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Há espaço para a direita tradicional nas eleições presidenciais?

Atualizado: 2 de abr.

A resposta de analistas é categórica: não, a polarização é entre Lula e o bolsonarismo


por Pedro Carrano


Em que pese a definição de Caiado pelo PSD, ele é identificado com um conservadorismo que já tem representação, dado os índices de Flavio Bolsonaro. Foto: Vinicius Dotti. Fundação FHC
Em que pese a definição de Caiado pelo PSD, ele é identificado com um conservadorismo que já tem representação, dado os índices de Flavio Bolsonaro. Foto: Vinicius Dotti. Fundação FHC

O PSD de Kassab, depois de longo ensaio midiático, apontou como nome à presidência o governador de Goiás, o direitista Ronaldo Caiado, ligado historicamente ao agronegócio.


Antes disso, o cacique do partido havia articulado nomes com o discurso e aparência de centro político, a partir das conversas que teve com o governador do Paraná, Ratinho Jr., e com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, para citar alguns nomes aventados. Como se sabe, tratam-se de duas candidaturas neoliberais, porém com um discurso de centro direita.


Caiado, no entanto, é identificado com as raízes antipopulares da direita, tanto que logo anunciou que uma de suas pautas é a anistia para o golpismo do dia 8 de janeiro de 2023. Tudo isso apenas reforça a pergunta: qual é o espaço da direita nas eleições fora da extrema-direita e do neofascismo?


É fato, para analistas e dirigentes de organizações de esquerda, que há uma polarização hoje na sociedade brasileira, entre o progressismo de Lula, que aglutina as forças de esquerda e sociais, contra o neofascismo da família Bolsonaro.


Qualquer exercício de “terceira via”, “romper a polarização” e o “fla flu”, não encontra eco na realidade. Pesquisas recentes apontam uma disputa apertadíssima entre Lula e Flávio Bolsonaro, tanto no primeiro como no segundo turno.


Valter Pomar, historiador, professor da UFABC e dirigente nacional do PT, critica os setores da esquerda que não perceberam a permanência do bolsonarismo e do neofascismo na sociedade brasileira, mesmo após a derrota eleitoral sofrida em 2022 para Lula.


“Infelizmente uma parte da esquerda preferiu se enganar e não viu os sinais óbvios. Entre esses sinais, cito o seguinte fato: todas as pesquisas feitas desde 2023, 2024, 2025 e até ontem mostram uma continuidade da polarização verificada na eleição de 2022. Por qual motivo essa polarização desapareceria? Por acaso a polarização sumiu quando prenderam Lula?”, afirma.


Já Valerio Arcary, historiador e dirigente do Psol, cita cinco fatores para explicar o terreno fértil para o embate da extrema-direita e a dificuldade das eleições de 2026 para o campo de esquerda: “a) porque as mudanças na vida das massas populares foram somente quantitativas, não qualitativas, e agora há o perigo real de uma escalada da inflação em função da guerra no Golfo; b) porque a economia não é tudo, e a disputa é, também, sobre valores e visão de mundo que definem o sentido da vida; c) porque Trump está no poder, engajado em ofensiva sobre a América Latina, e vai interferir; d) porque as campanhas em defesa da “bukelização” têm audiência como confirmamos após as operações nas comunidades no Rio de Janeiro; e) porque devemos aprender com as derrotas na Bolívia, Equador, Argentina e Chile”, elenca.


Pomar reforça um fator central para as eleições deste ano no Brasil e que deve ser um dos motores da extrema-direita: a ofensiva do governo Trump e do imperialismo dos EUA hoje no mundo. “Enquanto Trump estiver no comando nos EUA, a extrema direita terá mais chances aqui, seja por razões externas, seja principalmente por razões internas: a extrema direita dispõe de capilaridade e discurso adequados para nos enfrentar”, afirma.


"Infelizmente uma parte da esquerda preferiu se enganar e não viu os sinais óbvios", afirma Valter Pomar. Foto: Divulgação.
"Infelizmente uma parte da esquerda preferiu se enganar e não viu os sinais óbvios", afirma Valter Pomar. Foto: Divulgação.

Polarização que se mantém


Armando Boito, professor de Ciência Política na Unicamp, autor do livro “Reforma e crise política no Brasil – os conflitos de classe nos governos do PT (Editoras Unicamp e Unesp)”, reforça que uma terceira candidatura alternativa às eleições presidenciais é simplesmente inviável.


Boito concorda com o apontamento presente entre as organizações políticas marxistas: o campo neofascista apresenta base social e capacidade de polarizar a sociedade brasileira. Inclusive, o professor não observa, no atual momento, rupturas no campo bolsonarista.


O campo do neofascismo, na avaliação de Boito, é economicamente muito heterogêneo, e estão incluídos neles da Faria Lima (neoliberalismo ortodoxo), setores do agronegócio, aos trabalhadores da periferia com referência no neopentecostalismo. Em particular, Boito vê que o campo neopentecostal mantem coesão e apoio à extrema direita.


Mais do que isso, o professor observa que a fração com maior influência nesse campo será o setor financeiro vinculado ao capital internacional, o que se convencionou usar a metonímia de “Faria Lima”.


No contexto da disputa pela direção do campo conservador no Brasil, Valerio Arcary analisa que a representação de frações da direita que não são neofascistas foi simplesmente derrotada.


“Kassab tentou uma articulação liderada por frações burguesas reacionárias, mas não neofascistas, que tentariam arrastar o bolsonarismo sob a direção de Tarcísio e foi derrotado. Jair Bolsonaro não cedeu, e lançou Flávio. Em poucos meses consolidou a posição de liderança na oposição. A fração burguesa que ensaiou mais uma vez a terceira via não tem implantação para liderar a oposição ao bloco lulista desde o primeiro turno”, reflete.

