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OPINIÃO I O desmonte passo a passo das estruturas da Revolução Bolivariana

“Os recursos econômicos resultantes da venda de petróleo estão sendo depositados em um fundo administrado pelo governo dos EUA"


por Jose Antonio Egido*

O que a presidenta encarregada Delcy Rodríguez apresenta como um renascimento de Venezuela é, na realidade, a substituição, sob controle do regime criminoso trumpista, das estruturas criadas pela Revolução Bolivariana por outras estruturas dóceis com o novo status colonial do que foi uma República independente. E já não é mais.


O sinalizam as vozes mais autorizadas da intelectualidade patriótica, o movimento chavista, a esquerda, os setores populares e inclusive a burguesia nacional que se nega a ser a vulgar “burguesia compradora” colada aos interesses estadunidenses desde a instalação por uma frota de guerra estadunidense fundada em La Guaira quando da ditadura gomezista em 1908.


Temos vários exemplos dessas denúncias: O eminente professor universitário, Vladimir Lazo, denuncia, em junho, que o governo de Trump "ocupou todo nosso sistema institucional e econômico e está controlando todos os processos institucionais começando por nossas finanças, todos os processos administrativos, todo o sistema jurídico de Venezuela, e está administrando a Venezuela como se fosse um território de sua propiedade”.


O célebre escritor Luis Britto García denuncia, em 18 de julho, que “constitucionalmente estamos sob uma ditadura”. O antigo vice-presidente da República, Elías Jaua, denuncia em 20 de julho, que os imperialistas dos EUA impuseram uma administração colonial na Venezuela.


Um grupo de antigos líderes chavistas, como Héctor Navarro e Antonia Muñoz, sinalizam que o dia 3 de janeiro produziu “um golpe de Estado, através de uma intervenção militar executada por Estados Unidos”.


O médico referência de medicina social, Oscar Feo Istúriz, declara que passamos a ter “um governo tutelado e administrado sem opor resistência”. Por sua vez, o antigo dirigente de Acción Democrática, Claudio Fermín, acusa o regime de Trump de impor um reino de barbárie contra Venezuela no dia 8 de agosto.


Quais estruturas legais, ideológicas e reais da Revolução Bolivariana estão sendo paralisadas ou anuladas?


O Supremo Tribunal de Justiça. Em abril de 2026, sob pressão do "presidente em exercício", a cúpula do judiciário e do governo da Revolução Bolivariana deposta enviou oito magistrados de linha patriótica e chavista para "aposentadoria antecipada forçada": o General Henry José Timaure, que cumpriu seu dever de processar fascistas por seus crimes nos protestos "guarimba" de 2017; Malaquías Gil, presidente da Câmara Político-Administrativa, que, em 2024, destituiu a líder fascista María Corina Machado; e o importante magistrado Luis Damiani, que trabalhou com camponeses e latifundiários, tentou desenvolver o programa "Estado, Sociedade Comunal e Direito" para formar juristas a partir de uma perspectiva marxista e defendeu os recursos venezuelanos por meio do direito. Ele era membro da Câmara Constitucional, com quem trabalhei na Vice-Reitoria da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV). Funcionários leais de alto escalão também foram demitidos, incluindo um membro da minha família.


As milícias bolivarianas. O fundador do PSUV e ex-deputado Mario Silva denunciou em 21 de julho que as milícias foram “desativadas”.


A própria Constituição. “As reformas expressas das leis de hidrocarbonetos e mineração… formalizaram a entrega da soberania sobre os recursos naturais estratégicos da nação”, em flagrante violação da Constituição. Luis Britto denunciou que a Assembleia Nacional aprovou leis de privatização “proibidas pela Constituição”. O especialista em petróleo, Carlos Mendoza Potellá, acredita que a nova Lei de Hidrocarbonetos é “inconstitucional”.


Leis penais e o sistema jurídico. O Comando Sul assassinou o líder criminoso Niño Guerrero, “o que confirma que Washington está exercendo força letal unilateralmente em solo venezuelano”.


A PDVSA como instituição estatal central para a extração e comercialização de petróleo e gás. Em 5 de agosto, o ministro do petróleo de Chávez, Rafael Ramírez, afirmou que nada se sabia sobre a implementação da Lei de Hidrocarbonetos, aprovada sob pressão de Trump. A participação da PDVSA nos novos contratos era desconhecida. Ele disse: "Estamos testemunhando um processo absolutamente ilegal e obscuro se desenrolando às escondidas de todo o país, conduzido em segredo por um governo sob tutela dos EUA."


As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB): Segundo o New York Times, o presidente interino “coordena” as nomeações nas Forças Armadas com Marco Rubio.


O Banco Central da Venezuela (BCV) como depositário dos recursos financeiros do país: Esta instituição financeira pública fundamental não recebe mais os recursos da venda do petróleo venezuelano. “O Tesouro dos Estados Unidos recebe diretamente a receita das exportações de petróleo venezuelano. Esses recursos são distribuídos ao país gradualmente por meio de bancos privados, permitindo que Washington decida como o dinheiro será gasto e quem está autorizado a fazê-lo". Outra plataforma chavista denuncia que “os recursos econômicos resultantes da venda de petróleo e outros recursos estão sendo depositados em um fundo administrado pelo governo dos Estados Unidos, o que agrava a já muito difícil situação econômica e social das famílias venezuelanas.”


O Ministério das Relações Exteriores como gestor das relações internacionais soberanas da República. O ministro das Relações Exteriores de Maduro, Yván Gil, permaneceu no cargo por alguns meses antes de ser destituído, apesar de sua lealdade a uma política externa radicalmente diferente daquela implementada antes da prisão do presidente Maduro. "Ele teve que apagar uma publicação que criticava o ataque ao Irã por ordem da Casa Branca."


Jornalistas e personalidades da mídia leais a Chávez e Maduro. Os apresentadores Barry Cartaya e Boris Castellano, do canal estatal VTV, foram demitidos. O popular analista Mario Silva foi afastado de seu programa de televisão. O Venezuela News foi fechado e toda a sua equipe demitida, incluindo a prestigiada jornalista Karen Méndez e o influenciador Pedro Carvajalino. Os jornalistas Julio Rioboo e Mariana Genovés, que trabalharam com o ex-ministro da Comunicação Freddy Ñañez, também foram demitidos.


Figuras políticas que demonstraram lealdade à Revolução. “Rubio interveio em decisões de pessoal e incentivou Rodríguez a expurgar a família e os sócios de Maduro, ordens que ela cumpriu.” Laura Guerra foi destituída da presidência do Banco Central da Venezuela (BCV), o ministro da Suprema Corte Edgar Gavidia, parente direto da esposa de Maduro, e o aliado de Maduro Alex Saab, que foi entregue à CIA, foram demitidos. O procurador-geral Tareq William Saab, o ministro das Relações Exteriores Yván Gil e a ministra da Tecnologia, Gabriela Jiménez, foram exonerados de seus cargos chave.


A ideologia do chavismo. Mario Silva denuncia um “apagamento sistemático do Comandante Chávez”.


A República nascida em 1830: antigos líderes chavistas afirmam que a Venezuela está em transição “do Estado republicano independente que nasceu em 1811 e se consolidou em 1830 para um protetorado colonial do século 21… A república independente de 1830 está em processo de dissolução definitiva”.


As próximas instituições a serem colocadas sob o controle do imperialismo estadunidense são o Conselho Nacional Eleitoral e, de forma mais radical do que em abril, a Suprema Corte de Justiça.


*Sociólogo, analista de Telesur e ex-asessor do governo Chávez na Venezuela.

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