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Esquerda elenca desafios para o segundo turno. E não são poucos

5 de out.
4 min de leitura

Com Flávio Bolsonaro à frente, esquerda tenta encontrar respostas para o primeiro turno e projetar os desafios do segundo


por Pedro Carrano


No domingo (4), com as urnas apuradas em todo o Brasil, Flávio Bolsonaro (PL) registrou 47,03% dos votos válidos (56.104.503 votos), enquanto o presidente Lula, 45,16% (53.879.538 votos). A vantagem de Flávio para Lula é de 1,87 ponto percentual. É a menor diferença entre o 1º e o 2º colocado desde a primeira eleição direta desde 1989, no que já se aponta como um dos resultados mais conservadores no período após a Constituição de 88.


Foto Lula: Ricardo Stuckert / PR; Foto Flávio Bolsonaro: Pedro Franca/Agência Senado
Foto Lula: Ricardo Stuckert / PR; Foto Flávio Bolsonaro: Pedro Franca/Agência Senado

Pouquíssimos analistas, na esquerda e na Ciência Política, a partir das pesquisas disponíveis, haviam previsto cenário com o candidato do PL à frente. Lula teve neste primeiro turno menos votos do que no primeiro turno de 2022. Flávio Bolsonaro, por sua vez, na reta final contou com uma ascensão silenciosa e também com desidratação das candidaturas de direita em nome do voto útil.


Equivocadamente, alguns analistas do campo progressista apontavam vitória de Lula no primeiro turno. O que aconteceu foi que Flávio contou com um apoio ainda maior que o de seu pai. Em 2022, Jair Bolsonaro havia terminado o primeiro turno com 51.072.345 votos, ou 43,20% dos votos válidos. Lula havia obtido 57.259.504 votos, equivalentes a 48,43%. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula ficou com 53.876.617 votos, ou 45,16%.


Além disso, a extrema direita teve crescimento expressivo nas vagas no Senado, na Câmara Federal e nos governos estaduais, como aponta o repórter da Vigília, José Pires.


Causas centrais


Várias análises surgem na esquerda neste momento, apontando os limites do primeiro turno e os desafios para um difícil segundo turno. Os principais elementos, sem dúvida, são:


1 - O fator internacional. A extrema-direita, ou neofascismo, está em ascenso na Europa, nos EUA e, neste momento, sobretudo na América Latina; a crise do capitalismo nos países centrais aumenta a propaganda por saídas rápidas e imediatas à crise;


2 - A necessidade de mudanças estruturais. Lula fez um governo imcomparável ao período Bolsonaro, porém as reformas estruturais teriam capacidade de envolver mais a população. Analistas consideram um certo esgotamento do impacto dos atuais programas sociais;


3 - Pautas de enfrentamento, redes sociais e diálogo com a juventude. Candidaturas que tiveram ótima expressão, caso de Ana Júlia Ribeiro, Renato Freitas, Jones Manoel, são jovens, trabalham bem nas redes sociais e têm pautas de enfrentamento. Analistas avaliam que os melhores momentos de Lula são justamente quando ele compra pautas nesse sentido, caso das Bets, por exemplo.


4 – O trabalho em redes sociais e o sentimento antissistema que conquista o eleitorado para o Bolsonarismo, em busca de medidas rápidas e que “resolvam” a situação.


Animosidade da população


Há também uma análise que aponta que, ao contrário de 2002, há 24 anos atrás, na primeira vitória de Lula, a atual divulgação das necessárias políticas sociais já não produz o mesmo impacto no eleitorado como no seu início.


Breno Altman, jornalista do Opera Mundi, em entrevista ao Brasil 247, aponta:


“Há vinte anos, quando o PT começa a introduzir uma série de políticas públicas de grande impacto, como o Bolsa Família, aumento do salário mínimo, Luz para Todos, Prouni, o Brasil era muito diferente do que é hoje. As expectativas eram muito diversas, os hábitos de consumo eram diferentes, não existiam as redes sociais e seus impactos sobre os hábitos de consumo, o país vinha de um longo período de fome, de exclusão social brutal. Então, quando as políticas públicas são feitas, nos governos de Lula e Dilma, trazem impacto extraordinário”, analisa.


Para Susana Botar, analista política da TVT, reforça a presença do imperialismo influenciando as eleições na América Latina. Diante disso, há necessidade de tocar nas condições de vida dos trabalhadores, além de apontar o enfrentamento:


“A moderação não funciona mais e nem o discurso social voltado só ao mais pobre. Esse discurso foi efetivo nos primeiros governos Lula e Dilma (...) hoje, o discurso voltado à pobreza e à miséria não interessa mais à classe trabalhadora. A classe trabalhadora prosperou e a classe trabalhadora quer mais. O Bolsa Família foi importante e esse eleitorado foi fiel. Mas esse eleitorado, trabalhador, que não depende de programas sociais se sente muito abandonado e massacrado pelo Estado, nisso o governo Lula falhou (…) O momento pede radicalismo e medidas radicais, governos como o de Lula e Boric perderam pelo excesso de moderação”, analisa.


Um primeiro desafio: conquistar quem se absteve


Um dado relevante é a abstenção no primeiro turno de 21,08%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, o que representa 33.444.876 de eleitores ausentes. O percentual está em trajetória ascendente desde 2006, reforçando a análise de atual desilusão com a política institucional.


Na análise de Valter Pomar, dirigente nacional do PT, é preciso justamente focar o segundo turno em diferentes segmentos dos trabalhadores e naquele segmento que se absteve no primeiro turno:


“É principalmente nesse eleitorado, que não votou em ninguém no primeiro turno, onde estão os votos que nos levarão à vitória. Não se deve gastar tempo buscando “ampliar apoios” nos diferentes segmentos da direita”, escreve.

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