Fechamento de agências bancárias esvazia a economia de cidades do Paraná
- Vigília Comunica

- há 2 dias
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O fechamento de agências bancárias reduz a circulação de pessoas e dinheiro, provoca perda de empregos e afeta o comércio de municípios do Paraná. Em cidades menores, os efeitos vão além do acesso aos serviços financeiros e atingem a própria dinâmica econômica e demográfica local.
por José Pires, Joka Madruga, Louize Lazzarim e Fábio Souza

Marumbi é um município do norte central do Paraná. Distante cerca de 40 quilômetros de Apucarana e a quase 400 quilômetros de Curitiba, ele tem pouco mais de 4.700 moradores. Cercado por imensas plantações de cana de açúcar, tem na agricultura o pilar de sua economia.
Já os comércios e algumas pequenas empresas da cidade lutam para manter os empregos que geram. Nos primeiros seis meses de 2026, segundo a Startup Caravela Dados e Estatísticas, a cidade registrou 143 admissões formais e 128 desligamentos, um saldo de 15 novos empregos no semestre.
O município faz parte da base de atuação do Sindicato dos Bancários de Apucarana e Região (Seeb - Apucarana). A entidade representa trabalhadores em 26 cidades. Desde 2015, cerca de 20 agências foram fechadas em 10 municípios de sua base.
E Marumbi já não tem bancos há anos. Para pagar contas e receber benefícios seus moradores dependem de uma cooperativa de crédito, de correspondentes do Bradesco e da lotérica, que tem constantes problemas de conectividade. Para quem precisa de atendimento bancário completo, a alternativa é percorrer cerca de 20 quilômetros até Jandaia do Sul, onde estão concentradas agências da Caixa, Banco do Brasil, Itaú e Bradesco.
O impacto do fechamento das agências em Marumbi e outras cidades da região não se restringe à dificuldade de acesso aos serviços bancários. Ao se deslocarem para Jandaia do Sul para receber benefícios, pagar contas ou resolver questões bancárias, muitos moradores aproveitam a viagem para fazer compras e outros serviços na cidade vizinha. Com isso, parte do dinheiro que antes circulava no comércio de Marumbi deixa de movimentar a economia local. Além disso, o encerramento das agências provocou a perda de empregos e contribuiu para a saída de trabalhadores e suas famílias do município.

Guilherme Fantin, um dos nove vereadores da cidade, afirma que mais de 20 postos de trabalho foram eliminados com o fechamento das agências do Itaú, da Caixa e do Banco Nacional. “Eram pessoas que pagavam impostos e consumiam nos comércios da nossa cidade e que ganhavam um salário bem acima da maioria das pessoas de Marumbi”, afirma.
Segundo ele, a saída dos bancários também teve impacto demográfico. Muitos foram transferidos para outras agências ou precisaram buscar emprego em outros municípios e acabaram deixando Marumbi com suas famílias. “Se pensarmos que cada família tinha quatro ou cinco pessoas, são quase 100 pessoas que foram embora. Você imagina a diferença que 100 pessoas a menos fazem em uma cidade como a nossa, que não chega a 5 mil habitantes”, destaca.

Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de metade dos municípios que integram a base de atuação do Sindicato dos Bancários de Apucarana perdeu população no último ano. Divulgadas em meados de 2025, as estimativas mostram a variação populacional de cada município em relação ao ano anterior, considerando fatores como nascimentos e óbitos.
No Vale do Ivaí, região que tem Apucarana como cidade-polo, quase 400 moradores deixaram os municípios onde viviam. São Pedro do Ivaí foi a cidade que mais perdeu população, com 97 moradores a menos, seguida por São João do Ivaí (-61) e Godoy Moreira (-59). Na contramão, Marumbi registrou um pequeno crescimento, com dois moradores a mais no período.

