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ENTREVISTA I “Os serviços pioram e o preço da energia dispara”, afirma líder dos atingidos por barragens

Segunda matéria da série Copel no Escuro, entrevista com Robson Formica, da direção do MAB no Paraná, avaliando o papel de financeirização que a Copel adotou


por Pedro Carrano


“Os acionistas em muitos casos são fundos estrangeiros, sequer sabem onde fica Curitiba, o Paraná e os paranaenses”, afirma Robson Formica
“Os acionistas em muitos casos são fundos estrangeiros, sequer sabem onde fica Curitiba, o Paraná e os paranaenses”, afirma Robson Formica

Liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), tanto nacionalmente como no Paraná, Robson Formica reflete sobre o impacto que a privatização da Copel, que rolou em agosto de 2023, trouxe para a indústria, agricultura e para a classe trabalhadora, em nome de setores do rentismo internacional.

Neste ano de 2026, o tema deve estar presente nas eleições ao governo do estado. “A Copel para os paranaenses deveria contribuir para desenvolvimento sustentável do estado”, reflete, em entrevista exclusiva para a Vigília Comunica.

Na avaliação do dirigente social, hoje a presidência da Copel e o governo Ratinho Jr estão submissos aos acionistas preferenciais da empresa. Sem projeto e sem saber para onde vão.


Confira a entrevista na íntegra.


Vigília Comunica. Quais os impactos sobre o povo trabalhador desde que a Copel se tornou empresa privada e financeirizada?


Robson Formica. O processo de privatização e financeirização é geral, e também no caso particular da Copel, uma mudança substancial na finalidade, na missão da empresa. A Copel deixa ser uma empresa pública, que objetiva prestar um bom serviço de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica ao povo do Paraná, como ferramenta de desenvolvimento econômico e social. Do ponto de vista social, é oferecer eletricidade para melhorar as condições de vida do povo, e proporcionar acesso a facilidades no cotidiano. Do ponto de vista econômico, de fornecer um insumo (energia elétrica) imprescindível ao setores industrial, comercial e rural. Com a privatização e financeirização a Copel passa a ser uma empresa que recebe aportes de investidores que, no curto prazo, querem receber uma remuneração extraordinária pelo investimento feito, na forma de dividendos. Ou seja, uma pessoa compra R$ 20 mil reais em ações da Copel e quer receber uma grande remuneração desses R$ 20 mil em um ano. É o rentismo, a especulação e o oportunismo econômico que dirigem a empresa. Capital que não geral valor novo e que extrai, via tarifa e a piora dos serviços, dinheiro da sociedade para remunerar o acionista. Com isso os serviços pioram, a qualidade vai ao chão e o preço da energia dispara, tanto que vamos sofrer um tarifaço de 20% em menos de um mês. É um escândalo, uma empresa do tamanho, importância da COPEL, ter seu papel estratégico reduzido, anulado, sepultado por “gestores financeiros”. A piora da qualidade dos serviços, os dividendos dos acionais, os reajustes abusivos, tudo isso vai pra tarifa pro povo paranaense pagar.


Por que a pauta de retomada da Copel é importante para as forças populares?


A reestatização da Copel e de outras empresas estratégias (minérios, petróleo, eletricidade) são fundamentais, nos estados e em nível federal. A Copel para os paranaenses deveria contribuir para desenvolvimento sustentável do estado, liderando, conduzindo e dirigindo processo de transição energética e de preservação e recuperação ambiental. Poderia em toda bacia do Iguaçu fomentar o desenvolvimento, ter uma estrutura que impulsionasse programas e projetos em nível local/regional e estratégicos em nível estadual. A Copel está presente em praticamente todos os municípios do estado na distribuição de eletricidade, e suas usinas tem reservatórios em outras dezenas de munícipios do Paraná. Além disso, deveria retomar seu papel de vanguarda no setor de comunicação/internet de alta velocidade, onde foi inovadora e pioneira, desde a privatização da Copel Telecom, comprada por um grupo econômico ligado ao Banco Master e todas as suas falcatruas, pioraram em muitos os serviços de internet. Isso reduz a capacidade produtiva do estado, ainda mais quando isso está associada a quedas de energia, demora no religamento de redes, o Paraná voltou aos anos 90, com insegurança, instabilidade e prejuízos com eletricidade e agora com internet. A Copel, o governo do Paraná e Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) poderiam liderar um processo virtuoso de desenvolvimento social, econômico e ambiental. Mas a cabeça pequena de Ratinho, Slaviero e cia são incapazes de pensar algo além de vender o patrimônio público e se escalarem como gestores de pequenos grupelhos políticos. O Paraná é um estado grande, que pode ser vanguarda nacional, mas os grupos que dirigem o estado são medíocres e preferem ocupar o fim da fila. Repetem os mantras do liberalismo que nenhum país desenvolvido do mundo adota.


Por que se verifica que o impacto da privatização afeta diversos segmentos da sociedade? Moradia, produção rural, etc?


Há setores que afetam de maneira generalizada a economia, a atividade econômica, as condições sociais e ambientais. O setor de energia é um deles, por isso os impactos da privatização da Copel são sentidos de maneira espraiada em todo estado do Paraná e em todos os setores econômicos e sociais. A eletricidade mais cara e precária gera um efeito cascata em toda economia e sociedade. Tarifa mais cara acarreta em maior custo de produção, em aumento de preços de bens e serviços – afetando a inflação para cima. Por isso, a moradia fica mais cara, os alimentos ficam mais caros, os serviços ficam mais caros. Tudo fica mais caro pra remuneram o acionista da Copel na forma de dividendos. A maior parte das grandes usinas da empresa, por exemplo, já foi amortizada/paga, isso daria uma capacidade extraordinária de baratear o preço da luz. Ocorre que o olhar dos dirigentes da Copel e do governo Ratinho, que são serviçais dos acionistas o pensamento é outro. O povo diz: podemos baratear o preço da luz, isso é bom pro pequeno e micro empresário, pra dona de casa, pro agricultor e agricultora familiar, pra indústria, pro comercio, todo mundo ganha. Mas aí vem o Ratinho e o Slaviero como o seguinte pensamento: Mas se baratear, o lucro vai ser menor e o acionista vai ganhar menos, então não podemos reduzi, ao contrário, tem que aumentar o preço da energia pra dar mais lucro pro acionista. Os acionistas em muitos casos são fundos estrangeiros, sequer sabem onde fica Curitiba, o Paraná e os paranaenses. Por isso se acentuam os conflitos, com comunidades, populações atingidas, vilas, bairros, ocupações, com os próprios trabalhadores. A Copel deixou de ser um meio para promover desenvolvimento e se tornou uma ferramenta de exploração do povo para remunerar acionistas via dividendos fartos.


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