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OPINIÃO I Eduardo Mara: "A militância é a chave da vitória nas eleições ontem e hoje"

7 de out.
6 min de leitura

Professor e cientista social em Pernambuco chama a atenção para a necessidade de foco na campanha neste momento, prioridade em mobilizações de massa, sem que a esquerda caia em falsas polêmicas


O neofascismo é um fenômeno político-ideológico de massas e é impossível enfrentá-lo sem radicalizar um programa à esquerda. Foto: Arquivo Pessoal.
O neofascismo é um fenômeno político-ideológico de massas e é impossível enfrentá-lo sem radicalizar um programa à esquerda. Foto: Arquivo Pessoal.

Por que fomos derrotados no primeiro turno?


1. O resultado do primeiro turno não pode ser explicado pelo que aconteceu durante as eleições. Há dois fatores centrais que explicam o resultado do primeiro turno. De um lado, o governo Lula 3 seguiu a cartilha tradicional dos governos petistas desde 2003: governar com (e dessa vez forçosamente para) o Congresso, respeitar religiosamente a austeridade fiscal, tentar avançar em direitos pelas linhas de menor resistência colocadas pela burguesia dependente.


O erro crucial, contudo, foi a recusa de construir força social junto à classe trabalhadora. É claro que um governo que faça isso (a experiência bolivariana o confirma) viverá em constante instabilidade, já que, diferente de boa parte da esquerda, o imperialismo sabe bem os perigos da mobilização popular na América Latina. A estratégia do lulismo pôde ser vitoriosa até pouco tempo, mas teve de contar com forças auxiliares advindas do andar de cima da sociedade de classes, que cobram um preço caríssimo por seu apoio. A questão é que o inimigo enfrentado pelo Lulismo nessas eleições não joga com as mesmas regras da direita tradicional.


2. Esse é o reverso da medalha: diferente da esquerda focada nos ritmos e legalidades da disputa eleitoral, o neofascismo se pauta em uma estratégia de longo prazo. Tal movimento reacionário recalibrou sua estratégia desde a derrota do golpe de 8 de janeiro de 2022. A estratégia, bem sucedida até o presente momento, é inspirada (publicamente, inclusive) na trajetória do governo de Nayib Bukele, em El Salvador, e passa pelas seguintes etapas:


a) Manter coesa uma base social, formada principalmente pela alta classe média, em torno do antipetismo e do programa reacionário. Vale lembrar que tal movimento permaneceu mobilizado, com altos e baixos, durante os últimos quatro anos. O neofascismo seguiu sendo a maior corrente de opinião na política brasileira, mesmo após as sucessivas derrotas nos dois primeiros anos do governo de Lula.


b) Desestabilizar a confiança no sistema Judiciário, associando sua defesa à defesa da candidatura Lula.


c) Conquistar maioria no Congresso Nacional, particularmente no Senado.


d) Caso ganhem as eleições, o passo seguinte será o impeachment e a imposição de hegemonia no STF, dando ao fascismo o controle não apenas do governo, mas do Estado. Caso percam, o passo seguinte será a tentativa de inviabilizar a posse ou, posteriormente o mandato de Lula.


3. Como a vitória nas eleições de 2022 apoiou-se na frente amplíssima, sem hegemonia dos trabalhadores, o principal sustentáculo do regime republicano passou a repousar sobre o STF. A própria esquerda assumiu a defesa de ministros da Suprema Corte que, não obstante tenham colocado freios no movimento fascista, tem pouco ou nenhum compromisso com os trabalhadores.


Desde 2022 o neofascismo percebeu que o derretimento da confiança da população no Supremo Tribunal Federal deveria ocupar o centro do debate eleitoral. Uma das principais redes de propaganda ideológica do neofascismo agitava o escândalo do caso Master desde fevereiro de 2026, mesmo sabendo do envolvimento da extrema direita com o banqueiro. O objetivo não era apenas atingir Alexandre de Moraes, mas a legitimidade do STF, o que foi conquistado com a desastrosa reunião de ministros para debater o caso no meio das eleições. 4. O sucesso dessa estratégia foi triplo: em primeiro lugar retirou da apatia política votos de indecisos que, mesmo não se alinhando ao programa neofascista, aderiram à onda supostamente “antissistema” representada pelo filho de Bolsonaro.


Em segundo lugar, fez com que o contingente de abstenções pesasse muito mais sobre a candidatura de Lula, levando muita gente, antes disposta a votar contra o bolsonarismo, a ficar em casa ou votar nulo. Em último, mas não menos importante: fidelizou ainda mais o voto bolsonarista, elegendo uma confortável maioria no Senado para viabilizar a estratégia acima descrita.


5. No que tange à campanha, Lula teve diversos acertos: afirmou pautas que atraíram gente para o campo democrático, particularmente o fim da jornada 6x1, o fim das Bets e o enfrentamento à estratégia estadunidense. A militância de esquerda compareceu em peso à campanha e houve mobilizações massivas nesse processo. O debate sobre a estratégia de marketing ou a disputa das redes é absolutamente infrutífero. Não devemos procurar as causas da derrota temporária na militância ou naquilo que (acreditamos) nossos inimigos fazem melhor do que nós. A militância é a chave da vitória nas eleições ontem e hoje, não seu problema.