Arcary aponta o primeiro turno como um “teste de forças” e o segundo turno com unificação total tanto no campo da direita como o campo progressista – situação que é consenso entre os analistas.


O professor observa que a fração com maior influência nesse campo será o setor financeiro vinculado ao capital internacional. Foto: ENFF
O professor observa que a fração com maior influência nesse campo será o setor financeiro vinculado ao capital internacional. Foto: ENFF

Programa econômico do campo conservador


Ainda que o defenda de forma encoberta, a extrema-direita tem como característica no Brasil – na América Latina e em vários países do mundo -, a aplicação de um programa neoliberal, de privatizações e retirada de direitos trabalhistas. Nesse sentido, extrema-direita e direita tradicional não teriam diferença estruturais no que se refere em particular ao programa econômico:


“O programa macroeconômico da extrema-direita é neoliberal, tal qual é neoliberal o programa da direita tradicional. Aliás, num certo sentido o programa da extrema-direita é mais ‘consequente’, pois advoga explicitamente a subordinação do Brasil aos Estados Unidos, que são exatamente a espinha dorsal do neoliberalismo”, define Pomar.

Frente ampla democrática sofre baixas


É preciso recordar que, perto das eleições de 2022, o neofascismo do governo Bolsonaro vinha de um alto índice de desemprego, na casa de 13 milhões de pessoas, cinco milhões delas desencorajadas em sair às ruas em busca de trabalho. Cerca de 700 mil pessoas mortas a partir de uma política negligente na pandemia de Covid-19. E, de quebra, o Executivo apresentava rusgas com governos estaduais, Poder Judiciário, Congresso e outros setores por conta da política da pandemia. Todo esse desgaste permitiu uma frente ampla democrática para derrotar Bolsonaro. A pergunta, nesse sentido, é sobre a chance e as diferenças na reedição da Frente Ampla quatro anos depois.


Boito afirma que tem notado algumas diferenças do atual momento em comparação com a a composição da Frente Ampla que permitiu a vitória de Lula em 2022. O cientista político não vê forças novas que tenham ingressado na Frente. No entanto, enxerga forças que a estão abandonando. E cita dois exemplos: a Globo e a Fiesp. Esta última, que apoiara Lula na gestão Josué Gomes da Silva, mas que, agora, com a volta do bolsonarista Paulo Skaf, pode abandonar a frente. Será difícil, de acordo com o raciocínio de Boito, esperar esses setores novamente com a Frente Ampla democrática.


Qual o programa de esquerda para uma frente eleitoral?


Boito defende que a evidente melhoria social e algumas medidas limitadas do terceiro governo de Lula, no entanto, não conseguiram romper com a estrutura do mundo do trabalho precarizado desde a reforma trabalhista e a introdução das plataformas digitais no mundo do trabalho.


Como fatores positivos que devem ser explorados pelas forças de esquerda, Valerio Arcary cita a aposta nas medidas de enfrentamento e benefício aos trabalhadores, que o governo ensaiou, e com bons resultados, no pior momento de sua crise, em 2025:


“O giro à esquerda do governo após a derrota da votação do aumento do IOF, mesmo se limitado a respostas atrasadas diante da PEC da Blindagem e da aprovação da Anistia na Câmara de Deputados, favoreceu a maior mobilização de massas desde 2022 no dia 21 de setembro, incidindo na relação política de forças e mostrando o caminho para vencer (nós contra eles, fim da jornada 6x1, passe livre, defesa da Amazônia e povos originários, descarbonização, combate ao feminicídio, defesa dos LGBT's, Pé de meia, Cotas nas universidades, Bolsa família, Minha casa, minha vida”, aponta.


Arcary cita a aposta nas medidas de enfrentamento e benefício aos trabalhadores. Foto: IHU
Arcary cita a aposta nas medidas de enfrentamento e benefício aos trabalhadores. Foto: IHU

Sem perder a autonomia


Soniamara Maranho, dirigente nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), afirma que é momento para “uma estratégia nítida, junto ao governo Lula, construindo um programa e um projeto popular para o Brasil. Mesmo que tenha que fazer uma conciliação com o centro, porém sem perder de vista a estratégia da soberania e da democracia de governar com a participação popular”, defende.


Ela complementa: “Do outro lado, está o fascismo, articulado com a guerra, que é a grande oposição ao Lula”. Para a militante social, trata-se de uma conjuntura que exige alianças, mas sem perder a autonomia do programa de interesse das forças populares.

Pomar, por sua vez, indica os limites de uma frente ampla que não tenha como objetivo dialogar com a “imensa maioria dos trabalhadores”, com um programa nitidamente antineoliberal e de combate:


“A chamada Frente Ampla já mostrou, em 2022, que tem mais cabeças do que pés. A maior parte do eleitorado de direita votou em Jair e agora deve votar em Flávio. Por isso é um erro achar que nosso desafio seria reeditar aquela frente (que quase perdeu em 2022). Nosso objetivo deve ser conquistar para Lula o voto da imensa maioria dos trabalhadores, dos pobres, das mulheres, das negras e negros, dos moradores de periferia. E para atingir esse objetivo precisamos de uma campanha de esquerda, de um programa de esquerda, de candidaturas de esquerda ao Senado, Câmara, Assembleias e Governos”, afirma Pomar.


Soniamara Maranho, dirigente nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), afirma que é momento para “uma estratégia nítida, junto ao governo Lula, construindo um programa. Foto: Divulgação
Soniamara Maranho, dirigente nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), afirma que é momento para “uma estratégia nítida, junto ao governo Lula, construindo um programa. Foto: Divulgação

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