Com menos bancos, cidade precisa se “redesenhar”
Cornélio Procópio é uma cidade de pouco mais de 45 mil habitantes no norte pioneiro do Paraná. O município hoje conta com três agências bancárias: do Banco do Brasil, do Bradesco e da Caixa Econômica Federal.
Desde 2015, a cidade perdeu outras três agências, que fecharam as portas. Elas ficavam no Centro, região que concentra lojas e outros estabelecimentos comerciais e emprega boa parte da população. Com o fechamento das agências e a migração dos clientes para os serviços digitais dos bancos, o fluxo de pessoas no comércio diminuiu significativamente. Quem revela é o prefeito da cidade, Raphael Sampaio (PP).
O prefeito conta que nos últimos anos o comércio da cidade enfraqueceu, com baixa ocupação de salas comerciais, queda nas vendas e pouco movimento de pedestres. Sampaio ressalta, entretanto, que não é possível atribuir apenas ao fechamento de agências bancárias a queda do comércio. “São diversos fatores, né. O crescimento das vendas online é o principal motivo. Mas a redução de pessoas circulando diariamente pelas ruas do Centro também impactou muito as vendas nas lojas. E parte destas pessoas vinham aqui para o Centro justamente para ir nos bancos. Com o fechamento de metade das agências, muita gente deixou de vir”, diz o prefeito.
A queda no movimento do comércio gerou outro problema para a prefeitura. Comerciantes se organizaram para reivindicar que um calçadão no Centro da cidade volte a receber veículos. Uma obra estrutural que vai redesenhar o Centro de Cornélio Procópio e demandar uma obra enorme.
“Os comerciantes se organizaram para pedir que a Rua Massud Amin deixe de ser um calçadão e possa oferecer estacionamentos. É uma tentativa de aumentar o número de clientes. Uma obra que será um desafio para a prefeitura, pois demanda muitos recursos”, destaca o prefeito Raphael Sampaio.

O comércio é um dos principais motores da economia de Cornélio Procópio e também sente os efeitos da redução da circulação de pessoas e dinheiro no município. Segundo o prefeito da cidade, a maior parte dos empregos do município está concentrada no setor, que já enfrenta dificuldades diante da concorrência das vendas pela internet, dos custos com aluguel e da necessidade de manter funcionários. Nesse cenário, a perda de movimentação provocada pelo fechamento de agências bancárias agrava ainda mais os desafios enfrentados pelos comerciantes.
Apesar das dificuldades, o comércio local continua forte, especialmente na região da avenida, onde se concentram lojas e empresas que geram emprego e renda para a população. A avaliação é de que os comerciantes precisam se adaptar e encontrar novas formas de atrair consumidores e manter a atividade econômica em um cenário de mudanças nos hábitos de consumo e de redução da circulação de pessoas.
O fechamento das agências também representa a perda de renda que antes circulava no município. Um exemplo é o encerramento da agência do Santander, que mantinha cerca de sete funcionários, além de trabalhadores terceirizados responsáveis por serviços como limpeza e segurança. Somados os salários e os recursos movimentados por esses trabalhadores, a estimativa é de que aproximadamente R$ 100 mil deixassem de circular mensalmente na economia local. Em um ano, isso representaria cerca de R$ 1,2 milhão a menos em circulação no município.
Esse impacto não se restringe, portanto, ao setor bancário. A redução do número de funcionários, dos serviços terceirizados e da circulação de clientes afeta diretamente outros setores da economia, especialmente o comércio. Para uma cidade em que as atividades comerciais têm peso significativo na geração de empregos, a saída de uma agência representa também a perda de parte da movimentação econômica que ajudava a sustentar empresas e trabalhadores locais.

