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Desemprego e adoecimento: o saldo do fechamento de agências bancárias no Paraná


Fechamento de unidades reduz postos de trabalho, sobrecarrega quem permanece nas agências e amplia o adoecimento mental de bancários e trabalhadores terceirizados no Paraná.


por José Pires, Joka Madruga, Louize Lazzarim e Fábio Souza



Londrina, segunda maior cidade do Paraná, também ocupa a segunda posição entre os municípios paranaenses que mais perderam agências bancárias na última década. Entre 2015 e 2025, o Paraná fechou cerca de 667 unidades, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Em Londrina, foram 37 agências encerradas no período. 

Laurito, presidente do Seeb-Londrina, alerta que o fechamento de agências sobrecarrega bancários e adoece a categoria. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Laurito, presidente do Seeb-Londrina, alerta que o fechamento de agências sobrecarrega bancários e adoece a categoria. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

O Sindicato dos Bancários de Londrina e Região (Seeb-Londrina) revela que, nos últimos dois anos, as principais instituições financeiras públicas e privadas encerraram agências e reduziram o atendimento presencial em Londrina e em municípios vizinhos da sua base.


O fechamento das agências naturalmente fez com que muitos bancários perdessem seus empregos. Um levantamento realizado pelo Sindicato em 2026 mostra que a base conta atualmente com 1.654 bancários, sendo 784 em Londrina e 870 nos demais municípios abrangidos pela entidade. Os números, no entanto, estão inseridos em um cenário de retração contínua do emprego bancário. Na base de Londrina, havia 5.495 bancários em 1990, quando a cidade contava com 128 agências. Em 2012, eram 2.389 trabalhadores em 144 agências. Doze anos depois, em 2024, o número havia caído para 1.820 bancários, enquanto a quantidade de agências recuou para 120. No levantamento mais recente, de 2026, são apenas 1.654 trabalhadores.


A redução também acompanha uma tendência observada em todo o Paraná. Dados da Federação dos/das Trabalhadores/as em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec - PR) revelam que entre 2015 e 2025 foram perdidos 11.119 postos de trabalho nos bancos do estado, uma redução de aproximadamente 35,6%. 


Os dados da Fetec sobre o emprego bancário no Paraná refletem o estoque de trabalhadores ao final de cada ano, ou seja, o número de bancários empregados após serem contabilizadas todas as admissões e desligamentos ocorridos no período. Em 2015, o estado contava com 31.236 bancários. Em 2021, esse contingente havia caído para 23.034, chegando a 21.884 em 2022, 21.434 em 2023, 20.664 em 2024 e 20.117 em 2025. No acumulado da década, o estoque de trabalhadores encolheu em mais de 11 mil postos de trabalho.

Arte: Fábio Souza
Arte: Fábio Souza

Para o presidente do Sindicato de Londrina, Laurito Porto de Lira Filho, o fechamento das agências faz parte de uma transformação que altera todo o modo de organização do trabalho e penaliza os bancários. “A redução do número de agências e de trabalhadores tem concentrado cada vez mais serviços nas unidades que permanecem abertas, aumentando a pressão sobre os bancários. O resultado é uma combinação de jornadas mais sobrecarregadas, cobrança intensa pelo cumprimento de metas e crescimento do adoecimento mental entre os trabalhadores”, diz. A categoria já aparece entre as que registram maior número de afastamentos por transtornos mentais no país, embora represente menos de 1% dos trabalhadores com registro formal.


Para Laurito, esse cenário está relacionado diretamente à busca das instituições financeiras por maior rentabilidade. Na avaliação dele, quanto maior o lucro dos bancos, maior tende a ser a pressão sobre os funcionários para atingir metas e, ao mesmo tempo, reduzir despesas administrativas. A consequência, afirma, ultrapassa o ambiente de trabalho e chega aos clientes, que enfrentam agências mais sobrecarregadas, maior volume de pessoas para atender, filas e aumento das reclamações.


Os efeitos também recaem sobre os trabalhadores desligados. Com a redução estrutural dos postos presenciais, os bancários demitidos encontram mais dificuldades para permanecer no próprio setor financeiro, enquanto a digitalização reduz as oportunidades de trabalho. 


