Quando a “capital ecológica” corta suas árvores históricas
- Vigília Comunica

- 21 de mai.
- 3 min de leitura
por Elóy Jacintho ( Elóy Nhandewa) e Luciano Padilha Becker
Derrubar 103 árvores nativas — entre elas araucárias centenárias — não é apenas uma intervenção urbana. É um gesto carregado de simbolismo político, cultural e espiritual. Em um tempo marcado pela emergência climática, pela intensificação das enchentes, tornados, secas e ondas de calor, escolher o corte de árvores de grande porte como resposta do poder público revela muito sobre o modelo de cidade e de sociedade que está sendo imposto: uma lógica onde o concreto vale mais que a vida, onde o lucro e a pressa falam mais alto que a memória, a biodiversidade e o futuro.

Para os povos indígenas, as árvores não são obstáculos ao “progresso”. São seres vivos, guardiãs do território, parte de uma grande rede de equilíbrio entre humanos, animais, águas e espíritos. A araucária, símbolo do Paraná, carrega não apenas importância ecológica, mas também ancestralidade. Sua presença conta histórias antigas da terra, do pinhão, dos ciclos da natureza e dos povos que aprenderam a viver sem destruir, que espalharam araucárias por este chão. Cortar uma araucária é também ferir a memória coletiva de um território.
O mais grave é que essa destruição acontece justamente em um momento em que o mundo inteiro discute crise climática e justiça ambiental. Enquanto governos discursam sobre sustentabilidade em conferências internacionais, seguimos assistindo, no cotidiano das cidades, decisões autoritárias tomadas sem diálogo real com a população, especialistas, comunidades tradicionais e ativistas ambientais. A ausência de escuta revela uma visão ultrapassada de gestão pública: aquela que trata participação popular como problema, e não como fundamento da democracia.
E quando cidadãos se levantam para defender as árvores, o que recebem não é abertura para debate, mas ataques, criminalização e violência simbólica. Ativistas ambientais passam a ser tratados como inimigos, como se proteger a vida fosse um ato radical, “seletivo” . Isso evidencia uma inversão perigosa: quem destrói é protegido pelo discurso do desenvolvimento e pelo aparato repressor, enquanto quem resiste é atacado por tentar impedir mais um avanço da devastação. Não é a primeira vez neste governo, já estivemos em frente a prefeitura protestando após o corte de 10 ha de mata nativa no aterro de Fazenda Rio Grande.
A derrubada dessas árvores envia mais uma mensagem devastadora para a sociedade. Mostra que nem mesmo árvores históricas, nativas e protegidas simbolicamente escapam da lógica imediatista que transforma tudo em mercadoria descartável. Se a própria “capital ecológica” permite o corte de gigantes da floresta urbana sem diálogo transparente, qual compromisso real existe com a regeneração ambiental?
Não existe justiça climática sem participação popular. Não existe cidade sustentável construída contra a população e contra a natureza. Uma árvore adulta leva décadas — às vezes séculos — para atingir sua plenitude ecológica. Nenhuma compensação simplista, nenhum plantio protocolar de mudas frágeis substitui a complexidade de uma floresta urbana madura, capaz de amenizar temperaturas, abrigar fauna, proteger águas e oferecer respiro em meio ao caos urbano.
Os povos indígenas ensinam que a Terra não pertence aos seres humanos; somos nós que pertencemos a ela. Quando uma árvore cai, não cai sozinha. Cai junto um pedaço da sombra, da água, da biodiversidade, da história e da possibilidade de futuro. A crise climática não será enfrentada apenas com discursos, marketing verde ou eventos internacionais. Ela será enfrentada quando governos compreenderem que proteger árvores é proteger vidas — e que ouvir quem resiste é condição mínima para qualquer projeto que se pretenda democrático.
A pergunta que permanece é: até quando seguiremos tratando seres vivos centenários como entraves, enquanto ignoramos os verdadeiros obstáculos à vida — a ganância, a omissão e a incapacidade de ouvir o chamado urgente da Mãe Terra?




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