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OPINIÃO I Quem pode lutar pelo meio ambiente?

"O que me parece necessário discutir é a forma como determinadas vidas mobilizam nossa sensibilidade coletiva com mais facilidade do que outras"


por Janayna Rodrigues*



"O problema não está na defesa das árvores. O problema surge quando a defesa da natureza não consegue dialogar com a defesa da dignidade humana". Foto: SOS Arthur Bernardes
"O problema não está na defesa das árvores. O problema surge quando a defesa da natureza não consegue dialogar com a defesa da dignidade humana". Foto: SOS Arthur Bernardes

A cidade ecológica e suas contradições


Curitiba construiu ao longo das últimas décadas, e tem perdido aos poucos seu posto, uma identidade fortemente ligada à sustentabilidade.


A cidade ecológica está presente nos discursos institucionais, nos dizeres do planejamento urbano e também no imaginário coletivo de muitos de seus moradores que, de fato, viram o município ser destaque quando o assunto era preservação ambiental. Assim, não é difícil encontrar pessoas dispostas a defender parques, bosques, rios e árvores, nem observar a repercussão pública que grandes intervenções ambientais na cidade costumam gerar.


Essa capacidade de mobilização que surge é importante e necessária, principalmente em um contexto marcado pelo aumento dos impactos da crise climática, pela perda de biodiversidade e pela crescente pressão sobre os ecossistemas urbanos. Logo, a defesa das áreas verdes e da vegetação da cidade é uma pauta legítima e urgente.


No entanto, existe uma questão que me inquieta. Ao mesmo tempo em que Curitiba demonstra grande capacidade de comoção quando o assunto é a preservação ambiental, a cidade também convive com um crescimento visível da população em situação de rua, com o aprofundamento das desigualdades sociais e com discursos cada vez mais hostis direcionados a migrantes, imigrantes e pessoas em condições de vulnerabilidade e, não, não são fenômenos desconectados, eles coexistem no mesmo território, atravessam as mesmas ruas e fazem parte da mesma realidade urbana. Ainda assim, raramente aparecem articulados nas discussões ambientais mais amplamente difundidas.


Quais vidas mobilizam nossa indignação?


Apesar de ser uma pauta que alfineta alguns, digo já: não se trata de estabelecer uma disputa entre a importância das árvores e a importância das pessoas. Esse seria um debate ainda mais esvaziado de contexto e de percepção coerente da realidade. Mas, para nós curitibanas e curitibanos, a última pauta quente do mundo ambientalista foi a mobilização pelas centenas de árvores cortadas na Avenida Arthur Bernardes, e irei usar ela como exemplo.


A questão não é afirmar que a supressão de centenas de árvores é menos grave do que a precarização das condições de vida de grupos socialmente vulnerabilizados, ambas as situações são graves e merecem atenção. O que me parece necessário discutir é a forma como determinadas vidas mobilizam nossa sensibilidade coletiva com mais facilidade do que outras.


O problema não está na defesa das árvores. O problema surge quando a defesa da natureza não consegue dialogar com a defesa da dignidade humana e quando as desigualdades sociais passam a ser percebidas como um tema secundário, desconfortável ou alheio à pauta ambiental. Quando uma cidade reage com força diante da queda de árvores, mas responde ao crescimento da população em situação de rua ou pessoas em situação de vulnerabilidades diversas com incômodo, hostilidade ou demandas por remoção, talvez seja necessário refletir sobre os critérios, conscientes ou não, que orientam nossa capacidade de indignação.


Essa não é uma reflexão sobre a superioridade de uma vida sobre outra. É justamente uma crítica à hierarquização da vida. É uma tentativa de compreender por que algumas formas de existência parecem despertar proteção imediata, enquanto outras permanecem invisibilizadas ou são tratadas apenas como problemas urbanos a serem removidos do campo de visão.


Vila Pantanal, Pontarolla e tantas outras: ausência de asfalto, saneamento, água, e impactos com as enchentes. Foto: Gibran Mendes
Vila Pantanal, Pontarolla e tantas outras: ausência de asfalto, saneamento, água, e impactos com as enchentes. Foto: Gibran Mendes

Quem pode lutar pela natureza?


Essa reflexão me leva a uma outra pergunta que considero importante para entender a contradição que trago aqui: quem pode lutar pela natureza? Muitas pessoas imaginam a participação cidadã apenas como uma questão de “ter consciência” ou um interesse individual, mas essa interpretação ignora as condições palpáveis que a tornam possível. Pense comigo: participar de reuniões, acompanhar debates técnicos, integrar coletivos, organizar campanhas e disputar narrativas exige tempo, recursos, acesso à informação e uma relativa estabilidade material.


