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O almoço grátis da alma

Por Lea Oksenberg


A vida de quem trabalha é uma revisão constante de textos áridos. O dia começa em tom menor, com o despertador gritando antes do sol, seguido pelo "clássico" das ruas: duas horas de ida e duas de volta no sacolejo da condução. São quatro horas de asfalto, tempo para resolver os problemas do Brasil e conferir se o feijão dá para a semana. É a vida no "modo difícil", sem filtro.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Mas aí é dia de jogo do Flamengo em Quito.

Ver os jogadores bufando na TV, disputando o oxigênio como quem disputa o último lugar no ônibus, faz a gente se sentir em casa. Afinal, a altitude do Equador não é nada perto da ladeira que a gente sobe todo dia carregando sacola de mercado. Mas a mágica é esta: quando a bola entra — seja num gol de placa ou num esbarrão de canela — o cansaço do dia vira fumaça.


A vitória é o único bônus que o patrão não consegue taxar. É o nosso aumento real, sem desconto no contracheque. Esse "vale-felicidade" faz a gente esquecer os boletos, ignorar a lombar e dormir com a marra de quem ganhou o mundo. A janta ganha outro sabor e o sono fica leve, mesmo sabendo que o despertador das cinco vai tocar igual.


Ontem, o ar faltou lá nas alturas para sobrar aqui no nosso peito. Porque ganhar, para quem vive no corre, é a única coisa que faz o ônibus de volta parecer um tapete voador.


É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração...

Samba da Bênção – Vinícius de Moraes

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