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O meu melhor improviso

Por Lea Oksenberg


Boa parte da vida passei tentando disfarçar que poderia vir a ser uma pessoa séria. Usei o figurino, fiz a cara de paisagem e ensaiei o tom, mas a verdade é que o disfarce sempre foi curto demais para o meu tamanho. Eu não nasci para a linha reta; eu nasci para a curva, para a piada na hora errada (ou na hora exata, dependendo do ponto de vista) e para o improviso que salva o dia.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

Viver em Curitiba com esse espírito é quase um esporte de resistência. Enquanto o mundo lá fora espera que a gente ande de engravatado ou de salto alto e fale baixo, eu estou aqui, por dentro, num samba constante ou numa ‘sofrência’ só. A maturidade, para mim, não veio com juízo — veio com a liberdade de não precisar mais fingir.


Se o dia amanhece cinza, dou uma gargalhada para ver se o sol se toca e aparece. Às vezes, faço uma cara de cachorro molhado. Se a vida apresenta um problema desses que parecem insolúveis, eu dou uma risada gostosa porque sei que, no fim das contas, a gente sempre dá um jeito de transformar o drama em crônica de botequim.


Não sou afeita a cerimônias. Sou das distâncias que se encurtam com um telefonema e de uma vontade danada de ver o que vem por aí — se é que vem. O que me move não é a meta batida, é o trajeto. De preferência com um "sabe-se lá o quê" na mão e sem ninguém buzinando sobre como devo me portar.


A vida é curta demais para a gente não ser, pelo menos uma vez por dia, a nossa própria piada favorita.


É melhor ser alegre que ser triste

Alegria é a melhor coisa que existe

É assim como a luz no coração...

Samba da Bênção — Baden Powell e Vinícius de Moraes

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