REPORTAGEM ESPECIAL I Copel no escuro
- Pedro Carrano
- há 23 horas
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Atualizado: há 5 horas
Série de cinco reportagens da Vigília Comunica ouve especialistas, engenheiros, militantes do Comitê A Copel é Nossa para saber o que aconteceu com a antiga estatal de energia do Paraná, hoje privatizada e com déficit de atendimento
Por Pedro Carrano, com informações de Louize Lazzarim

Primeira matéria: mal estar e descontentamento depois da privatização
Pequenos, grandes e médios agricultores. Párocos, movimentos sociais, do campo e da cidade, engenheiros e lideranças políticas têm protestado contra uma situação flagrante desde 2023: as interrupções no serviço de energia no Paraná, a partir da privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel).
A esses setores mais organizados, somam-se ao mal estar federações patronais e empresariais, do campo e da cidade. A Copel hoje tornou-se uma empresa, acusam os críticos, de costas para sua razão social e voltada diretamente para o lucro dos acionistas preferenciais.
“Depois da privatização, o tempo médio de atendimento das ocorrências aumentou cerca de 34%, e o número de interrupções emergenciais também cresceu. (…) O que significa que, quando o lucro passa a ser o principal indicador de sucesso, existe o risco de investimentos em manutenção, atendimento e estrutura técnica perderem prioridade”, aponta Patricia Salvação, engenheira civil e integrante do coletivo de mulheres do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge).
Salvação enxerga que esta é uma tendência comum e preocupante quando uma empresa pública, com serviço tão relevante, é privatizada. Aqui não se trata de segmentos da sociedade que sejam contra a iniciativa privada. Mas de compreender que há serviços que são fundamentais sob controle do Estado:
“Eu acredito que a privatização da Copel foi um erro. A energia elétrica é um serviço essencial e no caso do nosso Estado, é também um ativo estratégico para o desenvolvimento econômico. Nós somos reconhecidos nacionalmente pela nossa capacidade de geração e pela nossa infraestrutura energética”, aponta.

A privatização
Em 2023, a operação de privatização movimentou cerca de R$ 5,2 bilhões e foi apresentada como um passo para tornar a empresa mais eficiente.
Entretanto, menos de dois anos depois, a Agência Nacional de Energia Elétrica divulgou seu ranking de qualidade do serviço.
Entre 33 grandes distribuidoras do país, a Copel apareceu na 27ª posição, ficando entre as últimas colocadas do Brasil.
Segundo a Aneel, os consumidores paranaenses ficaram, em média, mais de sete horas sem energia elétrica ao longo de 2024.
Hoje, a composição acionária da Copel aponta o governo do Paraná com 15,98% das ações totais da empresa. Ao passo que investidores em custódia na bolsa (free float) alcançam 63,7%, o que inclui investidores internacionais como o fundo Black Rock.
Diversas vozes contrárias
O movimento “A Copel é Nossa”, bem como a Associação Contra os Abusos da Copel (ACOP) no meio popular, buscam reivindicar dados transparentes e providências diante da denúncia de piora no serviço prestado à população paranaense.
Nacionalmente, a deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT) questionou a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) sobre o reajuste tarifário proposto pela Copel e os indicadores recentes de qualidade do serviço no Paraná. A parlamentar defende a revisão do modelo atual e reforça que seguirá acompanhando o tema junto aos órgãos competentes.
O questionamento ocorre depois do anúncio de possível aumento médio de 19,2% nas tarifas de energia — um dos maiores entre as distribuidoras do país —, em meio a dados que apontam crescimento nas interrupções e no tempo de restabelecimento do fornecimento.
Especialistas, dirigentes e militantes em torno da reestatização da Copel elencam uma série de problemas desde quando o governador Ratinho Jr (PSD), munido do discurso de mais eficiência, privatizou, a toque de caixa, a companhia. O discurso era de mais. Mas os serviços apontaram para menos.
Desde então, os problemas são visíveis: a variação das equipes técnicas, dos investimentos em manutenção e do quadro operacional; a quantidade de consumidores que permanecem mais de um, dois, e até sete dias sem energia, entre outros problemas.
Fiep e frações da burguesia reclamam
A instabilidade no fornecimento de energia gera prejuízos diretos para os produtores rurais, comerciantes e indústrias do Paraná. Oscilações de tensão e quedas frequentes têm causado queima de motores, perdas em aviários e deterioração de produtos perecíveis. Informações dão conta que mais de 50 sindicatos rurais já formalizaram denúncia à Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep). A concentração de falhas se dá principalmente na área rural, que responde por 56% das unidades afetadas.
“Na indústria, uma queda de energia de poucos segundos pode parar máquinas, gerar perdas de matéria-prima e comprometer a produção. A queda de um dia que seja em um sistema de refrigeração, por exemplo, pode comprometer todo um lote de matéria-prima”, aponta Patricia Salvação.
Levantamento do Instituto Paraná Pesquisas mostra que 85% das cidades do interior do Paraná estão insatisfeitas com a qualidade do fornecimento de energia elétrica. O estudo aponta que 38,7% dessas cidades enfrentaram mais de 20 quedas de luz no último ano, com interrupção superior a cinco horas em média a cada apagão.
A Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), no mesmo sentido, apontou crítica ao estado das coisas, afirmando que a energia é o terceiro item que pesa nas planilhas de custos das indústrias, atrás dos gastos com matérias-primas e mão de obra.
Críticas à condução da empresa

Um dos principais ativistas em torno da pauta é Leandro Grassmann, diretor do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), que tem integrado audiências públicas e reuniões de sindicatos e movimentos sobre o tema da reestatização.
O primeiro apontamento crítico de Grassmann, engenheiro e ele mesmo ex-copeliano, é a atual situação da empresa em meio a maior demanda por serviços devido à crise climática.
“O nível de terceirização aumentou muito, em localidades em que o técnico trabalhava em um raio de 150 quilômetros – não vai dar conta do dia a dia. Nesse sentido, há famílias há mais de sete dias sem energia”, aponta, ressaltando que interrupções abaixo de três minutos não têm sido contabilizadas, o que na prática torna o quadro de interrupções de luz ainda maior.
Grassman lamenta que a insatisfação das entidades patronais não se materializa em um movimento para mudar a situação do setor.
“Eles batem de frente com a Copel, mas não com o governo, querem apenas melhorias pontuais, na prática é isso que eu vejo acontecer”, afirma.
Na voz dirigente, é como se atual gestão de Daniel Slaviero, irmão do atual prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, estivesse disposta a apenas arriscar em nome do lucro, a não investir em infraestrutura e quadro técnico. Bem ao gosto do capital financeiro. Ou de um cassino. “Esse tipo de gente que está coordenando a administração da Copel hoje tem usado a Copel como palanque político do governador Ratinho Jr”, critica.

Em breve. Segunda matéria da série:
“Os serviços pioram, a qualidade vai ao chão e o preço da energia dispara”, afirma líder dos Atingidos por Barragens (MAB) no Paraná.




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