Setor bancário do Paraná eliminou mais de 11 mil postos de trabalho desde 2015
- Vigília Comunica

- há 1 dia
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O fechamento de agências bancárias no Paraná vai além dos números: trabalhadores são demitidos ou passam a viajar diariamente — e, em alguns casos, a viver longe da família — para manter o emprego, enquanto clientes ficam sem atendimento em suas cidades.
por José Pires, Joka Madruga, Louize Lazzarim e Fábio Souza
Os maiores bancos em operação no Brasil atravessam um período de rentabilidade recorde. Em 2025, Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander somaram R$ 124 bilhões em lucro líquido. Enquanto os resultados financeiros atingem níveis históricos, as instituições aceleram um processo de reestruturação que reduz a presença física e transforma a forma de atendimento aos clientes.

A principal justificativa é a digitalização dos serviços. Aplicativos, internet banking e ferramentas de inteligência artificial tornaram as operações mais rápidas e diminuíram custos. Em contrapartida, esse modelo tem provocado o fechamento de agências, a transferência do atendimento para canais digitais e uma brutal redução de postos de trabalho.
Nos últimos dez anos, o país perdeu cerca de 8 mil agências bancárias — uma redução de 37% da rede física. Somente entre 2024 e 2025, 1.345 unidades deixaram de funcionar. Nesse cenário, milhares de bancários perderam o emprego. Entre 2015 e 2026, em todo o Brasil, 93,3 mil trabalhadores do sistema bancário perderam o emprego, segundo informações do Comando Nacional dos Bancários.
No Paraná, dados da Federação dos/das Trabalhadores/as em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec - PR) revelam que entre 2015 e 2025 foram perdidos 11.119 postos de trabalho, uma redução de aproximadamente 35,6% no estoque de bancários.
Os dados da Fetec sobre o emprego bancário no Paraná refletem o estoque de trabalhadores ao final de cada ano, ou seja, o número de bancários empregados após serem contabilizadas todas as admissões e desligamentos ocorridos no período. Em 2015, o estado contava com 31.236 bancários. Em 2021, esse contingente havia caído para 23.034, chegando a 21.884 em 2022, 21.434 em 2023, 20.664 em 2024 e 20.117 em 2025. No acumulado da década, o estoque de trabalhadores encolheu em mais de 11 mil postos de trabalho.
As cidades do interior do Paraná registraram, nos últimos anos, um acelerado processo de fechamento de agências. E essas mudanças foram as responsáveis pelo fechamento gradativo dos postos de trabalho.
O Sindicato dos Bancários de Arapoti e Região (Seeb-Arapoti), por exemplo, representa cerca de 240 trabalhadores distribuídos em 22 municípios. Segundo o presidente da entidade, Alex Aparecido de Almeida, a categoria encolheu significativamente desde a pandemia. "Há quatro anos, nossa base tinha quase 300 bancários. Hoje são cerca de 230 ou 240", afirma. Pelos cálculos do dirigente, entre 35 e 40 trabalhadores deixaram os bancos nesse período. "Isso significa que mais de 10% dos bancários saíram do sistema nos últimos quatro anos, principalmente no período pós-pandemia", destaca.

Para não perder o emprego, bancários precisam viajar todos os dias
Aqueles que não perdem o emprego com o fechamento das agências são compulsoriamente transferidos para agências de outras cidades. Trabalhadores precisam se deslocar dezenas de quilômetros todos os dias para continuar atuando no setor bancário.
Rodrigo Valenga trabalha há 14 anos no Itaú. Ele era gerente de uma agência em Arapoti, que têm pouco mais de 25 mil habitantes na divisa dos Campos Gerais com o Norte Pioneiro do Paraná, a cerca de 240 quilômetros de Curitiba. A agência fechou as portas em 2025 e deixou de atender 4.600 clientes da cidade. Foi a terceira fechada no município desde 2015.
Com o fechamento, cerca de sete trabalhadores perderam o emprego e ele, para manter o seu, foi obrigado a trabalhar em outro município, Carlópolis, que fica a 137 quilômetros de distância.
Sua família vive em Jaguariaíva, que fica a pouco mais de 20 quilômetros de onde ele trabalhava. Mas com o fechamento da agência, ele foi transferido para uma unidade em Carlópolis, único local com vaga disponível. Para evitar uma viagem de quase 300 quilômetros por dia para ir e voltar do trabalho, ele se mudou para a nova cidade e vê a esposa e filhos apenas nos finais de semana.
“Simplesmente, da noite para o dia tive que ir para outra cidade, arrumar uma casa para morar, mudar todo meu estilo de vida e ficar a semana toda longe da minha família. Eu tenho três filhos, um deles tem apenas cinco anos de idade. É bem difícil ficar longe deles a semana toda, mas preciso fazer isso para manter meu emprego”, conta Alvarenga.
Por ocupar um cargo de gerente ele recebe uma ajuda de custo do banco para pagar aluguel em Carlópolis. Os bancos também costumam dar uma ajuda de custo para deslocamento a funcionários que precisam trabalhar em outras cidades, mas ela só vale para quem viaja mais de 100 quilômetros por dia.

