OPINIÃO I Carta aberta sobre a desvalorização dos professores em Curitiba
- Vigília Comunica

- há 4 dias
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Para o exercício da docência, estudar não é escolha, mas condição para a profissão
por Amanda Dantas*

A formação para o exercício da docência se dá em muitos âmbitos: na graduação (formação inicial), na pós graduação (stricto e lacto sensu), nos cursos de aperfeiçoamento (formação continuada) e na prática cotidiana, por meio das experiências vivenciadas. Portanto, um plano de carreira que realmente valorize o profissional de educação deveria levar em consideração todo esse conhecimento acumulado e, constantemente atualizado, e também o tempo de serviço, que corrobora para uma práxis mais eficiente.
Para o exercício da docência, estudar não é escolha, mas condição sine qua non para a profissão, uma vez que o conhecimento científico é nosso objeto de trabalho. E essa formação constante precisa ser valorizada financeiramente, pois despende tempo e recursos por parte dos professores. Tempo este que se estende para além dos portões das escolas, interferindo, muitas vezes, na qualidade de vida e na redução do convívio familiar.
Resumindo: professores estudam. Estudam muito. O tempo todo.
Hoje, na rede municipal de educação de Curitiba, depois de mais de uma década de salários congelados, os professores estão participando de um processo de crescimento vertical, no qual poderão subir de nível e aumentar um pouco o salário. No entanto, o plano é muito problemático. Vamos a alguns pontos:
1. A progressão por níveis deveria ser automática: após concluir uma formação, por exemplo, uma Especialização, o docente apresentaria o diploma, avançaria para o nível subsequente e teria um aumento no salário, inclusive, porque a maioria das especializações é paga, gerando custos ao professor;
2. Todos os professores e professoras deveriam ter o direito de ser valorizados em sua trajetória formativa. Mas nesse Plano, o que temos é uma espécie de jogo de azar, onde há muitos inscritos e poucas vagas. Os profissionais disputam ponto a ponto, num placar injusto que beneficia, por exemplo, quem atua na formação continuada da RME em detrimento de quem está no chão das escolas;
3. Quem têm se beneficiado desse Plano são as instituições de ensino superior do campo privado, que lucram com “combos” de Especializações realizados em tempo recorde: “Compre duas e leve três, sem Trabalho de Conclusão de Curso. Curse 900 horas em dois meses!” E lá vai o professor comprometer parte de seu salário já ruim...Será que esse plano realmente preza por qualidade na Educação?
4. Nesse Plano o acesso aos níveis de formação pode ocorrer da seguinte da seguinte forma:
a) nível II - Especialização Lato Sensu em área compatível com as atribuições do cargo;
b) nível III - Mestrado ou 2 (duas) Especializações Lato Sensu, distintas da utilizada para passagem ao Nível II, em áreas compatíveis com as atribuições do cargo;
c) nível IV - Doutorado ou 3 (três) Especializações Lato Sensu, distintas das utilizadas para passagem aos Níveis anteriores, em áreas compatíveis com as atribuições do cargo.
Porém, formações diferentes precisam ser valorizadas de acordo com o tempo de estudo e o nível de educação formal: pós graduação lato sensu é diferente de pós graduação stricto senso, assim como o nível de aprofundamento para a produção de um artigo, dissertação e tese também é distinto dentro do campo de produção de pesquisa em Educação. Nesse sentido, o Plano de Carreira do município deveria ter níveis diferenciados para as diferentes titulações;
5. Quando o Plano de Carreira equipara as formações, desvaloriza aquelas que produzem pesquisas e nega a importância delas para o avanço de políticas educacionais e curriculares, fazendo com que os professores se desmotivem a fazer esses estudos que trazem à luz questões tão fundamentais e caras à Educação de forma mais ampla;
6. A Educação é um campo fértil para investigação, porém o Plano não considera formação em áreas afins, como a Sociologia e a Filosofia;
7. E, por fim, o percentual a ser pago aos professores que forem contemplados om o Plano é insuficiente se considerarmos todo o período do congelamento e as perdas salariais que tivemos. Curitiba tem arrecadação suficiente para pagar bem seus professores.
Uma Carreira tão frágil e pouco atrativa não diz respeito apenas aos profissionais da Educação que atuam em Curitiba, mas a toda comunidade escolar, aos pais e estudantes, pois o mau gerenciamento da RME tem reduzido o interesse dos professores em atuar no município e a falta de professores nas unidades já é visível, em alguns casos alarmante.
O futuro da Educação em Curitiba é responsabilidade de toda a comunidade curitibana. Cobre dos vereadores e do prefeito.
A valorização dos profissionais da Educação diz respeito a todos!
*Doutora em Educação e Psicopedagoga




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