Lea Oksenberg


As ruas têm memória curta para quem só passa por elas com pressa, mas guardam cada passo de quem lá deixou o coração. Se a rua da minha infância resolvesse quebrar o silêncio e falar, não contaria uma história cor-de-rosa. Ela diria, sem rodeios, que a vida ali não era fácil. E, por outro lado, era maravilhosa.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Não era moleza. Eu descia com meu irmão, que nasceu cheio de problemas, não andava, usava cadeira de rodas e tinha macrocefalia. Ele era chamado de "cabeção" e eu ficava tiririca das ideias com a crueldade — mas difícil mesmo era para ele digerir tudo aquilo.


Mas a mesma rua que acompanhava essa luta virava festa quando eu descia para pegar uma praia. Tinha sempre uma turminha da música me esperando, cantando alto para todo mundo ouvir: "Podem me bater, podem me prender, que eu não mudo de opinião". Samba do Zé Keti imortalizado por Nara Leão e gravado no verso do compacto da Banda.


A rua assistiu à História passar pela nossa porta. Viu a retirada dos pedintes pouco antes de a Rainha Elizabeth chegar ao Brasil. Viu a cidade se calar quando veio o golpe de 64. Ficou assustada quando uma moça nova se suicidou e estarrecida no dia em que um jipe do Exército me atropelou. Assistiu à chegada de um hotel de luxo que abrigava famosos, entre eles o próprio Roberto Carlos. E viu passar por ali — porque moravam no local — personalidades que marcaram época: Chico Buarque, Marieta Severo, a genialidade de Jaguar, Nelson Motta, Marília Pêra... Eram tantos artistas! Sem falar nas bancas de jornal, que eram muitas, uma em cada esquina.


Ali também morava a nossa cumplicidade: a rua guardava as travessuras minhas e da minha mãe quando fugíamos para comer camarão na Confeitaria Genova — um pecado delicioso, já que a religião não permitia degustar peixe sem escamas. E me observava, em outro tempo, indo e voltando da academia — suando, esgotada, viva!


A rua guardou tudo. A menina valente ao lado do irmão, o samba a caminho do mar, os camarões clandestinos com a mãe, os passos dos artistas e os solavancos do país. O tempo passou, a paisagem mudou, mas aquelas calçadas continuam vivas. E, nelas, de um jeito ou de outro, a gente nunca deixa de caminhar.


Se essa rua, se essa rua fosse minha... eu mandava, eu mandava ladrilhar.


"Se Essa Rua Fosse Minha" é uma cantiga de domínio público. Nos anos 1930, a letra e a melodia tradicionais foram resgatadas, adaptadas e registradas pela dupla Mário Lago e Roberto Martins.

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