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A filha de Frankenstein

por Lea Oksenberg


Nas últimas horas, cruzar o corredor virou uma prova de atletismo com pitadas de filme B. Cabeça baixa, passo largo, olhar cravado no chão — tudo para desviar do espelho. Não por vaidade ferida, mas por puro instinto de sobrevivência. O que devolve o reflexo não chega a ser uma cara: parece mais um rascunho de barro amassado às pressas, um monstrengo caseiro ainda em obras.


Foto: Freepik.
Foto: Freepik.

A coisa desandou tanto que o olho esquerdo simplesmente pediu licença e fechou para balanço. Agora vejo o mundo por uma fresta, em plano detalhe, brigando contra um sono pesado que me apaga no sofá a cada dez minutos. O corpo pede cama, o rosto lateja, mas chamar o socorro da dentista para uma injeção salvadora? Nem morta.


É aqui que a valentia vira piada de salão. Eu aguento broca rangendo no osso, corte, costura e a reconstrução de meio crânio sem piscar. Mas me mostre uma agulha e a alma abandona o corpo. Se me dessem a chance, preferia dez chibatadas nas costas a estender o braço para aquela picada sonsa. A chibata, pelo menos, tem uma certa nobreza dramática; a agulha é só uma covardia miúda, afiada e humilhante.


Meio grogue, caolha por pura teimosia e esparramada entre os travesseiros, só me resta esperar o estrago desinchar. A dignidade volta com os dias — até lá, o espelho está formalmente demitido.


Espelho, espelho meu

Existe alguém mais louca do que eu?

(Tão beata, tão à toa — Guto Graça Mello e Naila Skorpio

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