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Desertos bancários intensificam exclusão social no Paraná 

Confira aqui as outras reportagens da série "Cadê o meu banco?"


por José Pires, Joka Madruga, Louize Lazzarim e Fábio Souza


Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

No Paraná, cerca de 667 agências bancárias foram fechadas entre 2015 e 2025 segundo o levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O estudo aponta que no período de dez anos cerca de 237 cidades paranaenses perderam agências bancárias. Ao final de 2025, 176 municípios do estado não tinham nenhuma agência física. Juntas, essas cidades somam mais de 450 mil habitantes. 

Na última década, conforme o levantamento, 57 cidades do Paraná com menos de 100 mil habitantes perderam suas últimas agências bancárias. São pequenos municípios onde os moradores agora precisam viajar para outras cidades em busca de atendimento nas poucas agências que ainda existem na região onde vivem. 


Os chamados “desertos bancários” criam um verdadeiro isolamento financeiro, dificultando a movimentação de dinheiro e o acesso a serviços essenciais, sobretudo para famílias de baixa renda. O impacto é particularmente forte em cidades pequenas, que dependem da circulação de aposentadorias, salários do funcionalismo público e benefícios sociais, como o Bolsa Família. 


Sem agências ou caixas eletrônicos adequados, moradores precisam se deslocar até o polo regional mais próximo para sacar ou movimentar seus recursos. Pesquisa de campo da Confederação Nacional de Municípios (CNM) aponta que grande parte desse dinheiro acaba sendo gasta diretamente no comércio das cidades vizinhas, provocando uma evasão sistemática de recursos e enfraquecendo a economia local. Atualmente, os municípios sem agências bancárias concentram cerca de 19,7 milhões de pessoas, o equivalente a 9% da população brasileira.


É o que acontece nas cidades do entorno de Paranavaí, no noroeste paranaense. Pequenos municípios que viram as suas últimas agências bancárias fecharem nos últimos anos, têm perdido também valiosos recursos para sua economia. 


Paraíso do Norte é um município com quase 14 mil habitantes, localizado a cerca de 32 quilômetros de Paranavaí. A cidade é uma das poucas da região que ainda mantêm agências bancárias em funcionamento e, por isso, recebe todos os meses centenas de pessoas de municípios vizinhos em busca de atendimento. O fluxo de moradores de outras cidades movimenta a economia local e contribui para o fortalecimento do comércio, em contraste com a realidade dos municípios de origem dessas pessoas, que sofrem com a falta de agências bancárias e a consequente redução da circulação de consumidores. 


A cidade é um “ponto fora da curva”, como define seu ex-prefeito Beto Vizzotto. Ele destaca que o município é um importante polo de geração de emprego porque concentra grandes empresas e por isso ainda mantém agências bancárias. O contrário do que acontece em cidades vizinhas, onde os bancos fecharam as portas há anos. “Os clientes de outras cidades vêm para cá, nas agências aqui de Paraíso do Norte para resolver problemas, pagar contas e receber benefícios. São pessoas que gastam para vir, quem não tem carro precisa pagar táxi, chegando aqui às vezes passam o dia na cidade, almoçam, tomam café, compram nas lojas. Então, parte do que recebem já fica aqui”, revela Vizzotto. 

Beto Vizzotto: “Quando as pessoas vêm de outras cidades usar os bancos aqui em Paraíso do Norte, parte do benefício já é gasto aqui, com deslocamento e alimentação”. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Beto Vizzotto: “Quando as pessoas vêm de outras cidades usar os bancos aqui em Paraíso do Norte, parte do benefício já é gasto aqui, com deslocamento e alimentação”. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Cerca de 248 quilômetros separam Paraíso do Norte de Toledo, cidade pólo na região oeste do Paraná. As duas, porém, vivem realidades semelhantes. Toledo ainda mantém seis agências bancárias abertas, apesar de ter perdido outras seis ao longo dos últimos dez anos. 


O município vê, cidades de seu entorno, perdendo receita e postos de trabalho por conta da saída dos bancos. E assim como nas demais regiões do estado, no oeste o fechamento e a redução das agências também afetam o comércio ao dificultar o acesso de parte da população ao dinheiro e aos serviços financeiros. O impacto é maior entre aposentados, pessoas de idade mais avançada e moradores de áreas rurais, que muitas vezes não têm familiaridade com aplicativos bancários ou preferem não utilizá-los por receio de golpes.  É o que explica Marcos Cezar Sanchez, ex-presidente da Associação Comercial da cidade. 


“Sem uma agência por perto, essas pessoas precisam recorrer a caixas eletrônicos, lotéricas ou buscar ajuda de funcionários para sacar o benefício e, só depois, seguir para o comércio. Se diminuírem os pontos de atendimento, o principal prejudicado vai ser realmente o aposentado já de idade mais alta e de escolaridade mais baixa. Esse vai ter dificuldade”, afirma.


