Retomada Kaingang sofre ataques no norte do Paraná
- lazzarimlouize
- 10 de mar.
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Por José Pires
Na noite do último dia 4, a retomada Serrinha, localizada na Terra Indígena Apucaraninha, no município de Tamarana, no norte do Paraná, foi palco de um conflito envolvendo indígenas Kaingang e seguranças ligados a um fazendeiro da região. De acordo com lideranças da comunidade, homens armados invadiram uma construção utilizada como escola provisória e efetuaram disparos para intimidar os indígenas que vivem na área.

Segundo o coordenador da retomada, Anilton Ayn My Lourenço, o episódio ocorreu enquanto lideranças participavam de uma reunião na Aldeia Água Branca, próxima ao local ocupado. Durante o encontro, seguranças contratados pelo proprietário da Fazenda Tamarana teriam arrombado as portas da casa onde funciona uma escola improvisada para atender crianças da comunidade.
A estrutura foi montada pelos próprios indígenas para garantir que as crianças continuassem estudando durante o processo de retomada do território. O espaço funciona em um imóvel desocupado na sede da fazenda e atende 21 alunos das séries iniciais que enfrentam dificuldades para frequentar a escola principal da aldeia, principalmente por causa das condições precárias das estradas e das chuvas frequentes.
Ainda segundo o relato das lideranças, quando os indígenas tentaram impedir a invasão do local, os seguranças dispararam armas de fogo para o alto. Apesar da tensão, ninguém ficou ferido. A comunidade também denuncia que houve danos ao espaço utilizado como escola e que mulheres e crianças foram intimidadas durante a ação.
A retomada ocorre dentro da área da Fazenda Tamarana, ocupada pelos Kaingang desde setembro de 2023. A região faz parte de um território tradicional indígena que integra a Terra Indígena Apucaraninha, reconhecida historicamente como área do povo Kaingang e registrada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Ao longo das décadas, entretanto, a extensão da terra indígena sofreu reduções. Em 1955, os Kaingang receberam por escritura pública uma área de 6.300 hectares. Anos depois, medições realizadas pela Funai apontaram que a reserva possuía apenas 5.574 hectares. Diante dessa redução, a comunidade passou a reivindicar a recomposição do território e realizou ocupações na Fazenda Tamarana em diferentes momentos, como em 2003, 2017 e novamente em 2023.
Atualmente, a reserva abriga cerca de 2,1 mil indígenas, distribuídos em aproximadamente mil famílias. Paralelamente aos conflitos fundiários, lideranças afirmam buscar uma solução negociada para a disputa territorial. Em setembro de 2025, a comunidade informou ao Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) que aceitou provisoriamente uma proposta apresentada pelo governo estadual, por meio da Superintendência de Diálogo e Integração Social (SUDIS), para a transferência das famílias que estão na sede da fazenda para uma área de cerca de 70 alqueires.
Segundo os representantes indígenas, a mudança dependerá da garantia de infraestrutura mínima no local, como energia elétrica, água potável, moradias temporárias e acesso por estrada, além do apoio de órgãos públicos nas áreas de saúde e educação, com participação da Funai, do governo do Paraná, da Secretaria Especial de Saúde Indígena e da Prefeitura de Tamarana.
Enquanto as negociações seguem em andamento, as lideranças afirmam que a comunidade permanece aberta ao diálogo e defende a criação de um grupo de trabalho com participação de todas as partes envolvidas para buscar uma solução definitiva para o conflito territorial, que se arrasta há quase duas décadas.



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