Da boca do forno ao fim da festa
- Vigília Comunica

- 18 de mai.
- 3 min de leitura
Por Lea Oksenberg
Houve um tempo em que as quintas-feiras — e, mais tarde, no auge do sucesso nos anos 70, as quartas-feiras — no Rio de Janeiro tinham um cheiro específico: o de tinta fresca misturado ao da fumaça de cigarro dos botequins da Zona Sul. Não era um dia qualquer. Era o dia em que o novo número do Pasquim chegava às bancas. E quem viveu aquela virada dos anos 60 para os 70 lembra bem: a gente esperava pelo jornal na boca do forno, ávido, como quem busca um contrabando de oxigênio em meio ao sufoco do AI-5.

Olhando hoje, na era dos cliques rápidos, é quase impossível dimensionar o que era aquele ritual. O Pasquim não era uma leitura passiva de domingo; era um pacto de cumplicidade. Nas páginas de papel jornal vagabundo, o time — Jaguar, Tarso, Ziraldo, Millôr, Francis, Henfil e tantos outros — fazia o que parecia impossível: peitava o coturno da ditadura com o chinelo de dedo e o humor fino de bar.
O segredo estava na língua. Eles mandaram o português sisudo e formal dos editoriais tradicionais pro espaço e trouxeram para o papel o "conversê" das calçadas. Gírias, interrupções, risadas gráficas e termos inventados. Se o estômago do país revirava com a censura, a gente desaguava no riso nervoso provocado pelo rato Sigismundo ou pelas tirinhas cortantes do Henfil.
O auge e o coração do Pasquim eram as suas entrevistas. Eles revolucionaram o gênero. Trancavam a personalidade do momento numa sala com meia dúzia de mentes brilhantes, copos cheios e gravador ligado. O resultado não era um depoimento engomado, era uma sabatina cortante, livre, leve e solta.
Como esquecer a revolução nos costumes provocada por Leila Diniz no final de 1969? Grávida, de minissaia, quebrando tabus com uma naturalidade avassaladora, ela falou de amor, sexo e liberdade de um jeito que os generais nem sabiam por onde começar a proibir. A sacada da redação foi genial: para driblar a tesoura que fatalmente viria, substituíram os palavrões espontâneos de Leila e de outros personagens por asteriscos. O leitor, na sua inteligência cúmplice, lia o asterisco e preenchia o palavrão com exatidão, como se estivesse brincando de forca! A ira do regime foi tamanha que o decreto que instituiu a censura prévia nas revistas de comportamento ficou conhecido nos bastidores como "Decreto Leila Diniz".
Vender mais de 200 mil exemplares semanais fazendo jornalismo artesanal e sob constante ameaça de bomba nas bancas era um milagre brasileiro. Nem quando quase toda a redação foi em cana em 1970 o jornal parou; sob o comando de Millôr e com a ajuda de nomes como Chico Buarque e Glauber Rocha, as páginas continuaram saindo. Porque o espírito daquela resistência era indomável.
Ironia do destino, o semanário não teve uma morte súbita, mas sim uma agonia lenta com o fim da festa nos anos 80. Quando a redemocratização tirou dele o seu grande opositor, as luzes se acenderam e o público dispersou. Mas a memória daquela entrega na boca do forno permanece. O Pasquim provou que, quando a realidade é dura demais para ser suportada com seriedade, a ironia e o humor inteligente não são apenas um passatempo — mas ferramentas de sobrevivência.
Pois eu vou-me embora
Vou ler meu pasquim
Se ela chega e não me vê
Sai correndo atrás de mim.
Garota do Pasquim (Erasmo Carlos e Ângelo Antônio)




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