Mauro salienta que esse fluxo é importante para a economia local porque o dinheiro recebido nas agências acaba chegando ao comércio. Segundo ele, o movimento é ainda mais perceptível no início do mês, período em que são pagos os benefícios aos aposentados. “Aquece um pouco mais o comércio, com os aposentados, por conta desse fluxo”, relata. A avaliação é de que, para quem depende do atendimento presencial, a agência bancária não é apenas um local para sacar dinheiro, mas parte de um circuito que envolve o recebimento do benefício, o deslocamento pela cidade e o consumo em lojas e outros estabelecimentos.


Na cidade, esse movimento é favorecido pela concentração das agências em uma área tradicionalmente conhecida como Centro Financeiro. Embora o município tenha cerca de 150 mil habitantes e ainda mantenha unidades de grandes bancos, houve redução da rede nos últimos anos. O Itaú fechou três agências, ficando com uma no centro; o Bradesco encerrou uma das duas unidades que mantinha; e o Banco do Brasil também reduziu sua presença. Ao mesmo tempo, as instituições que permaneceram vêm reformando e modernizando suas unidades, sinal de que o atendimento presencial ainda tem importância em um município desse porte. “Para o comércio, a manutenção dessas agências ajuda a preservar o fluxo de pessoas que se deslocam ao centro para realizar operações bancárias e aproveitam a ida à região para consumir”, diz Mauro.



Menos receitas municipais 

O fechamento das agências também afeta diretamente as finanças municipais. As instituições bancárias geram arrecadação de Imposto Sobre Serviços (ISS) sobre a prestação de serviços financeiros, administração de fundos, tarifas, transações e saques. Com o encerramento das unidades, essa fonte de receita desaparece justamente em um momento de extrema fragilidade das contas públicas: segundo a CNM, mais de 54% dos municípios brasileiros operam no vermelho, acumulando um déficit de R$ 33 bilhões. Além disso, cerca de 70% das cidades não conseguem gerar receita própria suficiente sequer para cobrir seus custos administrativos básicos e dependem de repasses federais. Nesse cenário, a perda de arrecadação provocada pelo fechamento de uma agência representa mais um fator de pressão sobre prefeituras que já enfrentam dificuldades financeiras.


Outro efeito dos desertos bancários é a desassistência de crédito, especialmente para pequenos produtores rurais, agricultores familiares, cooperativas e microempreendedores. Esses segmentos dependem do atendimento presencial, principalmente em bancos públicos, para acessar linhas específicas de microcrédito, financiamento e custeio rural. A ausência de agências pode dificultar ou atrasar a contratação desses recursos, comprometendo investimentos e a modernização das atividades produtivas locais. Em cidades pequenas e rurais, onde aposentadorias e benefícios do INSS têm peso significativo na economia, a falta de atendimento bancário ainda obriga idosos e beneficiários a viajar para outros municípios. O resultado é um ciclo que combina perda de arrecadação, fuga do consumo, dificuldade de acesso ao crédito e redução da circulação interna de dinheiro, aprofundando a fragilidade econômica dessas localidades.


Arte: Fábio Souza
Arte: Fábio Souza

Cidades maiores também sentem o fechamento de agências 

Londrina, segunda maior cidade do Paraná com cerca de 600 mil habitantes, também sente os efeitos do constante e acelerado fechamento de agências bancárias. Entre 2015 e 2025, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 37 agências foram fechadas na cidade.  


E o prejuízo não se limita à redução da arrecadação de impostos. O fechamento das agências também impõe mudanças na rotina de comerciantes, empresários e moradores que ainda dependem dos serviços bancários presenciais. Pequenos comerciantes e empresários utilizam as agências e caixas eletrônicos para movimentar seus negócios, enquanto aposentados e beneficiários recorrem a esses espaços para sacar seus recursos e resolver questões que nem sempre conseguem solucionar pelos aplicativos. É uma mudança que, para muitos, significa mais do que adaptar a forma de administrar o negócio: significa gastar mais tempo e dinheiro para realizar operações básicas. É isso que ressalta a vereadora Lenir de Assis (PT). “Sem uma unidade próxima, essas pessoas precisam modificar a forma como administram suas atividades, nem sempre tendo estrutura ou recursos para fazer essa adaptação. Em municípios menores, onde a oferta de serviços bancários já é reduzida, o problema tende a ser ainda maior, mas aqui em Londrina já é possível também sentir este efeito”, diz.


Lenir lembra que essa dificuldade é particularmente grave para famílias de baixa renda e pessoas que não têm acesso ou familiaridade com aplicativos bancários. Em muitos casos, o fechamento de uma agência obriga o usuário a se deslocar para outro bairro ou até para outro município. “O custo desse deslocamento pode consumir uma parcela significativa do próprio benefício recebido. Um exemplo ocorreu com uma senhora que precisava sacar um benefício eventual de R$ 180. Como a agência mais próxima ficava distante, ela gastou R$ 25 em uma viagem de Uber, entre ida e volta. ‘A minha comida da semana foi no Uber para que eu pudesse ir até uma agência bancária’, me disse ela”.


A situação também afeta a dinâmica econômica das cidades, opina a vereadora. Uma agência bancária não representa apenas um ponto de atendimento, mas também gera circulação de pessoas e movimentação no comércio ao redor. “Supermercados, lojas e outros estabelecimentos se beneficiam do fluxo de clientes que passa pela região. Quando a unidade é fechada, diminui também a circulação de trabalhadores e consumidores, afetando uma economia que se organiza em torno desses serviços”, enfatiza.