6. O mesmo, contudo, não parece verdadeiro para a direção dada às campanhas desde 2018. Há no PT um desvínculo quase absoluto entre o que é a disputa nacional e a eleição proporcional e isso vêm cobrando um preço caríssimo à esquerda. Explico com uma comparação elucidativa: é possível afirmar que, enquanto o PT tenta vincular o voto em Lula a candidaturas de centro e de direita, o neofascismo vincula o voto em Bolsonaro às candidaturas proporcionais que defendam seu programa. O neofascismo faz isso porque tem força, e reafirma sua força porque faz isso. A dificuldade de vincular a estratégia nacional, com coerência, às candidaturas proporcionais nos diversos estados parece ter dificultado muito a capacidade de a esquerda ampliar o voto em Lula nessas eleições.


Manter os comitês dessas campanhas no segundo turno é crucial para a vitória.


7. Há, também na direção da campanha petista, uma enorme subestimação da luta ideológica que criou raízes na militância nas últimas décadas. O neofascismo é um fenômeno político-ideológico de massas e é impossível enfrentá-lo sem radicalizar um programa à esquerda. Todas as vezes em que Lula se posicionou fortemente nesse sentido houve crescimento nas pesquisas. Os momentos da campanha focados em disputar a moral conservadora ou religiosa (vide o debate acerca da padroeira) não ajudaram em nada a campanha petista.


Quais foram as vitórias no primeiro turno?


8. As vitórias que devemos reivindicar no primeiro turno, e que nos ajudam a pensar os próximos passos, se relacionam ao último ponto acima descrito. Entre as candidaturas mais votadas na esquerda em diversos estados se encontram companheiros e companheiras que investiram centralmente e se destacaram na luta ideológica contra o fascismo no último período. Dentre eles, podemos citar os mandatos reeleitos de Sâmia Bonfim (SP), Glauber Braga (RJ) e Natália Bonavides (RN). A simbologia do MST, traduzida na vitória de suas candidaturas, é também um ponto importante nesse processo: quem vota no MST situa-se convictamente à esquerda. Candidaturas como Renato Freitas (PR), Jones Manuel (PE) e Elias Jabour (RJ) também despontaram com grande quantidade de votos. O que unifica essas iniciativas é a combinação entre a propaganda ideológica e posições firmes no enfrentamento à extrema direita.


O que fazer agora?


9. Há uma proliferação de iniciativas, algumas mais dispersas que outras, visando dar corpo à campanha no segundo turno. Isso é, por si só, uma ótima notícia. Quem quer derrotar o fascismo deve incentivar ao máximo que as pessoas se organizem para fazer campanha e, quiçá, permaneçam organizadas no período pós-eleições. O que deve ser evitado é perder tempo com debates de balanço do primeiro turno. Como dissemos, os determinantes de nossas dificuldades não são recentes e não poderão ser revertidos por inteiro em duas semanas.


Temos que melhorar a estratégia para as redes sociais? Certamente que sim, mas deixemos isso para a militância que tem formação e experiência nisso e que deve atuar junto à direção nacional da campanha, já há, inclusive, iniciativas nesse sentido. Precisamos melhorar nossa comunicação com o povo? Sempre precisamos, mas não é ensaiando técnicas de comunicação e debate que iremos reverter esse quadro.

Deixemos o eterno debate sobre trabalho de base para depois do dia 25 de outubro: lá ele será mais necessário do que nunca. Devemos tentar mobilizar o enorme contingente de abstenções para votar? É ponto central já repisado por todo analista político. Mas não vamos conseguir fazer com que essas pessoas saiam de casa só com o porta em porta (isso, aliás, foi feito no primeiro turno).


10. O que podemos, de fato, fazer nessas duas semanas para reverter o quadro do primeiro turno? Em uma única expressão: campanha massiva nas ruas. No pouco tempo que temos, demonstrações de força e exemplo arrastarão mais gente do que as técnicas mais avançadas de oratória! O primeiro exemplo foi dado pelos estudantes da Universidade Federal Fluminense já na segunda-feira e vêm sendo multiplicado. São atos e manifestações de rua, mobilizados por região, por segmentos, por categorias, que poderão reverter o quadro. São, ademais, ações que podem envolver e estimular toda a militância ampliando influência muito além dela. Como virar votos de estudantes? Mobilizando atos de estudantes pró-Lula em todo o Brasil. Como virar votos de aposentados? Multiplicando reuniões e conversas com aposentadas e aposentados em todo o país. Como ganhar votos onde a abstenção foi grande? Mobilizando comitês nesses bairros, criando atos, passeatas, carreatas e avolumando a visibilidade da campanha de Lula.


A tal da “onda vermelha” nas eleições nunca nasceu de acertos de marketing ou do discurso, sempre nasceu da mobilização da militância nas ruas. Façamos o que de melhor defendemos e sabemos fazer: vamos mobilizar gente para a luta. Não vejo outra forma de ganharmos!



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