Respostas dos bancos e da Febraban:
A Vigília Comunica entrou em contato com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e também com os bancos citados nesta reportagem pedindo um posicionamento sobre o fechamento de agências e o prejuízo gerado às cidades.
Seguem abaixo as respostas:
Febraban:
“O gerenciamento de agências bancárias faz parte da política de negócios de cada banco e não é monitorado pela Febraban. Os casos de fechamentos devem ser comunicados aos clientes por meio de aviso afixado em local de ampla visibilidade na própria agência ou por meio de comunicados adicionais divulgados por outros meios, a critério da instituição.
Vale ressaltar que os canais digitais dos bancos (Internet banking, mobile banking e caixas eletrônicos) são uma alternativa prática e extremamente segura aos clientes e oferecem praticamente a totalidade das transações financeiras do sistema bancário. Havendo o fechamento da unidade, o cliente deve entrar em contato com a Central de Atendimento da instituição financeira para obter informações sobre a sua conta.
Oitenta e três por cento das transações bancárias dos brasileiros são feitas pelos canais digitais, ou seja, pelo celular e internet banking.
Somente no mobile banking, nos últimos cinco anos, o crescimento foi de 169%, atingindo 187,5 bilhões de transações. De um total de 240,8 bilhões de transações feitas pelos brasileiros em 2025, por meio dos diferentes canais de atendimento das instituições financeiras, 78% foram realizadas pelo celular, alta de 11% em relação ao ano anterior.
Os números são da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 (ano-base 2025), realizada pela Deloitte. A edição reforça a consolidação dos canais digitais como principal ponto de relacionamento financeiro.
A preferência dos usuários impulsiona o crescimento de heavy users (clientes que realizam mais de 80% de suas transações em um canal), que já representam 76% da base de usuários digitais. Ao considerar a média mensal de logins, o relacionamento bancário entre esses usuários é diário no caso de pessoas físicas e ocorre, em média, quase duas vezes ao dia entre empresas.
O Pix continua crescendo nas transações com movimentação financeira, com aumento de 19% no mobile banking e 53% no internet banking. O pagamento via Pix também lidera o crescimento das transações no POS (maquininhas do comércio).


Agências
Os bancos estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento vem ganhando espaço em detrimentos dos canais físicos e presenciais, refletindo, em especial, o novo perfil do consumidor, que busca, e encontra, conveniência, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos dos bancos.
Algumas agências se transformaram em unidades de negócios e visam atender o novo perfil do consumidor, que busca, e encontra, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos dos bancos. Além disso, cada vez mais os clientes vêm utilizando as agências bancárias como ponto de atendimento e fechamento de negócios, migrando as operações transacionais para os meios digitais, para sua conveniência.
Atualmente, praticamente todas as operações bancárias podem ser feitas de forma eletrônica. Pelos canais digitais dos bancos é possível fazer pagamentos de contas, transferências, DOCs e TEDs, contratações de crédito, investimentos e aplicações, consultas de saldos e extratos, contratar seguros e planos de Previdência, renegociar dívidas, entre outras operações.
Ao longo dos anos, o nível de emprego tem se mantido estável. O avanço dos serviços digitais tem levado as instituições financeiras a contratar um grande volume de profissionais, especialmente em áreas como TI e segurança contra fraudes digitais, por exemplo.
Investimentos
Os dados da pesquisa revelam um crescimento expressivo de 58% no orçamento tecnológico nos últimos cinco anos, com uma previsão de investimento de R$ 50,4 bilhões para o ano de 2026, alta de 8% em relação a 2025.

Os bancos brasileiros elegeram a cibersegurança como prioridade absoluta, com 100% das instituições atribuindo a ela um nível alto ou médio de relevância.
Segundo o levantamento, os bancos estão investindo em treinamentos mais especializados e direcionados, ao mesmo tempo em que ampliam a contratação de talentos para sustentar a evolução tecnológica.
226,1 mil é o número de profissionais treinados no setor bancário e a pesquisa mostrou que 42% dos bancos pretendem ampliar o número de profissionais na área de TI, correspondendo a um crescimento médio de 22%.
*Os bancos não responderam nossas questões até o fechamento desta reportagem.
**Esta série de reportagens teve o apoio da Federação dos/das Trabalhadores/as em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec - PR) e dos seus sindicatos associados.




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