A vereadora londrinense lamenta o fato de que, apesar dos efeitos sobre usuários, trabalhadores e comércio, o fechamento das agências tem sido cada vez mais tratado como um processo natural. Essa percepção, segundo ela, contribui para reduzir a reação da sociedade e o debate político sobre o assunto. “A redução da presença física dos bancos não significa apenas o fechamento de prédios: envolve a perda de postos de trabalho, a redução da circulação de pessoas e dinheiro e a transferência dos custos e dificuldades para a população, sobretudo para os grupos mais vulneráveis”, completa.

Para a vereadora Lenir, a normalização do fechamento das agências é algo muito preocupante. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica
Para a vereadora Lenir, a normalização do fechamento das agências é algo muito preocupante. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Respostas dos bancos e da Febraban:

A Vigília Comunica entrou em contato com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e também com os bancos citados nesta reportagem pedindo um posicionamento sobre o fechamento de agências e o prejuízo gerado às cidades. 


Seguem abaixo as respostas: 

“O gerenciamento de agências bancárias faz parte da política de negócios de cada banco e não é monitorado pela Febraban. Os casos de fechamentos devem ser comunicados aos clientes por meio de aviso afixado em local de ampla visibilidade na própria agência ou por meio de comunicados adicionais divulgados por outros meios, a critério da instituição.


Vale ressaltar que os canais digitais dos bancos (Internet banking, mobile banking e caixas eletrônicos) são uma alternativa prática e extremamente segura aos clientes e oferecem praticamente a totalidade das transações financeiras do sistema bancário. Havendo o fechamento da unidade, o cliente deve entrar em contato com a Central de Atendimento da instituição financeira para obter informações sobre a sua conta.


Oitenta e três por cento das transações bancárias dos brasileiros são feitas pelos canais digitais, ou seja, pelo celular e internet banking.


Somente no mobile banking, nos últimos cinco anos, o crescimento foi de 169%, atingindo 187,5 bilhões de transações. De um total de 240,8 bilhões de transações feitas pelos brasileiros em 2025, por meio dos diferentes canais de atendimento das instituições financeiras, 78% foram realizadas pelo celular, alta de 11% em relação ao ano anterior.

Os números são da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (ano-base 2025), realizada pela Deloitte. A edição reforça a consolidação dos canais digitais como principal ponto de relacionamento financeiro.


A preferência dos usuários impulsiona o crescimento de heavy users (clientes que realizam mais de 80% de suas transações em um canal), que já representam 76% da base de usuários digitais. Ao considerar a média mensal de logins, o relacionamento bancário entre esses usuários é diário no caso de pessoas físicas e ocorre, em média, quase duas vezes ao dia entre empresas.


O Pix continua crescendo nas transações com movimentação financeira, com aumento de 19% no mobile banking e 53% no internet banking. O pagamento via Pix também lidera o crescimento das transações no POS (maquininhas do comércio).


Agências

 

Os bancos estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento vem ganhando espaço em detrimentos dos canais físicos e presenciais, refletindo, em especial, o novo perfil do consumidor, que busca, e encontra, conveniência, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos dos bancos.


Algumas agências se transformaram em unidades de negócios e visam atender o novo perfil do consumidor, que busca, e encontra, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos dos bancos. Além disso, cada vez mais os clientes vêm utilizando as agências bancárias como ponto de atendimento e fechamento de negócios, migrando as operações transacionais para os meios digitais, para sua conveniência.


Atualmente, praticamente todas as operações bancárias podem ser feitas de forma eletrônica. Pelos canais digitais dos bancos é possível fazer pagamentos de contas, transferências, DOCs e TEDs, contratações de crédito, investimentos e aplicações, consultas de saldos e extratos, contratar seguros e planos de Previdência, renegociar dívidas, entre outras operações.


Ao longo dos anos, o nível de emprego tem se mantido estável. O avanço dos serviços digitais tem levado as instituições financeiras a contratar um grande volume de profissionais, especialmente em áreas como TI e segurança contra fraudes digitais, por exemplo.


Investimentos

Os dados da pesquisa revelam um crescimento expressivo de 58% no orçamento tecnológico nos últimos cinco anos, com uma previsão de investimento de R$ 50,4 bilhões para o ano de 2026, alta de 8% em relação a 2025.  

Os bancos brasileiros elegeram a cibersegurança como prioridade absoluta, com 100% das instituições atribuindo a ela um nível alto ou médio de relevância. 

Segundo o levantamento, os bancos estão investindo em treinamentos mais especializados e direcionados, ao mesmo tempo em que ampliam a contratação de talentos para sustentar a evolução tecnológica.


226,1 mil é o número de profissionais treinados no setor bancário e a pesquisa mostrou que 42% dos bancos pretendem ampliar o número de profissionais na área de TI, correspondendo a um crescimento médio de 22%.


Esta série de reportagens teve o apoio da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec/PR) e dos sindicatos filiados.

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