Para quem enfrenta insegurança alimentar, dificuldades de moradia, desemprego ou jornadas exaustivas de trabalho, a luta pela sobrevivência no cotidiano vai ocupar um espaço prioritário, é isso que o sistema impõe. Porém, isso não significa que essas pessoas se preocupem menos com o meio ambiente ou não pensam no futuro do planeta, significa apenas que as oportunidades de organização e participação na pauta são distribuídas de maneira profundamente desigual.


Por isso, a pergunta sobre quem luta pela natureza não pode ser separada de outra pergunta igualmente importante: aqueles que hoje ocupam os espaços de debate ambiental estão criando condições para que outras pessoas também possam ocupá-los? Estão construindo caminhos para que a pauta ambiental dialogue com as realidades das periferias, dos trabalhadores e dos grupos historicamente excluídos dos processos de decisão?


Cleusa, liderança da área Fazendinha, no bairro Campina do Siqueira: risco de despejo forçado às margens do rio Barigui. Foto: Pedro Carrano
Cleusa, liderança da área Fazendinha, no bairro Campina do Siqueira: risco de despejo forçado às margens do rio Barigui. Foto: Pedro Carrano

Sair do ambientalismo e ir para o socioambientalismo é urgente


Quando observamos parte do debate ambiental, há uma impressão de que ainda existe uma dificuldade de construir pontes com as periferias e com os movimentos que atuam em torno de pautas como moradia, trabalho, combate à fome e garantia de direitos básicos. Sabe-se que existem organizações, coletivos e iniciativas que realizam esse esforço de aproximação e que compreendem a dimensão socioambiental dos problemas urbanos. Contudo, essas experiências ainda parecem enfrentar desafios para confluir, coexistir.


Essa dificuldade talvez se relacione à forma como a cidade aprendeu a pensar o meio ambiente. Durante muito tempo, predominou uma visão conservacionista baseada na proteção da natureza, muitas vezes compreendida como uma esfera separada da sociedade, algo que deveria ser preservado, intocado. Mais tarde, consolidaram-se abordagens voltadas para a gestão dos recursos naturais e para o desenvolvimento sustentável, perspectiva que traz a ação individualizad como solução para os problemas ambientais. Embora esses caminhos do pensamento ambiental tenham contribuído para importantes avanços, elas frequentemente deixam em segundo plano questões relacionadas à desigualdade social e à distribuição dos impactos ambientais.


O resultado é que assim passamos a discutir árvores sem discutir habitação, áreas verdes sem discutir exclusão territorial, mudanças climáticas sem discutir pobreza e conservação ambiental sem discutir justiça social.


Não existe justiça ambiental sem justiça social


A realidade insiste em mostrar que esses temas não podem ser desvinculados. É a população mais vulnerável a ser mais exposta às enchentes, às ilhas de calor, à falta de saneamento e aos diversos e severos efeitos da degradação ambiental. Ao mesmo tempo, a exclusão social limita as possibilidades de participação política e dificulta o envolvimento desses amplos setores da população na construção de soluções coletivas.


Talvez a principal contradição da chamada cidade ecológica não esteja apenas nas decisões que afetam suas árvores ou seus parques. Talvez esteja na dificuldade de reconhecer que a defesa da vida exige uma compreensão mais ampla do que entendemos por meio ambiente. Uma cidade que quer ser verdadeiramente sustentável não pode ser medida apenas pela quantidade de áreas verdes que preserva, mas também pela forma como protege e inclui as pessoas que vivem nela, deve haver uma discussão conjunta.


Afinal, não existe justiça ambiental sem justiça social. E talvez o desafio mais urgente do movimento ambiental contemporâneo seja compreender que a luta pela natureza não perde força quando incorpora a luta por dignidade, moradia, alimentação e direitos humanos. Pelo contrário. É nesse encontro que ela se torna mais completa, mais coerente e mais capaz de enfrentar as causas profundas das crises que busca combater.




* Bióloga, mulher negra e periférica, colunista da Vigília Comunica para assuntos sobre a crise climática


**Este é um artigo de opinião. Os posicionamentos no texto são de responsabilidade do/ autor/a. A Vigília Comunica incentiva o debate aberto, plural e responsável. Não concordou? Produza e nos envie seu texto!

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