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Opinião | Luta dos estudantes da UFPR se liga ao Maio de 1968

Ocupação do prédio do DCE reafirma a recusa a submissões


por Gabriela Zadvorne*


“O direito a viver não se mendiga, se toma”, a famosa frase de apelo histórico foi dita em uma das mobilizações estudantis de Maio de 1968. O grito, mais do que nunca, faz-se atemporal, sendo o manifesto cotidiano daqueles que lutam por uma educação pública de qualidade.

Ao refletir sobre o ato de ser estudante e lutar por aquilo que é nosso por direito, a frase nos convida a uma viagem no tempo – embarcamos com parada em maio de 1968, mês que marca uma série de protestos, greves e manifestações em diversos países, esses motivados pelo movimento estudantil francês.


De modo geral, os jovens tomados pelo sentimento de rebeldia e revolução, resolveram questionar as estruturas sociais em que estavam condicionados. Guerra Fria, corrida armamentista, globalização e a bipolaridade política eram alguns dos anseios da mocidade da época.


No Brasil não foi diferente. Esses anseios se perpetuaram pelas condições políticas do país que vivia em uma ditadura militar. Entre tantas novas formas de presidir um país, cercear convicções não foi apenas desfecho político – foi a maneira encontrada para derrubar aquilo que os poderosos viam como subversivo.


Derrubar a ordem estabelecida se fazia necessário – era imprescindível lutar pela liberdade que já não existia. Os jovens, aqueles que ousaram se opor ao sistema, tiveram que encarar logo após o golpe militar de 1964 uma lei que proibiu as atividades políticas da União Nacional dos Estudantes (UNE) e limitou a autonomia estudantil.


A lei em questão era a Lei Suplicy de Lacerda, sancionada em 9 de novembro de 1964 pelo primeiro presidente militar, general Humberto de Alencar Castelo Branco. A nova norma levava o nome do ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda (1964-1966), responsável pela proposta normativa que colocou as entidades estudantis na ilegalidade.

Engenheiro e professor, Flávio Suplicy de Lacerda assumiu a Vice-Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1948 e no ano seguinte tornou-se o terceiro reitor da instituição. Suplicy, uma figura desaprovada pelos estudantes, ganhou um busto, uma escultura lapidada em bronze colocada em um pedestal no jardim do complexo da Reitoria.

Uma figura que até hoje desagrada gerações, teve sua escultura derrubada por um grupo de estudantes no dia 14 de maio de 1968. Fruto de uma série de manifestações, os alunos da UFPR e da Universidade Católica, ao lado da União Paranaense dos Estudantes (UPE) e do Diretório Central dos Estudantes da UFPR (DCE), lutavam contra os acordos MEC-USAID, projeto que estabelecia cooperação entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID).


De maneira resumida, os novos acordos firmados objetivavam a cobrança de mensalidades nas universidades. Na UFPR, o projeto entraria em vigor a partir do vestibular que aconteceria no dia 12 de maio, obrigando os calouros dos cursos de Engenharia e Direito a pagar anuidades pelo ensino.


Os jovens, insatisfeitos com as novas medidas, logo se organizaram, protagonizando os confrontos conhecidos como a “Batalha do Politécnico”, no dia 12 de maio, e o "Cerco da Reitoria” em 14 de maio. Nesse episódio, os estudantes derrubaram o busto de Suplicy, defenestrando e desconfigurando a escultura.


O fato político protagonizado pelos estudantes foi considerado um dos grandes movimentos contra a repressão da Ditadura no Paraná, e no ano de 2026 completou 58 anos. O busto de Suplicy permanece no pátio da Reitoria até os dias de hoje – talvez com um novo significado: manter viva a luta histórica por uma educação pública de qualidade. Em 2014 ele foi derrubado pela segunda vez, quando o golpe militar completou 50 anos. Uma escultura muitas vezes despercebida, continua sendo figura de desgosto para muitas gerações.


Atos de resistência que completaram 58 anos nesta semana exibem o significado do próprio movimento estudantil que sempre esteve à frente das decisões políticas do país, tem se mostrado aguerrido contra as novas movimentações que objetivam o desmonte educacional.


Na data que marca a luta histórica dos estudantes no Centro Politécnico da UFPR em maio de 1968, os estudantes da Universidade Federal ao lado do Diretório Central dos Estudantes da entidade, Centros e Diretórios acadêmicos e movimentos sociais, se reuniram para cobrar a atual Reitoria sobre os casos de assédio e violência contra a mulher na instituição, e sobre o projeto de retirada e restrição dos espaços físicos dos Centros Acadêmicos do Politécnico.


Movidos pela indignação, os estudantes lutam pela permanência das famosas “Casinhas do Poli”, pequenos ambientes onde permanecem os Centros e Diretórios Acadêmicos dos cursos ofertados no Centro Politécnico. O projeto anunciado pela Reitoria visa restringir espaços fundamentais para a permanência e a representação dos estudantes na universidade, criando um novo “centro de convivência”.


O ato do reitor pode parecer inofensivo para aqueles que desconhecem a organização dos estudantes na universidade, mas camufla a expulsão dos alunos de suas entidades físicas e se mostra uma ameaça à autonomia estudantil, se configurando como um despejo autoritário.


Além disso, os jovens reivindicam que o prédio do DCE volte a ser dos estudantes, pois desde 2014 o espaço foi tomado pela Reitoria da Universidade e tem se mantido fechado. A estrutura predial segue com problemas sérios de segurança e os estudantes cobram sua revitalização.


O espaço conta com documentos históricos do movimento estudantil do estado, sendo um rico material de estudos, principalmente sobre o período da ditadura. O abandono do espaço e dos documentos torna-se uma violência contra o próprio movimento estudantil e as entidades que ajudaram a construir a história da universidade.


A luta dos estudantes da UFPR se liga ao Maio de 1968, não apenas por suas reivindicações, mas principalmente pela conjuntura política mundial. Vivemos mais uma vez o assombro nuclear, conflitos territoriais e a ascensão do fascismo mundialmente.


Maio é um mês de luta dentro da UFPR. O movimento estudantil, que periodicamente nasce e renasce enfrentando batalhas quase impossíveis, hoje mostra que mesmo em uma conjuntura adversa ainda é resistência contra a ruptura de direitos estudantis.


Coincidência ou não, Maio de 1968 jamais poderá ser comparado com qualquer outra luta travada. Mesmo assim, as imposições e a retirada de direitos dos estudantes continuam existindo em todo território nacional, sendo não apenas um projeto eternizado em folhas de jornais do período da Ditadura, mas um projeto contínuo de desmonte educacional.


Os estudantes sempre foram símbolo de resistência, e mais uma vez protagonizam dentro da Universidade Federal do Paraná uma luta legítima pela liberdade. A luta pela autonomia estudantil pode ser interpretada como um ato de rebeldia – mas que essa seja combustível para as lutas futuras.


A viagem no tempo trazida pela frase nos convida à reflexão. A educação pública de qualidade é um pilar inegociável na construção de uma sociedade justa. Não espera-se benevolência para ter acesso aos direitos fundamentais, pelo contrário, as conquistas dos estudantes sempre vieram através de luta e a recusa de submissões.


*Gabriela Zadvorne é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR)

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