A cor do descanso
- Vigília Comunica

- há 2 dias
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Por Lea Oksenberg
O sábado tem essa mania de mudar a cor do dia. Ele chega devagar, sem o susto de quem precisa dar conta do mundo ou ter qualquer obrigação. Para mim, é o dia do relógio sem ponteiros, quando o tempo não me cobra nada e eu, finalmente, não cobro nada de mim.
Depois de uma semana lidando com as durezas que a vida insiste em mandar — aqueles problemas e trabalhos que exigem um esforço que nem sempre temos, mas entregamos — o sábado aparece como um respiro, um oxigênio. Não é sobre "produção" ou sobre o lugar que ocupo no mundo. É sobre o inventário do tempo.

Acordar e ver que o dia não tem nada para ser feito é um luxo. O café não tem pressa, os pensamentos não precisam de ordem e eu não preciso ser colaboradora de nada, a não ser do meu próprio bem-estar. Posso olhar para o cinza de Curitiba e decidir que, hoje, ele tem a cor do meu descanso.
É um inventário de pequenas coisas: o silêncio da casa, o conforto de um texto que nasce sem obrigação, o prazer de não ter que consertar o que está fora do lugar. No sábado, a gente se permite ser apenas o que sobra quando as exigências silenciam. E o que sobra, no fim das contas, é uma vontade de nada fazer, de só existir, anônima.
É nesse anonimato que a gente se acha. Sem crachá, sem prazos, sem as urgências alheias para consertar. O descanso não é falta de movimento; é o movimento de volta para casa — para dentro de si mesma. E quando me encontro nesse silêncio, percebo que não preciso de muito para seguir. Apenas da liberdade de não ter que chegar a lugar nenhum.
Deixe-me ir, preciso me encontrar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar…
Preciso me encontrar
Cartola




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