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Os três atos de uma mesma esquina

por Lea Oksenberg


Há uma cidade inteira que não aparece nos guias turísticos. Ela roda sem parar nos sulcos dos discos de vinil — feita de suor, poeira e esperanças que mofam na plataforma da estação. Se enquadrarmos bem a câmera, o que se vê são três cenas do mesmo filme: é o script de um Brasil vivo, urbano, gravado em notas musicais.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

A explosão do presente


A câmera abre num domingo de sol sufocante. Cheiro de algodão-doce, maresia, dendê. Na feira, José grita o preço da banana; na obra, João ostenta os calos da capoeira. É a juventude que recusa ser apenas braço de trabalho, querendo a vida, o riso e a cor das saias de Juliana girando na roda-gigante.


Gilberto Gil filma tudo em ritmo de corte rápido, quase psicodélico. Só que a cidade que nega o futuro aos seus filhos não sabe lidar com o excesso de desejo, e o amor simplesmente não cabe na folga do fim de semana. A vitalidade, reprimida e encurralada, acaba transbordando no único canal que o asfalto deixa aberto: a lâmina, o sangue na mão e o apito do parque que continua a girar, indiferente. João e José queimam no próprio fogo porque ousaram viver o presente com fome demais.


A implosão do tempo


Aí chega a segunda-feira de manhã. O sol nem bem despontou e a cor já fugiu do quadro. A cena vira preto e branco. Na estação fria, o trem sacode nos trilhos naquele ritmo hipnótico: esperando, esperando, esperando...


É onde encontramos Pedro pedreiro. Se João e José foram a faísca que explodiu, Pedro é a cinza que se acumulou. Chico Buarque filma essa paralisia da rotina. Pedro não corre o risco da paixão; ele entrega o corpo à engrenagem. Espera o aumento, o trem das seis, a marmita esquentada, o filho que vem vindo e a sorte que nunca desembarca. Enquanto o tempo passa pela janela do vagão, Pedro vai virando cimento. A tragédia dele não faz barulho nem vira manchete de jornal: é a morte lenta do homem que adia a existência para um futuro que o sistema jamais pretende entregar.


A criação do mito


Quando o presente se resolve na violência e o futuro se dissolve na espera, o povo recusa o desespero e inventa a própria salvação. A iluminação muda de tom, e entram as luzes coloridas da música de Jorge Ben Jor, pulsando no peito como bateria de escola de samba.


Subimos o morro. A comunidade para em contagem regressiva — já não se espera mais o trem da central, espera-se Charles. Charles, o Anjo 45, protetor dos desvalidos, o homem que desafia a lei dos homens para impor a justiça da rua. Ele é o herói pop, a lenda viva necessária para tornar suportável a dureza da semana. Charles é a fantasia que resgata a dignidade onde o Estado só deixou abandono.


No fundo, João, José, Pedro e Charles se cruzam na mesma calçada. São três saídas de um mesmo beco: a paixão desesperada que vira tragédia, a resignação silenciosa que vira estátua, e o sonho coletivo que inventa um justiceiro. Uma crônica sem fim, em que a MPB fez da dor e do desejo o cinema mais bonito — e verdadeiro — que o Brasil já viu.


Amanhã não tem feira

Ê, José!

Não tem mais construção

Ê, João!

Não tem mais brincadeira

Ê, José!

Não tem mais confusão



Domingo no parque - Gilberto Gil

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