Andirá é outro pequeno município do norte pioneiro. Com pouco mais de 20 mil habitantes, ele tem duas agências bancárias. Em uma delas trabalham três gerentes, um deles é Fernando Dias França. Ele chegou à agência depois do fechamento da unidade onde trabalhava, na cidade de Cambará.
O fechamento da agência do Bradesco, em junho de 2025, obrigou seis bancários a serem transferidos para a unidade de Andirá. Fernando hoje percorre diariamente cerca de 20 quilômetros entre Bandeirantes, onde mora, e o local de trabalho. Segundo ele, além da mudança de cidade, os trabalhadores foram recebidos sem qualquer preparação da estrutura física da agência. "Chegamos aqui e não tinha estrutura nenhuma para nos receber. O banco já sabia dessa mudança e mesmo assim não fez nada", afirma. O gerente relata que o clima de insegurança marcou os primeiros dias após a transferência. "Duas colegas choraram porque não sabiam se iam chegar aqui e receber uma carta de demissão", lembra.
França afirma que, mais de um ano depois da mudança, os problemas persistem. Ele diz que abriu mão da própria carteira de clientes como gerente de Pessoa Jurídica (PJ) para evitar a demissão de outro colega, mas nunca foi reconduzido à função, mesmo após surgir uma vaga. "Eu abri mão para o outro gerente não ser desligado e acabei me prejudicando. Hoje me arrependo. Não mexeu no meu salário, mas profissionalmente eu me sinto desvalorizado", relata. Segundo ele, a agência continua operando com espaço insuficiente e os funcionários seguem apreensivos diante da possibilidade de novas demissões, inclusive uma trabalhadora que teme não ser reaproveitada após retornar da licença-maternidade.
O gerente também chama atenção para os custos assumidos pelos empregados transferidos. Todos os dias ele viaja entre Bandeirantes e Andirá para trabalhar, enquanto outros colegas também percorrem dezenas de quilômetros para chegar à agência. Apesar disso, afirma que o Bradesco não oferece qualquer ajuda para o deslocamento. "Quer continuar com o emprego? Você se vira e vem trabalhar", resume. Segundo França, o banco só reembolsa despesas quando o funcionário precisa visitar clientes durante o expediente, mas não cobre os gastos diários com combustível, alimentação ou transporte. Ele afirma ainda que o fechamento da agência de Cambará também afetou os clientes. Dos cerca de 2,5 mil correntistas atendidos pela unidade, muitos optaram por encerrar suas contas em vez de passar a se deslocar até Andirá.
Respostas dos bancos e da Febraban:
A Vigília Comunica entrou em contato com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e também com os bancos citados nesta reportagem pedindo um posicionamento sobre o fechamento de agências, prejuízos a usuários, demissão de bancários e transferência compulsória de trabalhadores.
Por meio de sua assessoria de imprensa a Febraban respondeu:
“A abertura ou fechamento de agências seguem as políticas individuais e estratégicas de cada banco, não havendo monitoramento pela Febraban”.
O Santander respondeu:
“O Santander informa que o encerramento das atividades de algumas agências faz parte da reestruturação da rede de atendimento, acompanhando a mudança de comportamento dos clientes, que já realizam quase a totalidade de suas operações remotamente, por meio dos canais digitais. Clientes Santander podem continuar utilizando os serviços normalmente via aplicativo, internet banking, telefone, chat, além das demais lojas da rede física do Banco. Saques e depósitos, entre outras transações, podem ser realizados nos terminais da rede Banco24Horas. O time de especialistas do Banco também segue visitando clientes-empresas in loco."
E o Bradesco:
“O Bradesco aperfeiçoa continuamente seu modelo de atendimento para atender às novas demandas dos clientes, combinando canais físicos e digitais de forma complementar e alinhada à evolução do setor bancário. Atualmente, cerca de 98% das transações são realizadas por meios digitais, o que demanda ajustes na rede de atendimento e na estrutura organizacional.
As decisões relacionadas à rede de agências consideram fatores como o perfil de utilização dos canais pelos clientes, a demanda por atendimento presencial e aspectos operacionais. Nossos clientes continuam contando com atendimento completo por meio de agências próximas, da rede Bradesco Expresso e canais digitais do banco.
Com relação à gestão de pessoas, os ajustes organizacionais são realizados de forma planejada e responsável, com prioridade para a alocação interna de talentos, a mobilidade profissional e o reposicionamento de profissionais sempre que possível. Não há programa de demissões.
O Bradesco também mantém investimentos contínuos em qualificação, desenvolvimento de carreira e capacitação de seus funcionários, buscando oferecer oportunidades de crescimento e preparação para as transformações do mercado”.




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