“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”
- lazzarimlouize
- 20 de mar.
- 3 min de leitura
Por José Pires
Nesta semana, o deputado estadual Tito Barrichello (União) disse que “Jesus não vai no samba, Jesus vai no rock”. A declaração aconteceu durante a audiência pública “Rock que Move a Economia: Uma Nova Visão para o Paraná”, realizada na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) dia 17/3.

A fala preconceituosa faz parte de uma onda de um governo investidas contra o carnaval de Curitiba, que começaram com a esposa do deputado, a vereadora Tathiana Guzella (União) que é autora de um projeto de lei, na Câmara Municipal de Curitiba, que insere o “Carnaval Rock” no calendário oficial da cidade.
Na mesma toada, a Câmara Municipal publicou um vídeo nas suas redes sociais que sugere que a capital não teria um carnaval “como o resto do Brasil” e que sua tradição estaria ligada a um suposto “carnaval de guitarra”.
Depois dos ataques, entidades ligadas ao carnaval e ao samba de Curitiba reagiram. Nos últimos dias, blocos, coletivos, pesquisadores e até produtores ligados ao rock passaram a se posicionar.
Integrantes do Bloco de Samba Boca Negra emitiram uma nota destacando que a audiência na Alep foi atravessada por falas desrespeitosas, vaias e tentativas de ridicularizar o samba, uma expressão que, lembram, é parte fundamental da formação cultural brasileira.
Na avaliação do bloco, o problema não está na valorização do rock, mas na forma como isso tem sido feito. “Não se trata de disputa entre estilos. O que vimos foi desrespeito”, aponta. A nota divulgada pelo grupo é para quem fala ainda em traços de racismo —religioso, recreativo e institucional — e critica o fato de esse tipo de manifestação ter ocorrido dentro de um espaço público, que deveria representar a diversidade da população.
O Boca Negra lembra que o carnaval curitibano existe há mais de 100 anos e nunca foi uma manifestação única. Ao contrário, foi sendo construído por diferentes mãos: escolas de samba, blocos de rua, bailes populares, comunidades de bairro e periferias. “Quando se apaga essa história, se apaga também quem a construiu”, dizem, citando diretamente a cultura negra, o samba e os territórios populares como alvos desse processo.
Dorival Caymmi já dizia que “quem não gosta de samba bom sujeito não é. Ou é ruim da cabeça, ou doente do pé”.
Tito Barichello talvez seja doente do pé, mas ruim da cabeça provavelmente não. O que ele e a esposa estão fazendo é uma tentativa de hierarquizar expressões culturais. O samba, historicamente ligado à população negra e às tradições afro-brasileiras, é colocado como algo “menos legítimo” ou até incompatível com valores religiosos. Já o rock é frequentemente associado a uma estética mais “ocidentalizada” e, no Brasil, muitas vezes apropriado por públicos mais brancos e de classe média.
Existe também, na fala do deputado, um claro viés religioso. A parlamentar sugere uma visão cristã de que tende a rejeitar manifestações culturais associadas a matrizes africanas. Mesmo quando o samba não é religioso, ele carrega essa herança simbólica, o que, para alguns grupos, já é suficiente para rejeição. Ou seja, não é exatamente sobre música, mas sobre quais culturas são vistas como “compatíveis” com a fé cristã.
Ao fazer esse tipo de declaração, o deputado fala diretamente a uma base que se reconhece nessa visão de mundo, que reforçando valores, marcando posição e criando um “nós contra eles”.
No meio dessa disputa, uma frase aparece, repetida em diferentes notas e falas que se manifestaram contra essa onda de ataque, quase como um lembrete básico, mas necessário: Curitiba é plural. E, goste-se ou não, seu carnaval também é.




Comentários