Adoecimento de trabalhadores 

O adoecimento mental se tornou um dos principais problemas de saúde entre os bancários. Dados apresentados em audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), em maio de 2025, mostram que a categoria responde por 14,8% dos afastamentos por problemas de saúde mental registrados pelo INSS, praticamente empatada com os trabalhadores da administração pública (14,9%). O índice supera o registrado entre profissionais da saúde (8,91%) e do transporte (7,63%). Segundo o médico do trabalho Elver Andrade Moronte, do Centro de Referência Especializado em Saúde do Trabalhador (Cerest) de Curitiba, os números podem ser ainda maiores. Considerando casos não reconhecidos pelo INSS, a estimativa é de que o volume seja até três vezes superior.


Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) em 2024 reforça a dimensão do problema: 39% dos trabalhadores do ramo financeiro disseram utilizar medicamentos controlados, como antidepressivos e ansiolíticos. Além disso, uma campanha apresentada durante a audiência apontou que 80% dos trabalhadores do setor têm pelo menos um problema relacionado ao trabalho, e cerca de metade desse grupo estaria em acompanhamento psiquiátrico. Entre os fatores associados ao adoecimento estão a cobrança por metas, jornadas prolongadas, vigilância excessiva, ambiente de trabalho marcado pela competitividade, transferências e o risco de demissões.

Arte: Fábio Souza
Arte: Fábio Souza

Terceirizados também perdem empregos 

O funcionamento de uma agência bancária envolve não apenas os bancários, mas também trabalhadores terceirizados responsáveis por serviços como limpeza, manutenção e segurança. Com o fechamento das unidades, esses profissionais também são afetados e, muitas vezes, acabam perdendo seus empregos.


O Sindicato dos Vigilantes de Londrina e Região representa cerca de 3.200 trabalhadores em 110 municípios, muitos deles empregados na segurança de agências bancárias, cooperativas de crédito e empresas do agronegócio. Segundo o secretário de finanças da entidade, Carlos Ribeiro Caládio, Itaú e Bradesco estão entre os bancos que mais têm provocado cortes na região. Como a base sindical se estende de Apucarana a Telêmaco Borba, grande parte das agências fechadas nos últimos anos estava dentro da área de representação do sindicato.


Quando uma agência encerra as atividades, a empresa de segurança tenta, em alguns casos, transferir os profissionais para outros postos. Na prática, porém, essa possibilidade é limitada pela falta de vagas e pelas características específicas de cada posto de trabalho. 


“Um vigilante que trabalhava durante o dia em uma agência, por exemplo, pode não conseguir assumir uma vaga noturna em outro local. Por isso, segundo o sindicato, cerca de 90% dos vigilantes vinculados a agências fechadas acabam demitidos. A entidade estima que centenas de trabalhadores tenham perdido o emprego nos últimos três anos em decorrência da redução da rede bancária. Cada agência costuma contar com pelo menos dois vigilantes, podendo ter três ou quatro, dependendo do tamanho da unidade”, destaca Carlos.


Além da perda do emprego, o fechamento das agências também representa redução de renda para os profissionais que permanecem na atividade. Embora o salário-base seja definido para toda a categoria no âmbito estadual, o trabalho em bancos costuma proporcionar uma renda maior por causa do auxílio-alimentação pago por dia trabalhado. Enquanto um vigilante que trabalha em escala 12 por 36 cumpre cerca de 15 jornadas por mês, o profissional alocado em uma agência bancária pode trabalhar em torno de 22 dias, aumentando o valor recebido em benefícios. Com a transferência para outro posto, portanto, a família pode sentir uma queda na renda mesmo quando o trabalhador consegue evitar a demissão.


“A própria natureza do trabalho também faz do vigilante bancário uma categoria particularmente exposta à pressão. Os profissionais trabalham armados e são responsáveis pela segurança de clientes, funcionários e do patrimônio das instituições. Situações aparentemente simples, como a passagem de clientes pela porta giratória, podem gerar conflitos e estresse, especialmente quando há falta de informação sobre os procedimentos de segurança”, diz o secretário. O sindicato também aponta preocupação com o impacto psicológico provocado por atrasos ou falta de pagamento por parte de empresas terceirizadas. Para os trabalhadores, a combinação entre responsabilidade elevada, pressão cotidiana e insegurança financeira tem aumentado a preocupação com a saúde mental da categoria.


