O Vale das Lágrimas (e da tequila)
- lazzarimlouize
- há 1 dia
- 2 min de leitura
por Lea Oksenberg
Dizem por aí que coração partido faz a gente cometer cada loucura... Pois no caso dela, tomar um pé na bunda do marido não pedia terapia, muito menos caixas de lenço: pedia mesmo era pegar a serra, uma dose cavalar de inconsequência e quanta tequila coubesse no corpo.

Pegou a filha, foi pro Rio resgatar a prima e subiu para Petrópolis sem olhar para trás. O destino? O apartamento da amiga da mãe, lá no Vale do Sol — aquele recanto no meio do nada, cheio de casas espalhadas pela montanha, bem antes de inventarem esse negócio de condomínio fechado. O lugar era lindo demais, com umas ladeiras de meter medo e uma vista de tirar o fôlego. O plano de fuga tinha tudo para ser poético. Só esqueceram de avisar São Pedro.
Depois de encarar horas de trânsito na estrada, finalmente chegaram e ajeitaram as malas. Mas alma inquieta não sossega em quarto quando tem mágoa para afogar. Arrumaram as coisas correndo e se mandaram para uma churrascaria ali perto. Foi lá que as estrelas se alinharam: a prima não bebia uma gota de álcool e, de quebra, morria de pavor de guiar nas ladeiras íngremes do vale. Para a nossa recém-solteira, aquilo não foi um aviso, foi uma senha. Se a motorista da rodada estava garantida, ela se achou no pleno direito de virar todas as tequilas do restaurante.
E mandou ver.
Na saída, o cenário parecia filme de suspense comédia. Petrópolis desabava naquela chuva de serra que não dá trégua. Era água lavando o asfalto, uma escuridão de engolir o vale, e dentro do carro o clima era surreal: a prima agarrada ao volante, pálida de pavor subindo as ladeiras num chão puro sabão, enquanto ao lado a bêbada da rodada desfilava seu melhor repertório de besteiras e filosofias de botequim.
Quando finalmente venceram o temporal e encostaram na porta de entrada, a prima respirou fundo e gritou pro porteiro:
— Moço, me ajuda aqui, por favor!
A intenção era resgatar a passageira com algum pingo de dignidade. Só que dignidade já tinha ficado no fundo do último copo. Esperar ajuda de porteiro? Nem pensar! Jamais. Com aquela audácia que só quem bebeu além da conta consegue ter, ela abriu a porta para provar que estava inteiramente dona de si.
Deu no que deu. A gravidade da serra não perdoa soberba de bêbado. No primeiro passo, o mundo girou. Levou um tombaço de cinema, caindo com tudo de bunda numa poça de lama pura. Ali mesmo, no chão ensopado, o drama amoroso e a pose de mulher resolvida afundaram no barro.
Levantou-se imunda dos pés à cabeça, sob o olhar espantado do porteiro e o pavor da prima. O que veio a seguir? A memória apagou — um verdadeiro gesto de misericórdia do próprio cérebro. Mas de uma coisa a família nunca mais vai esquecer: no dia em que o amor foi pro lixo, ela deu a volta por cima caindo direto no barro. E lavou a alma.
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
(Volta por Cima — Paulo Vanzolini)




Comentários