Secretário do Sindicato dos Vigilantes de Londrina e Região afirma que 90% dos vigilantes vinculados a agências fechadas acabam demitidos. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Secretário do Sindicato dos Vigilantes de Londrina e Região afirma que 90% dos vigilantes vinculados a agências fechadas acabam demitidos. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Além dos vigilantes, trabalhadores da limpeza também têm vivido um drama com o fechamento das agências bancárias. Josiane de Fátima Ferraz trabalhou durante cinco anos na agência do Itaú em Arapoti, nos Campos Gerais, como funcionária de uma empresa terceirizada responsável pelos serviços de limpeza. Com uma jornada de quatro horas diárias, ela também cuidava da cozinha e preparava o café para funcionários e clientes. O emprego tinha um peso importante na organização financeira da família. Além do salário, Josiane recebia vale-alimentação e conseguia conciliar o trabalho com os cuidados da neta, que estudava pela manhã. “Eu contava com isso”, relata. As despesas da casa eram divididas com a filha, e o benefício ajudava a garantir a alimentação da família.


A notícia de que a agência seria fechada chegou de forma inesperada. Segundo Josiane, os trabalhadores foram informados internamente sobre o encerramento das atividades, sem uma reunião formal ou um período longo de preparação. O fechamento significou o fim imediato de seu emprego. “Fiquei abalada, porque você conta com aquilo”, relata. Na época, ela tinha despesas fixas, morava de aluguel e ainda possuía dívidas, inclusive com o próprio Itaú. Durante cerca de quatro meses, afirma que a situação financeira da família ficou bastante difícil. “Depois que acabou lá, desabou o mundo”, resume.


Josiane conseguiu um novo emprego, mas a mudança trouxe uma consequência que vai além do salário. Ela passou a precisar pagar uma pessoa para buscar a neta na escola e cuidar dela enquanto trabalha, já que antes conseguia conciliar os horários com a rotina da criança. Ela conta que praticamente metade da renda atual é destinada a esse serviço. Embora o salário seja semelhante ao que recebia no banco, ela perdeu o vale-alimentação e deixou de ter o mesmo horário flexível. O caso também revela uma diferença entre os funcionários diretos dos bancos e os terceirizados, enquanto bancários ainda podem ter a possibilidade de transferência para outras unidades, trabalhadores da limpeza e da segurança geralmente recebem apenas a informação de que têm uma data para deixar o posto. “Só chegaram e falaram: ‘É até tal dia que vocês vão trabalhar’. E pronto, acabou”, relata Josiane. 


Para Josiane, o fechamento da agência do Itaú em Arapoti prejudicou profundamente a renda da família. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Para Josiane, o fechamento da agência do Itaú em Arapoti prejudicou profundamente a renda da família. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Respostas dos bancos e da Febraban:

A Vigília Comunica entrou em contato com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e também com os bancos citados nesta reportagem pedindo um posicionamento sobre o fechamento de agências, prejuízos a usuários, demissão de bancários e demais trabalhadores e adoecimento da categoria. 


Por meio de sua assessoria de imprensa a Febraban respondeu: 

“A abertura ou fechamento de agências seguem as políticas individuais e estratégicas de cada banco, não havendo monitoramento pela Febraban”. 


O Santander respondeu:

“O Santander informa que o encerramento das atividades de algumas agências faz parte da reestruturação da rede de atendimento, acompanhando a mudança de comportamento dos clientes, que já realizam quase a totalidade de suas operações remotamente, por meio dos canais digitais. Clientes Santander podem continuar utilizando os serviços normalmente via aplicativo, internet banking, telefone, chat, além das demais lojas da rede física do Banco. Saques e depósitos, entre outras transações, podem ser realizados nos terminais da rede Banco24Horas. O time de especialistas do Banco também segue visitando clientes-empresas in loco."


E o Bradesco:

“O Bradesco aperfeiçoa continuamente seu modelo de atendimento para atender às novas demandas dos clientes, combinando canais físicos e digitais de forma complementar e alinhada à evolução do setor bancário. Atualmente, cerca de 98% das transações são realizadas por meios digitais, o que demanda ajustes na rede de atendimento e na estrutura organizacional.


As decisões relacionadas à rede de agências consideram fatores como o perfil de utilização dos canais pelos clientes, a demanda por atendimento presencial e aspectos operacionais. Nossos clientes continuam contando com atendimento completo por meio de agências próximas, da rede Bradesco Expresso e canais digitais do banco.


Com relação à gestão de pessoas, os ajustes organizacionais são realizados de forma planejada e responsável, com prioridade para a alocação interna de talentos, a mobilidade profissional e o reposicionamento de profissionais sempre que possível. Não há programa de demissões.


O Bradesco também mantém investimentos contínuos em qualificação, desenvolvimento de carreira e capacitação de seus funcionários, buscando oferecer oportunidades de crescimento e preparação para as transformações do mercado”


*Esta série de reportagens teve o apoio da Federação dos/das Trabalhadores/as em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec - PR) e dos seus sindicatos associados.

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